CARTA DE PARIS – Grande Guerra: a Batalha de La Lys – por Manuela Degerine

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No início de 1918 os alemães intensificam os ataques à frente portuguesa. O capitão Menezes Ferreira escreve: “Os meses de Janeiro, Fevereiro e Março até às vésperas de 9 de Abril de 1918 são meses terríveis para o pequeno exército português!”[1] Atentemos na eloquência dos números: há 44 baixas em fevereiro e 741[2] em março. Luís Alves de Fraga cita a resposta de um soldado a quem perguntavam se na sua zona caíra uma granada: “Eu cá nan dê por nada, mê Capitão! Tamem elas san tantas que um home já as bota ao desprezo!…”[3].

À medida que a situação se degradava e a exaustão dos soldados, nunca rendidos nas primeiras linhas, multiplicava as insubordinações, numerosos oficiais arranjavam – com cunhas patrióticas – maneira de voltar a Portugal, o que contribuiu para gerar tamanha revolta e tão grande desânimo que houve sucessivos motins e tentativas de deserção; ao ponto de o Exército Britânico programar a substituição do CEP por tropas inglesas. Menezes Ferreira evoca com humor esta esperança: “um largo repouso que lhe havia prometido o “camóne” lá para as bandas de Boulogne-sur-mer”[4]. Porém, poucas horas antes da rendição, os portugueses sofreram a ofensiva de um inimigo muito mais armado e numeroso; e as unidades britânicas (que de um lado ligavam com as nossas) recuaram abrindo uma brecha por onde os alemães progrediram. Foi – na noite de 9 de abril de 1918 – a batalha de La Lys durante a qual houve cerca de 7500 portugueses mortos, feridos, desaparecidos (em pedaços?) e prisioneiros (alguns depois fuzilados pelos alemães[5]).

Luís Alves de Fraga explica: “Um milhar e meio de bocas de fogo a disparar, numa frente de dezena e meia de quilómetros, impõe tanto terror como o terramoto mais temível que se possa imaginar; de noite, o céu aparece como se a aurora estivesse para despontar; no ar sibilam os projécteis de forma diferente, em concordância com os seus calibres; a terra revolve-se a cada impacto, abrindo crateras com mais de vinte metros de diâmetro e engolindo homens e armamento com tanta facilidade como as ondas do mar lambem a areia da praia”[6]. (O capitão Menezes Ferreira evoca o som: “O estrondo que atroa os ares durante algum ataque é pavoroso e indiscritível”[7].)

Distinguiu-se neste inferno Aníbal Milhais, um rapaz de Valongo (Murça): o prodigioso “soldado Milhões” que veio a ser condecorado.

[1] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, p. 48.

[2] FRAGA, Luís Alves de, “A Batalha de La Lys” in “Guerra e Marginalidade, O Comportamento das Tropas Portuguesas em França, 1917-1918”, ed. Prefácio, Lisboa, 2003, p.116.

[3] Idem, p. 30.

[4] MENEZES FERREIRA, op. cit. p. 50.

[5] Idem, p. 53: « feitos prisioneiros e, mesmo assim, muitos destes são depois fuzilados”.

[6], FRAGA, Luís Alves de, op. cit. p. 118.

[7] MENEZES FERREIRA, op. cit., p. 44.

 

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