CARTA DE ÉVORA – Em louvor do Azeite! – Joaquim Palminha Silva

evora

(Entre Novembro e Fevereiro,

Apanha-se a azeitona)

            Num tempo que a antiguidade quase desconhece, os povos marítimos derramavam odres de azeite sobre as enfurecidas crinas brancas das ondas do mar, acreditando que o óleo as acalmava, dado que estas eram cavalos de água empinados para derrubarem o Homem.

            Símbolo da paz entre os homens, a oliveira dá o seu fruto que, segundo as regiões, já se chamou oliva, mas agora responde apenas ao nome de azeitona, donde se extrai o óleo que hoje tem uso quase exclusivo na culinária. No entanto, a utilidade do azeite já foi multifacetada, e o seu significado para o Homem bem mais profundo. De utilizações diversas, o azeite está ligado à alma do Homem que, como esta, se espreme e consome. Nesta ordem de ideias, não devemos estranhar o ditado popular que muito a propósito o utiliza, ao dizer que alguém «está com seus azeites», querendo-se significar com esta expressão que alguém está de mau humor.

                                               «A Oliveira é a paz

                                               Que se dá aos bem casados;

                                               As palmas ao sacerdote,

                                               Alecrim aos namorados».

                                               (Do Cancioneiro Popular)

            Amigo dos defensores de castelos, na época medieval foi largamente utilizado na defesa de fortalezas na nossa linha de fronteira. Os portugueses sitiados atiravam das ameias, do cimo das muralhas, caldeirões de azeite a ferver sobres os imigos que procuravam subir as torres ou forçar as grossas portas. Mas se nestes lances espalhou a dor e o extermínio, o azeite foi noutro tempo e noutros lugares medicamento recomendado. Na antiguidade, os romanos usavam de azeite para sarar chagas vivas, aliviar a dor das feridas e alimentar a luz das lamparinas e candeias. E o adagiário popular, desde tempos remotos, acompanha este legado com o seu registo: «Azeite de oliva, todo o mal tira»; «Azeite, dai-mo à ceia e tirai-mo à candeia». Neste sentido, logo o «Cancioneiro Popular» segue de perto o adagiário português:

                                   «A Oliveira do Adro,

                                   Ramo dela tem virtude:

                                   Passei por ela doente

                                   E logo tive saúde».

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Varejadores alentejanos, Concelho de Montemor-o-Novo, anos 50 do século XX.

No cancioneiro popular tem lugar de destaque os varejadores:

                                                              «Varejai, Varejadores,

                                                               Apanhai, Apanhadeiras,

                                                               Apanhai baguinhos de oiro

                                                               Que caem das Oliveiras.»

                Ungido de azeite foi, no povo eleito, o monarca e, depois, o Messias. O azeite de oliveira era um dos principais produtos da Terra Prometida: símbolo da riqueza e da abundância. Servia no chamado «crescente fértil» para fazer perfumes e ungir sacerdotes.

            Durante muitos mil anos foi o azeite amigo do saber, pois de azeite se enchiam as lamparinas destinadas a iluminar as vigílias dos estudiosos, dos reveladores do mundo espiritual e material. O azeite está associado à verdade, tão maltratada nos dias que correm e, como tal, é consagrado pela tradição popular: «O azeite e a verdade andam sempre ao de cima».

            Deve ser límpido, o azeite da candeia que assinala continuadamente a presença de «Jesus Cristo» no tabernáculo do altar da Igreja. Do «Cancioneiro Popular» recordamos a quadra de recorte singelo:

                                   «Não me cortes a oliveira,

                                    Nem lhe ponhas o machado

                                   Que é o que dá o azeite

                                   Para alumiar o sagrado.».

Antigas lembranças, remotas memórias, usos e costumes ultrapassados, dirão os “doentes” do “progressismo” material… Hoje, para as feridas e as chagas oferecem-se bálsamos menos simples inocentes que o azeite. Com a luz eléctrica os estudiosos dispensam a candeia e a lamparina de azeite, para lerem e estudarem até de madrugada… O azeite dos nossos dias, além da culinária, está limitado ao altar da igreja, onde assinala a presença do sagrado

Diz-nos melancolicamente o cancioneiro popular:

                                   «Oliveira chora, chora,

                                   Ela chora com razão,

                                   Que lhe colhem a azeitona

                                   Deitam-lhe a rama no chão.».

Com a decadência rápida da “civilização” mediterrânica (“civilização” da oliveira sagrada, a que uniu Atenas a Jesus Cristo!), tem vindo a reduzir-se a hegemonia do azeite, paulatinamente substituído por outros óleos (vegetais?). Na floresta dos símbolos arcaicos que chegaram até nós, o respeitável óleo sagrado resiste e, graças a nova forma de entender o mundo vegetal e a saúde humana, há hoje um lugar de honra para o azeite!

            Bem hajas, azeite, antigo e sagrado alimento da luz!

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