OH RAPAZIADA! FURA-SE «O GAJO» JÁ AQUI?!
Era caso assente a partida de António Granjo e Cunha Leal para bordo do Vasco da Gama.
– Não será conveniente levarmos os sobretudos? – Lembrou este último.
Ao que Benjamim Pereira objetou:
– Não é preciso. Lá a bordo há camas muito fofas e edredons.
Saíram. No corredor, Granjo, depois de pedir licença a Cunha Leal, ofereceu ao Zeca, o filho mais velho, uma nota de um escudo, metida numa caixinha de madeira que servira a cigarros. À porta entregou a pistola ao guarda-marinha. Cunha Leal teimou em continuar com a sua e conseguiu-o. Um marinheiro que estava no patamar objetou, num grande tom de sinceridade:
– Não, Sr. Leal, não é preciso. Nós não somos nenhuns bandoleiros.
Entretanto, uma vizinha que estava à janela e que foi mandada retirar para dentro, sob a ameaça de ser alvejada a tiro, ouviu gritar do camion em que, à porta, aguardavam os prisioneiros:
– Oh rapaziada! Fura-se o gajo já aqui?!
António Granjo e Cunha Leal sentaram-se ao lado do chauffeur. Em pé e ao lado, seguiu Benjamim Pereira. Atrás, no vazio do carro, cerca de uma dezena de marinheiros. O guarda-marinha avisou:
– Vamos para o Arsenal pelos sítios mais escuros e onde não se vejam grupos.
E, ao partir:
– Por aí não, que há muita gente escondida nessas casas em construção.
O carro, mudando de rumo, seguiu. Qual o trajeto? É difícil reconstitui-lo. Quem nos forneceu estes sensacionais informes disse-nos que talvez o camion tivesse passado ao Rato, Rua da Escola Politécnica, Patriarcal, Largo de S. Roque, Chiado e Rua Nova do Almada. O que é certo, o que é absolutamente verdade é que, num dado momento, passou em frente do portão do Arsenal. Admirado, Cunha Leal reparou que seguiam em direção ao Terreiro do Paço. Pensou: talvez nos queiram desviar do Arsenal de Marinha, embarcando-nos na Ponte do Sul e Sueste. Mas não. Benjamim Pereira conduziu os seus prisioneiros para os lados do Arsenal.
Ouviram-se gritos:
– Cá vai o homem!
– Cá vai preso o malandro!
A vozearia ia num crescendo assustador. Pediam raivosamente, numa ânsia de sangue:
– Mata-se, mata-se já.
Cunha Leal de pé, escudando com o seu corpo António Granjo, invetivou a turba. Energicamente disse que nem ele nem o presidente do Ministério tinham medo das balas deles, uma vez que já tinham sentido as balas dos alemães. Era covarde e vil tal procedimento. E só essa atitude audaciosa do revolucionário de Santarém conseguiu fazer baixar as carabinas erguidas.
O camion, depois de ter chegado até ao Ministério do Comércio, retrocedeu, seguindo desta vez para o Arsenal. Ali entraram sem novidade. Cunha Leal e António Granjo apearam-se junto ao pavilhão que se ergue à esquerda de quem entra naquele estabelecimento do Estado. À porta estavam vários oficiais. Que lembre o nosso informador, os Srs. Falcão, Câmara Leme, Carvalho Crato e Madeira, este último vestido à paisana.
Eram nove horas e meia da noite. A sala de ordens, constituída pelo rés-do-chão do pavilhão, estava perfeitamente iluminada. No largo, onde também não faltava luz, havia alguns civis armados de carabinas e pistolas, soldados da GNR e marinheiros. Nessa altura, pessoas conhecidas e outras desconhecidas rodearam Cunha Leal, levando-o à força para o largo que enfrenta a secção do edifício em que funciona a direção das construções navais. Há quem o censure por ter dado hospitalidade ao malandro do Granjo, lembrando que, por esse andar, qualquer dia filiar-se-ia no Partido Liberal. Ele, então, num grande sentimento de orgulho, ainda tem coragem para lhes gritar que tinha efetivamente dado hospitalidade ao presidente do Ministério demissionário que era um homem honrado, que o honrara com a utilização da sua casa!…
TENHAM CUIDADO COM A ENTRADA NO VASCO DA GAMA…
O grupo que rodeia Cunha Leal engrossa rapidamente. Pretendem afastá-lo.
Ele resiste, invetivando, lançando àquela gente os piores insultos. Descobre Benjamim Pereira entre a multidão e grita-lhe:
– Eu saí de casa com a sua palavra de honra em como me não separaria de António Granjo. Reclamo o cumprimento dessa promessa!
A turba, enraivecida, reclama a prisão de Cunha Leal. Mas ele nada receia. Continua a insistir sempre, arrancando, por fim, ao guarda-marinha a garantia de que iriam ambos presos para bordo.
– Presos? Mas não foi isso o que nós combinámos. Eu e o Granjo viemos passar apenas uma noite no rio.
A confusão aumenta. Cunha Leal continua a reclamar que seja levado para junto do presidente do Ministério. Há uma altura em que um marinheiro, a coberto da gritaria que se ouve em todos os cantos do Arsenal, lhe segreda ao ouvido, muito baixinho, numa aflição que dificilmente disfarça:
– Tenham cuidado com a entrada no Vasco da Gama.
Por fim, Benjamim Pereira conduz Cunha Leal para um rebocador que estava ao fim da ponte grande, dizendo-lhe que esperasse ali por ele, que ia buscar António Granjo. Seguiriam depois, imediatamente, para o navio-chefe.
– Vá buscar já o Granjo. Se não aparece já com ele, obriga-me ou a queimar os miolos ou a lançar-me ao mar.
O homem que tantos debates parlamentares têm celebrizado ficou só. Um sargento vai ter com ele e a conversa estabelece-se. O oficial inferior lamenta a frequência dos movimentos insurrecionais, que tanto perturbam a vida do Pais e a da corporação de que faz parte. Um dos marinheiros do gasolina oferece-se a Cunha Leal para ir, secretamente, todos os dias, ao Vasco da Gama, a fim de trazer quaisquer recados. Súbito, uma sentinela que, há minutos já, observava o grupo do alto da ponte, pergunta com rudeza, desrespeitosamente, ao sargento:
– Quem é esse malandro que está ai?
– Não sei, não sou polícia – responde este, escapulindo-se.
O marujo, então, ajoelha e, ao mesmo tempo que dispara a arma, exclama raivosamente:
– Não és polícia? Então aí vai para ti e para ele.
O homem continua a disparar a arma e a perguntar a Cunha Leal a identidade. Este, que se abrigara com a amurada do barco, aproveita uma curta interrupção do tiroteio para responder, inquebrantável sempre:
– Sou um parvo chamado Cunha Leal, que tem tido a desgraça de andar metido com vocês!…
– Ah! Bem sei. És o patife do ex-ministro das Finanças.
E, sempre ajoelhado, continuou a fazer fogo. Cunha Leal, que o segundo tiro ferira na garganta, ajoelha, reduzindo a superfície do alvo. Só quando a sentinela cessou o fogo se ergueu, exclamando:
– Já deves estar satisfeito…
E, acompanhado por dois marinheiros que apareceram no local, subiu a escada da ponte para ir ao posto de socorros. Tinha o peito inundado de sangue e ignorava-se a gravidade dos ferimentos. Quando passou ao pé do seu agressor, este quis disparar de novo. Os camaradas impediram-no. Mas ele impôs, carabina sempre apontada, que Cunha Leal regressasse ao barco. Não se podia dominar o energúmeno e o ferido voltou à sua anterior situação. Só então se resolveu a refugiar-se numa das câmaras. Decorridos uns dez minutos, apareceu um marujo com uma vela acesa, que, depois de lhe observar os ferimentos, comentou:
– Já lá tem a sua conta!

