São os que menos entendem a morte. Porque são também os que menos entendem a vida. Os filósofos vivem amargurados e, postos a dissertar sobre a morte, só dizem disparates. De ano para ano, em cada início de Novembro, ei-los a escrever sobre a morte. Tudo o que escrevem vem atravessado de angústia, de pesadelo. Vivem com os pés num universo que não é o da realidade. Consequentemente, as suas cabeças produzem ideias, conceitos vazios, medos, angústias, morte. Lê-los, escutá-los, é ficar como eles, possessos de medos, angústias. São complicados e têm o condão de tornar complicada a vida, que é extraordinariamente simples. São filósofos, amigos do saber. Deveriam ser filóbios, amigos da vida. Compreenderiam então que a vida é a realidade maior, fora da qual todo o saber é ideologia, esterco, delírio, labirinto, fantasma, terror. É a vida que nos faz, não somos nós que a fazemos. Primeiro, viver, só depois reflectir. E viver é comprometer-se politicamente com a realidade que nos surpreende, à medida que crescemos e a acolhemos, ao modo de meninas, meninos. Somos vida consciência, por isso, alegremente responsáveis. Nela, somos, nos alimentamos, respiramos, nos surpreendemos, somos conduzidos. Dentro dela, como vida consciência, compreendemos que nada é mais real que a vida. Todas as nossas próprias limitações individuais hão-de ser vivenciadas no todo que é a vida. Em lugar de angustiados, tornamo-nos progressivamente verdade, fragilidade, relação, vasos comunicantes, numa palavra, humanos, sororais. Os filósofos, sobretudo os do mundo ocidental, são os mais atingidos pelo vírus do cristianismo, que é mentiroso e pai de mentira, ladrão, assassino, inimigo da realidade/vida. Com ele, construíram um universo de ideias, almas, corpos assexuados, estruturalmente necrófilo, gerador de medo. São homens vazios da Sabedoria, da realidade/vida, que reiteradamente nasce para nascer. E, quando, por fim, se torna definitivamente invisível, em cada uma, cada um, é quando mais é!