O sol da manhã do dia 20 de outubro de 1921 vem descobrir um país envergonhado pelas atrocidades perpetradas na noite anterior. Como é possível? Interrogam-se os cidadãos, ao tomarem conhecimento da monumental tragédia que havia assolado a cidade, enquanto dormiam.
Todos são unânimes na condenação velada dos crimes praticados. A própria Junta que governa o País repudia qualquer relação com os autores da mortandade. Logo aos primeiros assassinatos, apressou-se a enviar para os jornais uma nota oficiosa onde expõe a sua posição:
A Junta Dirigente do Movimento Nacional, lavrando o seu mais veemente protesto contra o assassínio dos dedicados servidores do regime, Dr. António Joaquim Granjo e José Carlos da Maia, além de outros condenáveis atentados, considera-os cometidos por inimigos do grande e generoso movimento nacional, levado a efeito sem derramamento de sangue, e relega os autores do crime ao poder judicial, para que contra eles se proceda na forma da lei.
A Junta tomou todas as providências necessárias a reprimir com a máxima energia qualquer atentado contra a segurança individual e a propriedade privada.
Mas para o Dente de Ouro não havia razões para temer o que quer que fosse. Orgulhoso e satisfeito, vai gabar-se dos seus crimes para um jornal que acolhe as suas fanfarronices.
A Imprensa da Manhã, assim se chamava esse jornal, aparece desde o princípio intimamente ligada aos acontecimentos da Noite Sangrenta.
Para além de ter sido o principal veículo da descomunal campanha que nos últimos meses estava a ser movida contra o Governo de António Granjo, a Imprensa da Manhã chega mesmo a orientar a Camioneta Fantasma durante uma das suas incursões noturnas. Dois repórteres deste jornal, utilizando um side-car, vão na peugada da viatura trágica, quando esta tem como destino a casa de Machado Santos. Ao aperceberem-se de que os marinheiros do Dente de Ouro vão em direção errada, um desses repórteres, Serafim Costa ou Manuel Nunes, apressa-se a indicar:
– Ó rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos, venham por aqui… Sigam nas nossas águas…
Enleados num dos maiores enredos políticos da atualidade, os crimes da Noite Sangrenta jamais sairão da imensa penumbra que adensa de mistério este evento trágico.
Sabe-se que morreram homens que dificilmente podiam ser eliminados da cena política através de processos normais.
Precisamente na edição de 19 de outubro de 1921, a Imprensa da Manhã traz um artigo de fundo onde se pode ler este elucidativo trecho: «O povo português tem, por vezes, assomos de leão, sabe como ninguém castigar os que, pela sua ação desprezível, o atraiçoam e o vexam! Tem agora – que tristeza – ocasião para o fazer…» E, no momento em que está já na rua o 19 de outubro e com ele a camioneta-fantasma, o artigo termina citando palavras do célebre revolucionário francês Georges Danton, porta-voz dos sans-culottes, as classes mais baixas da Revolução de 1789: «De l’audace! De l’audace! Toujours de l’audace!»
Vários outros nomes de personalidades políticas aparecem referidos em alegadas listas de sentenciados, mas na verdade não se concretizam em qualquer ação criminosa levada a efeito pelos bandos à solta. A exceção vai para um modesto motorista, morto no dia 24, durante uma discussão relacionada com os crimes da Noite Sangrenta. Num café do Chiado, Carlos Gentil é assassinado quando lamentava e condenava as mortes dessa noite trágica. De acordo com as Memórias de Raul Brandão, o próprio presidente António José de Almeida teria sido, também, ameaçado de morte:
«A minha casa – conta-me António José – guardava-a uma força. Mandei perguntar ao comandante que estava ali a fazer; respondeu-me que estava ali para me guardar – mas de alma e coração com os revoltosos. Passaram-se horas. Protestei contra os acontecimentos, reclamei pelo telefone aos que os dirigiam. Nada. A certa altura a força retirou-se, e daí a bocado telefonaram. Fui ouvir. Preveniram-me que acabava de sair do Arsenal um bando para me matar… Eu não tinha uma arma em casa.
E a noite seguiu o seu curso. Ninguém sabia ao certo o que se passava, mas todos sentiam o bafo do fantasma monstruoso.»
MACHADO SANTOS
Maria de Assunção Azevedo Machado Santos acabava de dar à luz. Ali, na velha rua da Inveja, entre a Mouraria e o Campo de Santana, nascia António Maria de Azevedo Machado Santos.
Nascido num meio social modesto Machado Santos depressa se dá conta das dificuldades da vida. O pai Maurício Paulo Vitória dos Santos é um pequeno comerciante de poucas posses e deseja outros horizontes para o filho. Vai para a Marinha!… Alista-se com 16 anos, em 1897, fazendo carreira na administração naval, não ostentando, portanto, nos galões o óculo que distinguia emblematicamente os chamados «combatentes». É um militar de secretaria sem formação de combate.
Politicamente Machado Santos começa por militar nas fileiras dos «dissidentes» de José de Alpoim, o grupo de «esquerda» monárquica que progressivamente se ia arredando das hostes da realeza para se aproximar das fileiras republicanos. Pouco dado a meias tintas, depressa procura melhores fileiras para o seu ritmo de marcha. O seu feitio intrépido em favor da causa republicana valera-lhe já, por parte dos camaradas de escola, a alcunha de «Presidente da República do Cartaxo».
Quando em Agosto de 1907 o capitão-tenente João José Serejo Júnior o procurou, expondo-lhe a necessidade de uma revolta, e mais tarde, Marinha de Campos e Mascarenhas Inglez, o procuraram com o mesmo intuito, já Machado Santos está mais do que conquistado para a revolução republicana. Por causa de um artigo publicado no jornal O Radical, de que era diretor Marinha de Campos, Machado Santos responde em conselho de guerra, tendo como patrono o Dr. António Macieira. Absolvido, foi mandado para Angola no «Pêro de Alenquer», e ali se demorou 6 meses.
A sua adesão à causa republicana e a sua rápida e fulgurante carreira de conspirador e carbonário resultaram da oposição à ditadura franquista, iniciada em 1907 e rematada com o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. Uns dias antes deste acontecimento, projetara-se a eclosão de uma revolução, estando esta marcada para 28 de Janeiro de 1908. Machado Santos, António Granjo e José Carlos da Maia, todos bem implicados na revolta, tinham conseguido escapar. Outros, como o chefe dos monárquicos dissidentes José de Alpoim, puseram-se em fuga para Espanha.
A «conspiração do Elevador», como passou a ser conhecido o movimento de 28 de Janeiro de 1908, saldou-se num desaire total para os intuitos dos amotinados. Nem João Franco tinha sido aprisionado pelos revoltosos, nem Machado Santos consegue ocupar o Palácio Real das Necessidades. Mas, apesar do desaire, a vida vai correndo de feição para os que desejam o fim da Monarquia.
Foi em Junho de 1908 que Machado Santos é iniciado nesse exército secreto da revolução. Da Maçonaria, o irmão Championnet passa-se para a Carbonária disposto a levar as coisas mais a sério. Contemporâneo de Luz de Almeida, grão-mestre da Carbonária Portuguesa, nas lides do liceu, Machado Santos conta como se processou a sua iniciação:
«Voltando no navio a Lisboa, em Junho, o primeiro camarada a quem procuro é Luz de Almeida. (…)
Numa noite, conduz-me à Rua do Benformoso, depois de me obrigar a dar várias voltas, conseguindo perceber que no caminho trocava sinais, quase impercetíveis, com vários indivíduos estrategicamente postados. Depois de me demorar uma boa meia hora, numa casa de espera, conduz-me, vendado, à sala onde se ia proceder à minha iniciação; ali se consumou o ato, parece que a contento de todos os mascarados.
Terminada a cerimónia, fui evasivamente abraçado por todos os presentes, sendo grande o meu desapontamento por não ficar conhecendo nenhum.» No dia seguinte, num jardim da cidade, Luz de Almeida põe Machado Santos em contacto com António Maria da Silva e combinam uma reunião para essa noite, numa casa para os lados do Calhariz. Nessa reunião, com a presença de mais seis carbonários, Machado Santos é informado de que fora nomeado para fazer parte da Alta Venda, órgão máximo da Carbonária e no seio da qual se encontrava nesse momento.
«Como é da praxe», contou ainda Machado Santos, «fizeram-se discursos, e por votação unânime elegeram-me presidente da mesma. Na primeira reunião deste alto corpo dirigente, combinou-se reunirmo-nos todos, o menor número de vezes possível, para não despertar suspeitas e, depois de aprovarmos um plano de ação maduramente estudado, resolveu-se que estivessem em contacto permanente: Luz de Almeida na qualidade de grão-mestre, António Maria da Silva como representante da Venda Jovem Portugal (corpo legislativo) e Machado Santos como representante da Alta Venda (poder executivo).
Todos os três, pelas 4 horas da tarde, largávamos da Câmara Municipal e, como pacatos burgueses, íamos a caminho do Rossio e Avenida, combinando ação, distribuindo trabalho, tanto quanto as nossas forças podiam comportar.
Na primeira reunião magna da Alta Venda consegui orientar o trabalho da Carbonária e por unanimidade resolveu-se recomendar a todos os associados o seguinte: Que cada um de per si tomasse à sua conta um soldado, de qualquer das armas ou serviços, fazendo-se seu amigo, falando-lhe ao coração, atraindo-o por todas as formas, de maneira que se identificasse por completo com a população de Lisboa.»
Umas vezes em casa de Machado Santos, na Rua de José Estêvão, outras no Jardim de S. Pedro de Alcântara ou onde calhasse faziam-se reuniões abertas a potenciais filiados, as quais não deixavam de produzir os seus frutos. O café A Brasileira, ao Chiado, era tido como o mais frequentado pelos carbonários, embora nunca se soubesse quem eles eram.
Nos aquartelamentos militares, os adeptos cresciam a olhos vistos. Luz de Almeida redige um pequeno folheto, intitulado A Cartilha do Cidadão – Diálogo entre o Médico Militar Dr. Ribeiro e o João Magala –, que tem enorme sucesso (três edições) entre os soldados, cabos e sargentos.
Dentro do mesmo objetivo, foram elaboradas outras publicações entre as quais os Barbadões, de Machado Santos, que consta de estrofes para serem cantadas com a música da Marselhesa.
Estes folhetos caem no agrado dos soldados que se vão republicanizando, ao mesmo tempo que servem para angariar fundos destinados a auxiliar as famílias dos carbonários que se encontram encarcerados.
A Polícia, porém, não conseguia grandes êxitos na sua ação repressiva. Quando assaltaram a casa de Machado Santos e lhe arrombaram os móveis, esquadrinhando por todos os cantos na busca de documentos, a Polícia tinha sido pouco feliz. Os agentes enganaram-se no andar e, em vez de arrombarem a porta de Machado Santos, arrombaram a porta do seu vizinho Ardisson Ferreira.
Apesar de parecer mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um polícia entrar no reino da Carbonária, houve uma ou outra tentativa de se pretender fazer crer que a Polícia estava no bom caminho na luta pelo extermínio total da C. P.
Foi com essa intenção que se procurou comprometer a Carbonária, e principalmente Luz de Almeida, num homicídio que deu muito que falar em 1909 e que ficou conhecido como o «crime de Cascais». António Maria da Silva garante que a Carbonária nada teve a ver com o caso, e muito menos Luz de Almeida, que desconhecia totalmente o assunto. Contudo, este é obrigado a abandonar rapidamente o País, dado que a sua vida estava em grande perigo se continuasse em Portugal.
Luz de Almeida morava perto de S. Vicente. Poucas horas depois de ter abandonado a casa, a Polícia assaltava-lhe a residência, mas a essa hora já o grão-mestre vai a caminho da fronteira espanhola, atravessando o distrito de Castelo Branco.
«Partiu imensamente pesaroso», recorda António Maria da Silva. «Foi o maior desgosto da sua vida o não assistir à última etapa da sua ação revolucionária.»
Antes de partir, entregou a António Maria da Silva um documento em que o nomeava apto a desempenhar as funções de grão-mestre da Carbonária Portuguesa. A Alta Venda, que até aqui era formada por Luz de Almeida, António Maria da Silva e Machado Santos, passava agora a contar apenas com os dois últimos. Estava-se em vésperas da revolução que iria trazer a República para Portugal.

