Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Reformas estruturais: do que é que se está a falar? (2ª parte)
Haverá reformas estruturais que possam ser benéficas para todos os que participam no jogo?
Jean Claude Werrebrouck, Réformes structurelles: De quoi parle- t-on? (2ème partie)
Blogue La Crise des Année 2010, 23 de Setembro de 2014
(conclusão)
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Levantar uma tal questão, é perceber que haverá, por um lado, reformas que alteram a distribuição de bem-estar, sem alterar o perímetro total (reformas que não conduzem a um crescimento do PIB) e haverá outras reformas que iriam aumentar o valor do PIB porque seriam portadoras de crescimento…
Correlativamente, levantar uma tal questão é deslocar o raciocínio para o território macroeconómico.
Reformas estruturais portadoras do binómio competitividade/desvalorização interna…
Reformas estruturais – as exigidas por Bruxelas, pelo patronato, pelas grandes organizações internacionais,… – levariam directamente a uma redução no custo do trabalho (salários directos e indirectos mais baixos, flexibilidade, fim das 35 horas semanais, etc), levariam a uma diminuição da procura interna. A priori, neste caso, elas alteram a distribuição de bem-estar, mas também diminuem o seu perímetro: o PIB diminui.
No entanto, se essa estratégia é posta em relevo, isso é devido a uma hipótese suplementar de exportações adicionais (para não mencionar a esperada diminuição das importações) sobrecompensando a diminuição da procura interna. Neste caso, a distribuição de bem-estar é modificada a favor das empresas. No entanto, a situação é mais complexa e vários casos podem ocorrer:
1 – as empresas capturam o benefício da nova repartição e adicionam ainda o total das receitas devidas ao crescimento. Neste caso, os assalariados são penalizados por uma massa salarial menor… se necessário ainda dividida por um número maior de trabalhadores (hipótese da redução do desemprego devido ao crescimento consecutivo). O futuro de um país abraçando este tipo de reforma é o de uma pequena China.
2 – as empresas capturam o benefício da nova repartição, sem estarem a adicionar o ganho do crescimento. Neste caso, a condição de um aumento da massa salarial distribuída é que haja uma diminuição da taxa de salário inferior ao aumento do nível de emprego. Concretamente, se temos 100 postos de trabalho para uma massa salarial de 1000 e uma diminuição da taxa salarial em 10%, a massa salarial paga aos mesmos trabalhadores desce para 900 e só um crescimento superior a 10% do número de postos de trabalho permite o aumento da massa salarial global (no nosso exemplo, se as exportações criam 12 novos empregos este acréscimo de exportações leva a que a massa salarial global passe a ser de ( 100+12) x 9= 112×9 = 1008).
Sublinhemos o realismo de uma tal proposta, que passa por um salto gigantesco das exportações e, portanto, partem de uma elasticidade da procura externa tendente para infinito. Assim, para um país como a França, dada a sua população activa, uma baixa do custo de trabalho directo e indirecto de 10% significaria a criação de mais de 3 milhões de postos de trabalho, principalmente relacionados com a exportação… Ou seja, o pleno emprego por uma redução de 10% do custo do trabalho: impensável. Quais seriam os países que aceitariam uma tal exportação do desemprego francês?
A conclusão que se impõe é então a de que as reformas estruturais baseadas na diminuição do custo do trabalho são mesmo muito pouco realistas em termos de crescimento e só servem para esconder o significado e o interesse dos seus defensores e promotores. Simplesmente expressa, este tipo de reformas estruturais é classificado na secção “desvalorização interna”.
No entanto, pode ser possível que as reformas estruturais levem ao aparecimento de ganhos de produtividade directa ou indirecta.
Reformas estruturais portadoras de ganhos de produtividade .
Como aquelas que se escondem uma desvalorização interna, elas também correspondem a uma redefinição da repartição dos níveis de bem-estar. É o caso da hipótese do fim das profissões regulamentadas, da reorganização da formação profissional e da aprendizagem, da concorrência nos transportes, etc.
No entanto, elas não correspondem todas a uma genuína redistribuição de bem-estar.
Este é particularmente o caso da exclusão dos limiares em termos de representação sindical. Veja-se este exemplo e considere o seguinte cenário: as empresas, libertas dos efeitos dos limiares, contratam trabalhadores e compram máquinas para desenvolver um valor de uso que satisfaça necessidades idênticas às oferecidos pela concorrência, mas resultantes de condições de custo muito mais vantajosos (inovação de produtividade).
Quais são os efeitos esperados?
Há aqui a constituição de novas receitas em torno da nova tecnologia e a redução das associadas com a perda de oportunidades de escoamento no mercado para a tecnologia em vias de ser desclassificada [ usura moral diria Marx, obsolescência é o termo agora utilizado]. Os dois efeitos não se compensam e há aqui aumento da produção líquida do valor total, valor cujo montante é igual à diferença de custos entre as duas tecnologias.
Esta diferença pode aparecer sob a forma de uma combinação de rendimentos adicionais: aumento dos lucros, aumento dos salários, preços mais baixos. As modalidades desta combinação dependem, naturalmente, da política de repartição dos ganhos de produtividade.
Estamos aqui na presença de uma reforma estrutural globalmente positiva pois que permite gerar a procura associada à nova oferta.
O exemplo utilizado é naturalmente simples, para não dizer simplista: despreza o tempo consumido no desenvolvimento de uma nova tecnologia e é escolhido no quadro de uma estrutura que não corresponde a uma redefinição inicial de bem-estar.
A realidade é frequentemente mais complexa, especialmente quando se trata de reformas em grande escala, como é frequentemente mencionado no caso do sistema de ensino. Certamente que se pode imaginar, em França, uma reforma da educação nacional, que seria portadora de ganhos de produtividade devido a melhor formação da juventude, mas isso consome muito tempo… durante o qual a procura global permanece inalterada.
Por conseguinte, deve concluir-se que numa situação de crise – situação que sabemos ser imanente à forma tomada pela globalização – só são apenas socialmente aceitáveis as reformas estruturais que garantem a perfeita correspondência entre oferta e procura
Todas elas passam por ganhos de produtividade que alguns (Edmund Phelps ou Robert Gordon) pensam que estariam agora em perigo de extinção. Sem entrar num debate complexo, é necessário reconhecer que as reformas estruturais que têm sido propostas passam mais frequentemente pela via da “desvalorização interna” do que pela via do aumento da produtividade.
Seria obviamente difícil estabelecer uma visão completa das reformas classificadas sob as rubricas de “desvalorização interna” ou de “produtividade”. Os defensores destas reformas preferem falar de competitividade, um significante que não tem um significado preciso, o que permite esconder a realidade da gestão da crise, uma crise que é uma oportunidade para colocarem assim um fim num modelo social que funcionou, ao escolherem esmagadoramente a desvalorização interna.
Os leitores deste blog sabem bem que esta escolha agrava por cada dia que passa o poder destrutivo da crise.
Jean Claude Werrebrouck, Réformes structurelles: De quoi parle- t-on? (Primeira e Segunda parte), Texto disponível no blog La crise des années 2010, no seguinte endereço: www.lacrisedesannees2010.com/
Ver o original em:
http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/09/reformes-structurelles-de-quoi-parle-t-on-2eme-partie.html

