A NATO anunciou na quarta-feira, 29 de outubro, ter realizado várias interceções aéreas de aeronaves russas e ter detetado uma intensa actividade destas no espaço europeu. Aviões de países da aliança descolaram de 4 bases distintas para interceptarem aviões russos nas zonas do mar Báltico, do mar do Norte e mar Negro e no Atlântico. A Nato considerou esta actividade de “grande escala” e “fora do habitual”.
As notícias dão conta de pormenores da “ameaça”: na mais importante operação, tratava-se de um grupo de 8 aviões – 4 caças bombardeiros e 4 reabastecedores em formação sobre o Atlântico. Seis aparelhos foram seguidos pelos aviões da Noruega, e regressaram ao sua origem, mas dois TU-95 continuaram a sua rota escoltados pela RAF, que os passou à Força Aérea Portuguesa. A batalha resolveu-se com o regresso dos aviões russos, controlados por noruegueses e ingleses. Entretanto um outro grupo de 4 aviões russos, também TU-95, voaram pelo mar Negro, e aviões alemães detectaram mais aviões em manobras no Báltico. Nos dias seguintes, parelhas de bombardeiros russos andaram por aí a desfilar no limite do espaço aéreo de países europeus. Uma delas foi até Sagres, a nossa glória nacional! Para alegria das estações de televisão: não estamos esquecidos! Também deu para mostrar os nossos Top Gun.
Por norma a NATO envia aviões de caça sempre que um aparelho não dá conhecimento do seu plano de voo e se aproxima do espaço aéreo de um dos seus membros. Um porta-voz da NATO informou que as interceções de aviões russos duplicaram desde o início do ano e considerou que “os russos estão simplesmente a testar a nossa defesa”. Os jornalistas e comentadores interrogam-se: que querem os russos?
É sobre o que estão a fazer os russos e o que querem dizer que me parece interessante reflectir e não sobre as peripécias aeronáuticas, se os aviões russos são antigos e se têm uma estrela vermelha na cauda. Ao contrário do que disse o porta-voz da NATO, os russos não estão a testar as defesas da NATO, que são mais do que conhecidas. Estão a demonstrar o seu poder. Vieram mostrar a bandeira da Rússia (e até a da URSS!). Mesmo para a tropa a explicação – repetida por Nuno Rogeiro na SIC – é pífia. Para testar as defesas da NATO não se mandam velhos TU-95 dos anos 50/60 a hélice! Eles estão a afirmar a sua capacidade de agir no mundo global – a começar no espaço vizinho do seu – a seu bel-prazer. Mais, ao enviarem os seus velhos (embora modernizados) TU-95 eles estão a salientar o texto da mensagem: mesmo com estas velhas carcaças voamos e ocupamos os espaços que nos interessam. Temos força e utilizamos um direito. Mas mais, os russos, com os seus velhos aviões, estão a inscrever nos céus da Europa a velha mensagem de que a Europa voltou não contar como não contava no tempo da guerra fria, em que servia como espaço de jogo de esticar a corda com o seu rival direto, os EUA. Estiveram a dizer que o facto de a Europa se ter dobrado mais uma vez aos EUA nas sanções económicas e na manobra de cerco através da Polónia e da Ucrânia, a desqualificou por completo como grande parceiro, em pé de igualdade com os espaços decisivos para o futuro.
No passeio dos seus velhos aviões sobre os velhos céus dos mares da Europa, a Rússia podia ter-lhes atrelado uma faixa como a da publicidade feita nas praias a dizer: Rússia-EUA, o velho espectáculo está de volta, os europeus são convidados a assistir. Para a estratégia da Rússia, a Europa voltou a ser uma colónia dos EUA. Um espaço subordinado e sem autonomia, como o Japão e a Coreia do Sul, por exemplo.
É evidente que esta humilhante demonstração feita pela Rússia tem consequências, desde logo o reforço dos EUA como parceiro e ator no comércio mundial, o reforço do papel do dólar no sistema de trocas e pagamentos internacionais que está a ser gizado pela Rússia, pela China e pela Índia e remete o euro para o lugar de moeda subsidiária. A senhora Merkel, no seu papel de dona de caso, dedicada às tarefas domésticas, deve ter-se sentido muito mais descansada. Longe de embrulhadas. Estes voos são a derrota de uma qualquer ideia que pudesse existir de uma Alemanha imperial, expansionista. Quer os que viam a Alemanha com temor, quer os que a viam com esperança, podem perder as ilusões. A Alemanha é uma fábrica e um banco, um Japão continental, uma potência regional que cumprirá ao serviço dos EUA no continente europeu, contra a Rússia, o mesmo papel do Japão no Pacífico contra a China.
O passeio dos bombardeiros russos na semana da despedida de Durão Barroso de presidente da Comissão Europeia não podia ter sido melhor (ou pior) escolhido. Vieram dizer à Europa que deixaram de contar com ela para as grandes decisões planetárias.
Perante este cenário de apoucamento a que os dirigentes europeus têm conduzido a Europa não é de estranhar que o porta-voz da NATO esteja em transe a ver pontos brilhantes nos radares da NATO, conte minutos e segundos de resposta, que jornalistas e políticos fiquem excitados com as aproximações visuais dos seus aviões (americanos) e que aqui em Portugal quase se volte a ouvir a estrofe do contra os canhões marchar porque os nossos F-16 intercetaram aviões russos. Mais uma vez a comunicação social e os políticos nos apontaram o dedo levando-nos a olhar o céu, para desviarem as atenções do que era importante. Mais uma vez nos gritaram: Ó patego olha o balão! E nós olhámos…
A União Europeia é uma manta de retalhos feita á pressa e em cima do joelho do ponto de vista económico e social . A orquestra é desafinada e cada um toca o que sabe (!) tendo como maestrina a Srª Merkel e políticos avulsos que não têm conseguido o indispensável “espírito de corpo” ! Na defesa esqueceu – se a velhíssima regra : se queres Paz prepara a guerra (Parabellum )
A União Europeia é uma manta de retalhos feita á pressa e em cima do joelho do ponto de vista económico e social . A orquestra é desafinada e cada um toca o que sabe (!) tendo como maestrina a Srª Merkel e políticos avulsos que não têm conseguido o indispensável “espírito de corpo” ! Na defesa esqueceu – se a velhíssima regra : se queres Paz prepara a guerra (Parabellum )