Conclusão
João de Barros terá sido o primeiro português a assinalar a importância do uso do seu idioma em Terras de Além. No Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem refere-se “aos mininos Ethiopas, Persianos, indos daquem e alem do Gange, em suas próprias terras, na força de seus templos e pagodes, onde nunca se ouviu o nome romano, por esta nossa arte aprenderem a nossa linguagem com que possam ser doutrinados [sic] em os preceitos da nossa fé que nela vam escritos” (na Compilaçam de Varias Obras, ed. de 1785, p. 230). Pela mesma época Bernardo Rodrigues assinalava marroquinos a tentarem falar, com êxito, a nossa língua (Anais de Arzila, I, pp. 6, 248, 348, e II, p. 124). E, a propósito, convém recordar que em Marrocos foram redigidos os oito textos em aljamia portuguesa (os únicos conhecidos), sete dos quais atribuídos ao mouro de paz IahiabenTa’afuft. Aprendera a falar português, mas desconhecia o alfabeto latino, daí escrever as sua cartas em português, mas utilizando caracteres árabes. Destinavam-se elas a El-Rei D. Manuel (as 1, 3, 4, 5, 6 e 7) e uma, a 2, a Nuno Fernandes de Ataíde; a nº 8 é o «juramento que faz o Turco quando comete uma grande cousa». Não datadas, David Lopes atribui-lhes o ano de 1517 na edição que delas fez (Textos em Aljamia Portuguesa – Estudo Filológico e Histórico, 1897, com 2.ª edição em 1940 inteiramente refundida). Infelizmente, estes exemplares únicos da literatura aljamiada portuguesa estão praticamente inutilizados em consequência do desmazelo de quem deles devia cuidar.
E assim, fora das suas fronteiras, o idioma do pequeno povo português conseguiu impor-se em diversas regiões para onde o levaram os descobrimentos. Se, alterado, originou crioulos em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé, Príncipe, Ano Bom, Macau, Diu, Goa, Damão, Cananor, Mangalor, Maé e Cochim, temo-lo também, com variantes dialectais, em Angola e Moçambique, principalmente.
Recordo os antes mencionados setecentistas naturais de terras brasileiras, vultos importantes das letras portuguesas do seu tempo, mas também precursores da imensa nação sul-americana, noutro continente e noutro hemisfério, unida em contraste com a variedade de repúblicas de língua espanhola suas vizinhas.
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Outrora no Oriente ela tornara-se língua franca, português simplificado que servia de entendimento entre gentes que usualmente utilizavam falares diferentes, ao longo de centenas de quilómetros das costas junto dos mares orientais. Facto estudado e documentado em Hobson-Jobson, de Yule e Burnell, e depois no Glossário Luso-Asiático, de Sebastião Rodolfo Dalgado.
Tal facto obrigou europeus, que depois chegaram àquelas zonas, e nelas se estabeleceram como novos adversários, a aprender a nossa língua para se entenderem com populações locais contra nós, «porque assim se supria a dificuldade de aprender tantas línguas», como revela David Lopes em A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVII e XVIII (p. 25). Tal situação rapidamente os Holandeses a entenderam e tentaram ultrapassar quando, no fim da centúria de 1500, desembarcaram no continente asiático e aí procuraram superar, e até aniquilar, o prestígio do idioma luso.
Foi inesperada a solução que encontraram. Em 1596 assinou-se um «tratado de paz e comércio entre Holandeses, do comando de Houtman, e o Governador do reino de Bantam, Java, em língua portuguesa»; de 1598 data a «credencial em língua portuguesa do regente dos Países Baixos, Maurício de Nassau, que levou o almirante Van Neck para os Príncipes do Oriente», segundo a mesma obra do arabista português, na página 28, onde apresenta fotografia e transcrição do segundo desses documentos contra os Portugueses.
Outros exemplos houve de os nossos adversários naquelas terras terem de contratar indígenas que falassem o nosso idioma a fim de servirem de intérpretes junto de individualidades locais. Abunda a documentação que testemunha este facto insólito, mas entre nós pouco divulgado. Vale por isso a pena ler e estudar o conteúdo do segundo capítulo da referida obra de David Lopes.
