MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 12 – por José Brandão

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VENHAM VER A COR DO SANGUE DO PORCO

António Granjo fora conduzido ao pavilhão onde estão as instalações do oficial de dia e onde funciona a 3.ª repartição da Marinha. As traseiras deitam para o edifício da Majoria-General da Armada. Não há ali evasão possível. Entre as duas construções existe um corredor fechado por grades, que não se arrombariam facilmente e que deita para a pequena doca designada por Caldeirinha. O pavilhão, uma modesta construção em tijolo, tem um andar apenas. Um lanço de escadas dá-lhe acesso. Depois há um patamar, mais três degraus e um corredor grande que serve os aposentos aonde funciona a 3.ª repartição. De fora vê-se a sala de jantar do oficial de serviço, contígua ao célebre quarto n.º 8, separada do patamar por uma balaustrada em ferro fundido.

António Granjo subiu sozinho. À porta ficaram os oficiais na intenção de impedir que alguém subisse. Uma vez lá em cima, começou a passear no corredor, mãos nos bolsos. Um criado, apiedado, avisou-o:

– O senhor doutor não está aí bem…

O presidente do Ministério aceitou a indicação e refugiou-se na sala de jantar. Mas de fora podiam vê-lo. O criado, solícito, preveniu novamente:

– Também não está aí bem, doutor.

– Então, aonde?

– Aqui – e conduziu-o ao quarto n.º 3, um quarto modesto, com duas mesas e uma secretária simples. António Granjo, fatigado, sentou-se numa delas. Pálido, o olhar incerto, viveu ali os últimos minutos da sua vida. A certa altura, há um começo de invasão. Aparece Cunha Leal e trocam-se palavras que registámos acima. Mas sai tudo, restabelece-se novamente a tranquilidade, quebrada apenas pelos rumores de fora.

Há vozearia. Aproxima-se um grupo e pergunta aos oficiais amontoados à porta:

– Está aí o malandro do Granjo?

– Não, não está – e a negativa é dada com uma insistência tal que vale bem como uma afirmação.

– Mas nós é que queremos ir ver.

– Não, não vão – ainda bradam.

Mas eles sobem em tropel.

– Onde está? Onde está?

O quarto n.º 3 é contíguo à sala de jantar. António Granjo é descoberto rapidamente.

– Ah! Estavas aí?! Salta cá para fora…

– Supunhas que escapavas?

Desvairado e tendo a morte como certa, António Granjo saltou para o corredor.

A um canto, o criado observa tudo, apavorado. Do grupo, que deixou bastante gente a tapar a entrada, berram:

– Desce esses degraus!

O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação:

– Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano!

Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer de testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros:

– Venham ver de que cor é o sangue do porco!

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