A águia de Roma carregou sobre a meseta ibérica a golpes de lança, legião após legião, as carnificinas e traições do costume, impôs a formação da urbe municipal, a língua, a organização do Estado, o Direito… e o latifúndio… – Eis a Pax Romana, que alguma História assinala e aponta como “exemplo”.
Pergunta-se: – Porque saiu vencedora? Então, agora, segundo a “lei” do mais forte sobre o mais fraco, quem “vence” é que “tem razão”?!
Todavia, a única paz, a paz geral pela força das armas, feita de fora para dentro, não a pediram os lusitanos… Todo o sistema civilizacional que implicou a romanização da Península Ibérica, toda a massa de argumentos e elogios actuais ao fabuloso estado para onde nos empurrou a latinização da Ibéria, espezinha a memória que ficou dos que resistiram ao Império, dos que não se acomodaram à paz dos escravos! Chegaram até aos nossos dias, através da memória histórica, os elogios aos submissos, aos invertebrados que sempre habitam a História e aqui, na planície hispânica, também tiveram um habitat.
De resto, convém recordar como era praticada a pax romana: cerca de 150 a. C. o pretor Galba ofereceu um acordo de paz e possibilidade de diálogo aos lusitanos; porém, para demonstrarem a sua boa-vontade, os guerreiros ibéricos tiveram de deitar por terra, empilhadas, todas as suas armas. Quanto, por fim, os guerreiros estavam totalmente desarmados, prontos a dialogar, Galba lançou sobre eles uma legião. Do pequeno grupo de lusitanos que escapou ao traiçoeiro massacre destacou-se um pastor (dos montes Hermínios) chamado Viriato.
Ilustrações da banda desenha «Viriato» (in Cavaleiro Andante, anos 50 do século XX) do grande artista clássico português, José Garcês.
Que seria hoje a Península Ibérica, que destino enfrentaria agora a Lusitânia se tivesse resistido com sucesso às legiões de Roma? – Não vale a pena colocar a pergunta, dado o absurdo da sua irrealidade prática?
E daí, quem sabe?! – Talvez os lusitanos, depois transformados em portugueses, nunca tenham vivido o seu verdadeiro destino histórico, porque uma ideologia imperial lhes cortou a soberania territorial, e a sua mais remota legenda cultural!
Os lusitanos que viveram a norte do Tejo (e um pouco a sul, talvez até Évora) levaram quase dois séculos a lutar contra Roma. O espaço de tempo mencionado é importante, se pensarmos na demora dos transportes e na penosa radicação dos povos iberos na Península. Só assim poderemos ter uma ideia aproximada da importância e tenacidade da resistência lusitana face ao Império. Na verdade, os autóctones conheciam bem as veredas das serras onde se acoitavam, mas também sabiam que a Pax Romana, essa suposta unidade de domínio cultural e económico, procurada pela força das armas, queria apagar definitivamente a original cultura ibérica. O facto é que a civilização latina trazia já então no ventre uma podridão que extravasava por todo o lado e que, a seu tempo, só com a cristianização do Império foi travada.
Reflectindo em tudo isto… Quem sabe?: – Talvez os lusitanos não tenham conhecido a verdadeira finalidade histórica das suas existências, impedidas de se desenvolveram, no seu próprio espaço e tempo, pela máquina de guerra e de “civilização” do império romano.
Por isso, aqui e agora, tenho saudades do caudilho lusitano chamado Viriato.
Hoje, que regressou ao mundo a mesma energia imperial e o silvo das máquinas de guerra, sempre em nome da civilização, tal como no século III a. C.; hoje, repito, tenho saudades de Viriato!
Saudades do chefe dos lusitanos que venceu o orgulhoso pretor Vetílio… Dos cinco mil soldados romanos que vieram para reforçar Tartesso, nenhum escapou… Tenho saudades do Viriato que derrotou Caio Plâncio próximo de Évora (ele é que merece figurar na bandeira da cidade)!
Viriato terá sido o pesadelo das legiões romanas, pelo menos é assim que o apresentam os historiadores espanhóis, que sobre ele investigam mais e melhor do que nós, portugueses, que (vejam lá!) temos o descaramento de o reivindicar como nosso avô!
A ambição, madre da traição, matou Viriato… Os romanos pagaram a dois traidores para assassinarem o destemido caudilho.
O escritor grego Apiano (Bellum Ibericum, 154-72 a. de J.C.) deixou escrito: «O cadáver de Viriato, ricamente vestido, foi queimado numa pira enorme… enquanto os soldados, tanto infantes como cavaleiros corriam, em formatura e armados em volta da fogueira, cantando à maneira bárbara as suas glórias e só se afastaram depois de o fogo se extinguir por completo. Terminado assim o funeral, realizaram sobre o túmulo do herói simulações de combates singulares.».
O exemplo de Viriato não morreu com ele. Mesmo sem chefe capaz, os lusitanos continuaram a luta de guerrilhas que enfraquecia todos os dias a ocupação romana da Ibéria. Com essas lutas os lusitanos mostravam, a seu modo e para a época, um vincado desejo de independência.
Todo o sistema aparentemente estável tem escondido um princípio infeccioso de injustiça e traição. Os romanos pregavam a necessidade da Pax, com o ódio e a desconfiança no coração, e as suas mãos apertavam o punho da adaga escondida nas pregas da túnica.
As derradeiras batalhas contra as legiões do Império Romano tiveram lugar aqui, nas vizinhanças de Évora! – Sob o comando de Sertório, antigo senador romano (originário das terras da Campânia) refractário a Roma e por esta proscrito, aceite pelo lusitanos como seu chefe militar. Enfim, a estratégia de defesa militar praticada por Viriato perdurou, como nos narram os escritores latinos Salústio e Plutarco.
Há poucos anos, um professor espanhol, especialista em filologia clássica na Universidade de Granada, debruçou-se sobre a personalidade de Viriato… Aqui, nesta carcomida carcaça chamada Portugal, ninguém deu por isso, apesar da obra do investigador espanhol ter sido logo traduzida e publicada.
Manuel Pastor Munõz (o professor espanhol), a determinado passo da sua obra «Viriato», escreve: «Actualmente, quase todos os historiadores rejeitam a tese de um Viriato nascido e criado nas montanhas. Os traços da sua personalidade, recolhidos a partir das obras dos autores antigos apresentam-no como um homem sóbrio, enérgico, justo e fiel à palavra dada, desprezando em absoluto o luxo e o conforto e, sobretudo, como um excelente estratega militar, levam-nos a concluir que se tratava de um verdadeiro político, e indiscutível chefe militar dos lusitanos e defensor da sua liberdade».
Aqui, nesta cidade de Évora, onde devem ter brilhado as derradeiras armas lusitanas, o ingrato esquecimento sevandijou-nos a História, entre farrapos de latinizações e troféus de pedra “romanos”… Já não há memória histórica a respeitar…
Glorificamos os vencedores que nos colonizaram, e esquecemos os lusitanos que não se queriam escravizar. Hoje, mais do que nunca, tenho saudades de Viriato!




O tal Manuel Pastor Munõz escreveu isso, numa tentativa de retirar á Pátria Lusa o seu Símbolo Ancestral de Soberânia, Viriato!Tudo isso se insere na agenda castelana de quase 9 séculos de “absorvêr” Portugal…