Carta do Rio – 23 – por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

 

Pretendia escrever sobre um assunto que me preocupa e atormenta, que chamo de “o assassinato da infância”, mas há um assassinato que se sobrepõe a todos os outros porque atinge os fundamentos da vida, sua essência mesma, seus elementos primordiais, entre os quais, o mais importante desde Thales de Mileto, do século VI antes de Cristo, a água, que já fora cantada na vasta tradição mitológica que antecedeu o filósofo e aparece em todas as cosmogonias que vieram do Oriente para a Grécia, a água do Caos aquoso que gerou o Cosmos…

Em artigos do Jornal O Globo da última semana professores, escritores, cientistas, engenheiros florestais e ambientalistas escreveram sobre o assunto. Depois do belo e triste artigo do meu amigo José Miguel Wisnik, que evocou Guimarães Rosa e falou sobre os “rios aéreos” que não conseguem chegar a São Paulo e a outras regiões, e sobre os rios de superfície, e sobre os rios subterrâneos que alimentam a terra, a escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Anna Maria Machado chamou a atenção tanto pelo título de seu artigo: Bandeira branca, bandeiras verdes, quanto pela vinheta: Os jornais dão notícia de um horror inimaginável: secou uma nascente do São Francisco, o Rio da Unidade Nacional. E o texto diz: “A causa não é a inexistência de unidade nacional. (…) O pesadelo está ligado à falta de consciência ambiental”. Já um cientista, Antonio Pereira Nobre, pesquisador do INPE, (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que estuda o futuro climático da Amazônia, “relaciona a seca no Sudeste ao desmatamento”, na entrevista que concedeu ao jornal. Mais uma vez nos convencemos de que é direto o efeito do desmatamento sobre o aquecimento global: “A situação é gravíssima.(…) Nos últimos 40 anos, a Amazônia perdeu, com corte raso e degradação, 184 milhões de campos de futebol. O sistema ambiental está em crise, e o custo de não resolver essa crise é altíssimo, é a nossa vida.”

Outro estudioso do assunto, o engenheiro florestal Tasso Azevedo, em matéria publicada no dia 29 de outubro, propôs três metas para a presidente recém reeleita que não teve tempo, em sua campanha, de apresentar “um plano de governo (…) no campo da sustentabilidade a ser desenvolvido.” E as metas a serem atingidas com a máxima urgência seriam: “1) zerar a perda de cobertura florestal no Brasil; 2) retomar e ampliar a proporção de energia renovável em nossa matriz energética; e 3) definir metas de curto, médio e longo prazo para a redução efetiva de emissões de gases de efeito estufa (…) e liderar um novo acordo climático que assegure limitar o aumento da temperatura global em 2 graus C.”

Infelizmente, a única preocupação da candidata à reeleição na campanha em que disse que faria – e fez! – “o diabo” para vencer, foi a de reafirmar ad nauseam que seu governo realizara a “inclusão social” de milhares de brasileiros. No entanto, além de ter esquecido o cuidado primordial com o meio ambiente, necessário para garantir a sobrevivência de todos, a candidata parece ter-se esquecido da igualmente indispensável inclusão cultural, num país com as taxas estarrecedoras de analfabetismo e de trágico “alfabetismo funcional” que conhecemos. Dos extratos sociais menos favorecidos saíram muitos dos eleitores que contribuíram para assegurar a apertada vitória de Dilma Rousseff, os que hoje se orgulham de “viajar de avião” ou de “fazer compras nos shoppings”. Precisam compreender, porém, que agora se faz urgente, mais do que nunca, uma “revolução educacional que permita emancipar o povo de dependência de auxílios, para que (….) possa votar sem dever favor ao partido no poder”, como observou o Senador do próprio PDT, Cristovam Buarque, ao abordar o tema da Emancipação Política. Nessa matéria, a expressiva vinheta afirmava: Por causa do elevado custo, a política está prisioneira do sistema de financiamento.

Tudo está ligado a tudo e muito do dinheiro gasto nas campanhas milionárias do nosso atrasado sistema político poderia ser aplicado numa responsável e consciente gestão dos recursos hídricos e na conservação da biodiversidade, como diz Tasso Azevedo, o engenheiro florestal; “planejar a recuperação de rios e ter projetos de fortalecimento das bacias”, como lembrou Anna Maria Machado; e precisamos ainda “tomar conhecimento do tamanho do problema da crise ambiental, envolvendo os governos, os empresários e as elites que têm uma procrastinação criminosa”, como insiste Pereira Nobre.

A preocupação com o meio ambiente, com a preservação da natureza e a salvação do Planeta não pode mais ser atribuída a “ecologistas folclóricos”, pela ignorância triste e arrogante dos que os combatem ou ridicularizam. Nada poderemos fazer de nossas vidas se as perdermos para a série de secas, de inundações, de tsunamis, de terremotos e incêndios das florestas que o aquecimento global pode desencadear. O sistema que só visa o lucro imediato comporta-se de forma assustadoramente egoísta em relação às gerações futuras. Nossa “civilização” é fáustica, suicida, irresponsável e estúpida.

Como disse Marina Silva, em sua mensagem ao povo brasileiro, depois do resultado das eleições, ela que pregou a união de todos desde o início da campanha que tanto a iria desrespeitar: “os políticos precisam compreender que o meio ambiente não é uma parte incômoda das políticas públicas, é a base da sobrevivência de todos.” Que mais há a dizer?

 

 

Leave a Reply