CONTOS & CRÓNICAS – «Céus da região de Tete» – por Sérgio Madeira

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Céus da região de Tete, 13:30 de sábado 16 de Dezembro de 1972

Os dois motores Turbomeca Makila de 1900 CV produziam um ruído constante, forte, monótono. Alguns homens, regressados abruptamente do gozo do fim-de-semana que havia começado na noite anterior, dormitavam. Compensavam talvez a noite sem dormir, passada em qualquer alfurja de Tete. Lopes, jovem de hábitos espartanos, dormira bem a noite, pois fora avisado na noite de sexta-feira de que ia haver acção. Estivera desde a madrugada a contactar telefonicamente os homens que, com licença por ele concedida, haviam saído e que obrigatoriamente tinham deixado o contacto para qualquer emergência. Nunca tinha havido nenhuma e, talvez por isso, quatro deles não tinham podido ser contactados, pois não estavam no telefone que tinham deixado.

Embora pudesse dispensar os sete que o helicóptero não comportava, embora talvez não se queixasse deles ao capitão, havia de lhes dar uma porrada de tal forma violenta que aprenderiam a cumprir ordens – «cabrões, foram prás putas e eu é que me ia me fodendo!» – pensava, cofiando a barba hirsuta que deixara crescer e que fora já alvo de discretas ironias, primeiro, e, depois, de repreensões, veladas ou explícitas do capitão.

Guilherme Lopes nascera há vinte e quatro anos  numa pequena vila dos arredores de Lisboa, filho de uma família da classe média – o pai era dono de um estabelecimento de artigos fotográficos no centro da vila. Frequentara a escola e o liceu locais e fora depois, quando entrara para o Instituto de Económicas e Financeiras, para casa de uns tios que moravam na Rua de Santo António,  perto do Largo da Estrela. Tinha já ido, aos dezoito anos, às chamadas «sortes», a inspecção militar que aprovava ou isentava os mancebos para o serviço militar. Alto e robusto, fora, sem hesitações, considerado apto pela junta médica. Porém, como estudante, tinha o privilégio de não ser incorporado aos vinte e um anos, como era de norma. Enquanto não perdesse nenhum ano iria ficando «esperado». Quando acabasse o curso ou quando chumbasse, seria então chamado a cumprir «o seu dever patriótico».

Navegava-se num oceano de eufemismos, naqueles últimos anos de ditadura em que se adensava o contraste entre um Portugal, mergulhado numa guerra colonial com três frentes, governado por uma ditadura com quase cinquenta anos, e uma Europa abalada por estremeções revolucionários, mesmo a Leste. Procurava-se atenuar com palavras esse contraste violento entre as democracias que imperavam na Europa ocidental e a realidade cinzenta das ditaduras peninsulares.

O terceiro ano foi fatal para Guilherme. Fora um período mais de estúrdia do que estudo e não conseguira passar para o quarto ano. O tio, modesto funcionário público, ainda meteu cunhas, tentando provar que aquele moinante era o amparo da família. O que facilmente se descobriu não ser verdade. O único amparo que ele dava era ao «Elefante Branco», o bordel disfarçado de discoteca onde passava as noites e onde se tornara íntimo de quase todas as «meninas», do gerente, dos empregados de mesa, dos músicos, da senhora do bengaleiro…

Fez uma festa de despedida e lá foi remetido para a Amadora, para fazer a sua recruta. Saído do céu do «Elefante», caiu abruptamente num Inferno onde rastejava pela lama, rasgava a pele em arames farpados e à mínima falha era duramente castigado. O seu sentido de humor genuinamente saloio e finamente educado entre boleros e meios-uísques com gelo, não lhe serviu de nada. Ou melhor, uma «resposta espirituosa» dada a um sargento instrutor, fizera rir os colegas, mas valeu-lhe de imediato a alcunha de «cara-de-caralho», 50 flexões e uma embirração permanente que durou toda a recruta. Depressa percebeu, que a esperteza-saloia, que até em Económicas lhe fora útil e granjeara algum prestígio, ali, não só era inconveniente, como saía muito caro. Nada havia melhor do que não dar demasiado nas vistas.

  A luz vermelha intermitente foi accionada no interior do Puma, interrompendo as recordações do tenente Lopes.  Estavam a chegar.

(in A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL)

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