GUARDA-MARINHA! SE ME NÃO DEIXA ENTRAR, INSULTO-O À FRENTE DOS MARINHEIROS!
A Junta Revolucionária, na pessoa do capitão Loureiro, resolveu-se a intervir, como acima dizemos, no sentido de salvar a vida de António Granjo. Deixámos Carvalho Santos na companhia daquele delegado à porta de Cunha Leal. Ali, num automóvel, estavam Agatão Lança e Afonso de Macedo. Ao saberem do que se tratava, seguiram imediatamente para a Baixa. A travessia da cidade não se fez sem perigo, pois no Rossio a fuzilaria era intensa. A custo, o carro chegou ao Arsenal. Ali, um guarda-marinha, secundado por muitos marinheiros, soldados da GNR e alguns civis, não queria deixar entrar o bravo tenente Agatão Lança, os delegados da Junta e Carvalho Santos, a despeito de o primeiro declinar a sua identidade. Agatão Lança insiste, mas o guarda-marinha mantém a recusa. Então, exasperado, grita-lhe:
– Guarda-marinha! Se me não deixa entrar, insulto-o à frente dos marinheiros!
E, voltando-se para eles:
– Sou o tenente Agatão Lança!
Os marinheiros lançam-se aos aspirantes e soldados da GNR e rasgam alas. Agatão Lança entra, seguido dos seus companheiros. Ao chegarem ao largo, depararam com um estranho espetáculo: Cunha Leal, no meio de um numeroso grupo de soldados e marinheiros, invetivava-os. Gritava-lhes:
– Os senhores têm o direito de ser assassinos, mas não o de se dizerem republicanos. Matem, se assim o quiserem, mas não vexem!
Era precisa uma resolução. Agatão Lança, ousadamente, fala àquela gente. Recorda o seu amor aos marinheiros e a sua dedicação que eles sempre lhe demonstraram. Se eles não souberem respeitar republicanos como António Granjo e Cunha Leal, terá de abandonar a sua farda de oficial de marinha.
Os marinheiros bradam, em arrependimento:
– Oh Capitão! Foi por engano! Foi por engano!
Mas nem todos mostraram igual convencimento. Há um soldado, ou um paisano, que aponta a espingarda ao crânio de Cunha Leal. Agatão Lança consegue evitar o crime. Baixa a arma e ordena que seja capturado o criminoso. Depois, procura fazer sair o ferido, a fim de o levar ao hospital. Os pensos desarranjaram-se e as feridas gotejam sangue novamente.
Ouve-se uma voz:
– Vai até ao portão, mas ali é morto!
No entanto, Cunha Leal consegue sair. Os amigos, Carvalho Santos, Agatão Lança, Augusto Gomes, Jacinto Simões e Afonso de Macedo fazem uma barragem e levantam aclamações ao antigo deputado popular. Os marinheiros, sugestionados pelo discurso do seu prestigioso oficial, secundam as aclamações com entusiasmo e dão palmas.
Já no hospital, Agatão Lança, para sossegar Cunha Leal, garantiu-lhe que seguia imediatamente para o Arsenal, a fim de velar por António Granjo. Ao mesmo tempo, recomenda que não deixem sair o enfermo sem que ele regresse. Acompanhado por Jacinto Simões, volta ao Arsenal e, quando procurava averiguar o paradeiro do presidente do Ministério, um paisano, sarcasticamente, dá-lhe a terrível nova:
– Um conseguiu o senhor salvar; o outro já o não salva. Agatão Lança, desvairado, corre à sala dos oficiais. Os rostos, que refletem a maior consternação, dizem tudo. O destemido tenente interroga:
– Então, que há?
A resposta é sinistramente seca:
– Mataram-no!
Agatão Lança tem um último gesto. Brada-lhes:
– Os senhores poderão ser bons republicanos, mas são assassinos! Eu, Cunha Leal e António Granjo poderemos ser maus republicanos, mas somos homens honrados.