CUNHA LEAL E ANTÓNIO GRANJO TROCAM AS ÚLTIMAS PALAVRAS
Decorreram mais uns cinco minutos. Enquanto lamentavam a ocorrência, há marinheiros que erguem as carabinas, na intenção de liquidarem o defensor de António Granjo. Mas esse gesto de violência não vai até à efetivação, provocando a Cunha Leal uma apreciação em que há muito de desânimo e de repulsa por tudo quanto o rodeia:
– A minha vida pouco vale…
Ao que Benjamim Pereira acorre, pressuroso, a retificar:
– É sagrada!
Os primeiros socorros são rápidos. Cunha Leal, mal aplicados os pensos aos dois ferimentos da garganta e ao do peito, volta a preocupar-se com o homem que se confiara à sua guarda:
– Onde está António Granjo?
Há quem dê uma boa notícia:
– O doutor está entregue à guarda do Sr. Carvalho Crato.
Já tinham dado dez horas da noite há cerca de vinte minutos. Pretendem fazer sair Cunha Leal num automóvel e ele deixa-se conduzir, convencido de que a vida de António Granjo já não corre perigo. Está pálido, extenuado pelas emoções violentas recebidas durante o dia e a noite. A perda de sangue é importante. Chegou a sentar-se no carro, com um sargento à esquerda e um enfermeiro à direita. À frente, acocorados, dois marinheiros armados de espingardas. Quando passaram o portão, perguntaram:
– Quem vai ai?
– É o senhor Cunha Leal.
Alguém completou:
– O ex-ministro das Finanças…
Erguem-se imediatamente as vozes, em protesto. Há gente que quer mais sangue e que define esse desejo nestas palavras cheias de crueza:
– Mata-se! Para que há-de sair?
Cunha Leal vê novamente armas apontadas ao seu peito rijo de lutador. Enquanto os seus companheiros se evadem, o chauffeur lamenta-se:
– Que mal teria feito para andar metido nisto?!
O ferido pretende evitar que, por sua causa, alguém perca a vida e salta ao chão e volta a entrar no Arsenal. A gente que se comprime no túnel que lhe dá ingresso abaixa as armas, que momentos antes erguera na disposição implacável de matar. É singularmente prestigiosa a figura daquele homem que, o peito coberto de sangue, perante ameaças de morte, continua a manter a serenidade.
Como que num sonho, é levado até ao quarto n.º 3 dos oficiais de dia. António Granjo, sentado numa das camas, a cabeça entre as mãos, medita. Ao ver Cunha Leal, o colarinho e a gravata cheios de sangue, com o pescoço a gotejar ainda, exclama contristado:
– Oh Leal! Por minha causa…
– Não pense nisso! Não me magoe com essas palavras.
Aparece gente. Há qualquer coisa de estranho naquilo tudo. Cunha Leal ignora como foi arrancado de ao pé de António Granjo.