AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL – À ATENÇÃO DOS MILITANTES DO PARTIDO SOCIALISTA E EM PARTICULAR DE ANTÓNIO COSTA – por JÚLIO MARQUES MOTA – I

Falareconomia1

À atenção dos militantes do Partido Socialista e em particular de António Costa

 

Um novo texto começa a ser publicado na série AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL, um texto da Attac onde se analisam as políticas de austeridade em França e que constam no Orçamento para 2015.

Um texto de análise sobre o Orçamento de França para 2015, onde se analisa ao detalhe a viragem de François Hollande para a aplicação pura e dura do modelo neoliberal, no fundo a aplicação do oposto que ele defendeu na campanha que o levou a Presidente. Mas as palavras leva-as o vento, já o sabemos, e para bem longe para que nem eco delas se possa ouvir.

Pela nossa parte não nos espantámos nada com este trajecto de François Hollande. Basta lembrar a disputa entre Hollande e Martine Aubry. E por memória não nos devemos esquecer dos jogos difamatórios que contra ela foram feitos. Martine perdeu, Hollande ganhou e a França, pelo que se tem visto e pelo que se vê no texto que agora apresentamos, perdeu a seguir muito mais, correndo o risco de hipotecar o seu próprio futuro e por anos. Quanto ao PS questiona-se se deve mudar de nome. Há até quem nos diga que o PS tal como o conhecemos não sobreviverá ao final do mandato de Hollande e Hollande será então “o último Presidente dum partido sem projecto e sem outras armas para além das que derivam da sua implantação conservadora e clientelista”. O preço da sobrevivência será então a mudança de nome, como sugere Valls?

Mas estamos a falar da segunda potência da União Europeia. Lembramos aqui Bismarck; de entre três grandes potências a Alemanha teria de ser um das duas e que nos tempos de Frau Merkel pode ter a seguinte versão: de entre as três grandes potências na Europa a Alemanha tem de ser a única. E isto vai-se cumprindo, à medida que país a país, estes se vão submetendo à lógica infernal do mercantilismo alemão, se vão pauperizando com as políticas determinadas pelo BCE, pelo Bundesbank, por Berlim, por Frankfurt e validadas em Bruxelas, por um conjunto de funcionários bem servis que dão globalmente pelo nome de Comissão Europeia. A Alemanha, que se pretende a China da Europa, com os seus mitos e concepções de sociedade e de economia exportados e impostos à escala de toda a Europa- a austeridade é expansiva, a precariedade, sua irmã gémea, é-o igualmente- e com a imposição das políticas económicas e sociais que lhes são correspondentes, vai assim refazendo o seu império, sem que a acusem de atentado contra a Humanidade, como se faria com Hitler. Essa lição ensinada e imposta pela Alemanha tem sido canalizada por muitos e bons universitários e lembremos a este respeito o Apelo de Hamburgo assinado por muitos e ilustres economistas alemães a defenderem em 2005 as políticas de austeridade num documento que mais tarde parece ter sido bem estudado e aplicado pela Toika. Tão boa divulgação têm feito desta filosofia da austeridade e da precariedade que esta foi já endogeneizada pelos governos de diferentes povos, seja de Portugal, Grécia, Chipre, Malta, Irlanda, Holanda, Grécia ou ainda outros que estão na fila para fazer o mesmo. Quanto a estes últimos tomemos dois exemplos, um de forma imediata, a situação da Inglaterra com as suas políticas de austeridade ilustrada com meia dúzia de gráficos simples mas altamente esclarecedores do caminho a que nos conduz a política da austeridade e, por fim, como segundo exemplo, analisemos a situação da França com a sua marcha acelerada para o inferno da austeridade e da precariedade como se mostra com o texto da Attac sobre o Orçamento de 2015 para a França.

A situação na Inglaterra

Sublinhe-se que a Inglaterra não faz parte da zona euro e que, portanto não tem as mesmas amarras relativamente a Frau Merkel e aos seus Frankfurtboys. Assim a Inglaterra tem praticado uma política monetária expansionista, a sua quantitative easing e tem tido a libra a desvalorizar-se face ao euro.

costinha - I

Evolução dos salários reais, tratados pelo organismo oficial das estatísticas (ONS), com dados de final de 2012:

costinha - II

“O salário médio dos empregados no Reino Unido tem estado a cair em termos reais desde 2009. O salário médio está em termos reais agora a níveis similares àqueles de 2002-03. Há algumas diferenças geográficas. Por exemplo, os empregados que trabalham em Londres ganham em média mais do que a média dos empregados britânicos e o seu salário real médio caiu menos rapidamente do que a média na Inglaterra desde 2010 até 2012. Há igualmente diferenças na evolução do salário a tempo parcial e a tempo inteiro nos sectores privado e público. A diminuição nos salários reais tem implicações a curto prazo para a economia e para os indicadores económicos. É possível que igualmente marque uma mudança permanente na tendência de longo prazo quanto ao crescimento dos salários, mas é ainda muito cedo para ter a certeza quanto a esta evolução.”

A recessão inicial atingiu duramente o Reino Unido devido ao peso que neste país assume o sector financeiro. A queda no PIB permaneceu durante um período de tempo mais longo do que na recessão dos anos 30.

 E isto apesar dos cortes nas taxas de juro e das grandes quantidades de emissão de dinheiro, a quantitative easing, a economia britânica esteve bloqueada e entrou em recessão de duplo V (VV) em 2011 (as estatísticas do PIB podem ser refeitas, mas é claro que a economia pelo menos estava em estagnação). Alguns sentiram que a opção pela aplicação de políticas de austeridade governamental em 2010-12 foi um factor significativo em causar esta recessão em duplo V. Embora os cortes na despesa pública tenham sido (até ali) relativamente suaves, tiveram igualmente um impacto adverso na confiança. Contudo, o desemprego aumentou menos do que o que seria esperado (o mistério do desemprego britânico). A maioria dos economistas tem a ideia de que a situação britânica seria ainda pior se esta pertencesse à zona euro.

costinha - III

Em 1997, a dívida do sector público em percentagem do PIB:

  • 1997/98 – 40.4% do PIB

  • 2007/08 – 36.4% do PIB

  • 2010/11 – 60.0% do PIB.

No início da grande recessão em 2007, a dívida do sector público tinha caído de 40,4% para 36,4% do PIB. Isto aconteceu apesar do acréscimo da despesa pública. Depois da crise se ter iniciado a dívida do sector público quase que dobrou no espaço de três anos.

Se nós olharmos para a dívida pública actual verificamos que houve um significativo aumento_

O total da dívida pública era nos períodos abaixo indicados :

  • 1997/98 – £352 milhares de milhões de libras bn

  • 2007/08 – £527 mil milhões de libras

  • 2010/11 – £902 mil milhões de libras

 costinha - IV (continua)

 

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