A RESPOSTA A UMA PERGUNTA QUE UM AMIGO ME COLOCOU. INTRODUÇÃO AO TEXTO “OS PRISIONEIROS DAS FÁBRICAS”. – por JÚLIO MARQUES MOTA

 

Falareconomia1

A resposta a uma pergunta que um amigo me colocou

Acabei de compilar uma série de textos sobre a confusão no plano político que está a ser Matteo Renzi. Uma longa série de textos que  se pretende de análise económica e política sobre o que é Renzi, sobre o que é a política económica imposta directa ou indirectamente por Bruxelas. Nesta série  procurei recolher uma serie de flashs sobre a economia italiana e são dramáticas as imagens de economia aí colocadas, os gráficos, as tabelas, sobretudo as que se referem ao mercado de trabalho e em particular dos jovens italianos. E tudo isso nos dá a ideia de que viver na Itália neste momento deve já ser um inferno, como em Portugal, aliás.

A série é iniciada por um texto sobre a manifestação monstruosa que se realizou em Roma de protesto contra a liberalização total do mercado de trabalho recentemente aprovada com a lei Jobs Act e que terá reunido perto de um milhão de manifestantes. Procurei então no plano do concreto, imagens do modelo italiano tratado em abstracto na série que tinha acabado de compilar. Liberalizar o que é liberalizável, precarizar o que é precarizável, são pois as  palavras de ordem de Renzi. E são os  resultados dessas palavras de ordem  que aqui apresento como complemento à série mais abstracta a que acabo de me referir.

Diga-se de passagem que nesta pesquisa fui induzido por um pequeno texto de um amigo meu. Na semana passada enviei um texto  O muro de Berlim não se afundou num só dia- por detrás do mito liberal, a história do século XX, de Régis de Castelnau, publicado pela Revista Le Causeur  a muitos amigos meus.  Um deles,  ao lê-lo,  enviou-me a seguinte resposta:

“ Já tinha havido 53 e a intervenção de Moscovo, 56, 68, 71, e os Goulags e as Lubiankas e as Stasis, etc. etc.

Fica a raiva de terem morto uma das ideias mais belas da história.

Uma interrogação: este capitalismo não estará a fazer percurso idêntico?”

Havia os Goulags disse-me. E deixa-me  a interrogação: “este capitalismo não estará a fazer percurso idêntico”.

Quanto aos goulags sabemos  que estes não existiram somente na URSS. Exemplos  disso mesmo, de  verdadeiros Goulags, encontram-se aqui bem perto em Itália, e pela sua natureza constituíam uma  peça importante nas relações de trabalho estabelecidas pelo capitalismo industrial de ponta! O que talvez não se saiba é que estes goulags industriais, talvez mais modernos do que os dos russos, existiram muitos anos depois dos outros, os dos soviéticos terem desaparecido. E desses goulags, dos suicídios que daí resultaram, ainda agora, em Julho de 2014, é de tudo isso que o texto que vamos apresentar nos fala. Note-se  que falamos de goulags de matriz capitalista organizados  de forma científica e para alimentarem o sistema ao longo do tempo. Não falo de goulags pontuais como um criado no BPN, dentro do próprio BPN, onde os trabalhadores que se recusavam a ir embora eram colocados numa enorme sala, sem fazer nada, sem nada, a cumprirem rigorosamente o horário de trabalho para não trabalhar. Chamavam-lhe o departamento DEPENADE, Departamento de Pessoal Não Afecto a Nenhum Departamento. Será possivelmente o que irá acontecer  no BES mau!  Mas aqui não são os  goulags pontuais que nos interessam, mas os estruturais!

O que no texto que que agora se disponibiliza em  A Viagem dos Argonautas  se  mostra é que afinal havia muito de comum entre os dois sistemas,  entre o regime soviético  em decomposição, putrefacto, e o capitalismo industrial  moderno quando nele se actua livre de qualquer regulação[1]. E a desregulação é a obra de que os nossos neoliberais  se podem orgulhar, muitos dos quais são considerados socialistas, como é bem conhecido. Portanto, o meu amigo tem toda a razão. Tomando ainda o exemplo italiano, vale a pena citar uma ex-parlamentar italiana, Mara Malavenda,  sobre a política actual:

“[A situação actual]   é a resultante da classe política anterior: “As políticas de Fiat aplicadas actualmente  por  Marchionne e pelo Governo Renzi são a consequência directa  do Pacote Treu do Governo Prodi, nos anos 90,  que já condenava à total precariedade  os jovens.  Estes mesmos jovens que hoje Renzi se prepara a condenar para a vida inteira com a sua lei Jobs Act. “. Malavenda, continuou seguidamente: “Para além de ser filho de  Berlusconi, Renzi, como Marchionne, são igualmente filhos legítimos, entre outros, de  Romano Prodi “.

Uma mulher, na situação de  desemprego técnico na Fiat, suicidou-se em Maio de 2014. Disso fala o texto que montámos. O que aqui nos importa é que dois anos antes escrevia num blog sindical:

“não se pode continuar a viver anos a fio  à beirinha do abismo dos despedimentos, é todo o quadro político/institucional que, da Direita à Esquerda,  cobriu as loucuras políticas da Fiat, que  é  responsável destas mortes em conjunto com as centrais sindicais” que negociaram o contrato de trabalho com a direcção da Fiat, à cabeça da qual está  Marchionne, acrescentámos nós a estas declarações.

Ainda de Itália, dê-se um exemplo da configuração dos contratos de trabalho para a Expo-2015 e feitos expressamente para jovens:

No dia 23 de Julho de 2013 em MIlão foi assinado um acordo entre a central sindical  Cgil-Cisl-Uil, a Comuna de Milão e a  Expo 2015 S.P.A. Um acordo para favorecer o emprego a prazo de 800 trabalhadores e a utilização  de 18.500 voluntários para garantir a força de trabalho necessária.

  1. A Expo  2015 foi apresentada como uma grande oportunidade ocupacional na crise, favorecendo o crescimento económico e o volume de emprego.  Hoje são-nos fornecidos  os dados: 800 contratos precários, uma gota no mar do desemprego dos jovens, e sublinhe-se, que se trata de contratos a custo reduzido  com derrogações ainda sobre a derrogação à  selva da precariedade hoje existente, e mais  de 18.500 prestações úteis  que serão de facto gratuitas. Há uma semana atrás foi  rubricado um acordo entre a Câmara de Comércio de Milão e o Instituto  Politécnico para o  emprego para a Expo que será pago a um EURO a hora!

O primeiro dado particularmente significativo, é o número de voluntários. O  anexo 5 do protocolo, intitulado “Programa dos voluntários do sítio da Exposição”, prevê “gerar 475 oportunidades de voluntariado. Um tal valor multiplicado para o período de presença diária,  (mínimo 5 horas) e para uma permanência média de duas semanas – que por conseguinte prevê a  rotação por  grupos (de equipa; de equipa, etc.) – leva a que o total utilizado seja de  18.500 voluntários “(!).

Quanto ao emprego criado sabe-se:

De acordo com o artigo 4, “as partes estabelecem para o ano 2015 o recurso ao contrato a tempo determinado e a administração a prazo  na medida de  80% do orgânico global da  Exposição 2015 a 15/04/2015 ″. Ou seja, metade dos empregados utilizados  (300 pessoas). A outra metade ou pouco mais (340 pessoas) serão empregues como  contratos de aprendizagem. Uma percentagem igual a 10% das necessidades ocupacionais é reservado “aqueles que se encontram na situação de desemprego técnico  e/ou em derrogação, mobilidade, desempregado na sequência de processos de  despedimento bem como pessoas desempregadas”, que  voltarão a sê-lo  após os 6 meses em que decorre a Expo, em companhia dos outros trabalhadores empregues  a tempo determinado.

Quanto  à percepção que se tem dos empregos para jovens na Itália, a Expo terá levado à criação de  leis especiais para aumentar a flexibilidade, enquanto não aparecia a Jobs Act de  Renzi. Mas ela agora aí está.

Mas o meu amigo deixa-me  a pergunta sobre a convergência dos sistemas, à baixa de qualidade, inversa pois da questão de convergência dos anos sessenta  e setenta, em que se considerava que ambos os sistemas convergiam pela melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos.  Pelo que atrás se disse, embora de  forma sintética, a resposta à pergunta incomodamente largada é simples: caminhamos sim senhor para um destino idêntico na degradação, com a diferença de que no lado de cá a marcha nos anos 80-90 era relativamente controlada enquanto que actualmente é uma marcha em ritmo fortemente apressado a que se está agora a fazer. E o ritmo é de tal forma acelerado que agora são países inteiros a constituírem verdadeiros goulags. Em nome da liberdade dos mercados.

Dou um exemplo simples, de ontem mesmo, 21 de Novembro. Vou de autocarro ter com a minha neta à saída de aulas de formação em piano e canto. Olho à minha frente, vejo uma antiga empregada dos serviços onde leccionei. Levanta-se vem ter comigo, onde havia lugar ao meu  lado. Ia buscar o neto à escola, para o levar à piscina.  E conta-me a existência de alguém que vive neste país  como sendo um verdadeiro goulag.  Ela própria, reformada, não vai ao jantar de Natal da Instituição onde  se reformou  porque lhe faltam os euros, Não recebe emails porque o seu computador avariou-se e dinheiro para a reparação nem  vê-lo.  O seu filho? Bom, o meu filho faliu. Ficaram-lhe com a carrinha. Arranjou emprego por seis meses a 500 euros por mês, sem mais nada, nem subsídio de alimentação. Paga de dívidas mensalmente 200 euros! Corre o risco de lhe cortarem a água. Porquê? Porque rebentou um cano, a água correu, correu, a factura subiu, subiu, quase 300 euros. Não tem dinheiro para pagar a conta da água. E a sua nora. A minha nora, teve sorte, fui substituir uma professora grávida que teve o azar de estar perante uma gravidez de alto risco. Por isso, a minha nora  tem emprego até ao final do ano. É  professora de ciências, precisa de um computador, o dela avariou. Não tem dinheiro para o reparar nem para comprar um tablete.  Dá aulas numa cidade muito  para lá  de onde desagua o Tejo. Alugou quarto numa casa em que já está uma médica do Serviço Nacional de Saúde, uma enfermeira do mesmo serviço e uma analista de análises clínicas.  Vem à sexta  para estar com a família e vai no domingo a seguir ao almoço. O meu netinho chora muitas vezes de noite, a dizer que tem muitas saudades da mamã. Entretanto, o autocarro chegou à paragem do seu destino. Despeço-me, não sou capaz de pegar no jornal. Bolas para tudo isto, para esta precariedade infernal.  É a da avó, reformada, que perdeu fortemente a já fraca qualidade de vida de que podia dispor, é o filho que de empresário passa quase a escravo, é a professora que teve a “sorte” da colega ter azar com a gravidez, é a médica que terá ido para Medicina a sonhar com qualidade de vida  e que reparte algures no interior parte de uma casa alugada para poder suportar os custos. E o mesmo com as outras duas. E pergunto-me, o que será o serão daquelas quatro mulheres? Um pouco como o degredo dos operários da   Fiat e da siderurgia de Tarento. Um pouco diferente porque têm televisão!

Portanto o meu amigo tem toda a razão: é a Europa como um todo que está transformada num goulag  de matriz capitalista!

O que para mim continua a ser um espanto é o facto de que os organismos que supervisionam o sistema global não verem, não pensarem,  que se há suicídios individuais não há seguramente suicídios colectivos, nacionais.

No texto que vamos publicar sobre a situação de trabalhadores em Itália  diz-se:

“Aos trabalhadores “confinados” não é pedido que  produzam,  mas que passem os  dias sem estar a nada  fazer , olhando o tecto ou distraindo-se a torcer  os dedos,  até atingir aquele lento, prolongado  estado de inacção que não se torna nunca  numa forma extrema de violência contra a própria mente, contra o seu próprio corpo.  O trabalhador na situação de  “confinato “, ou seja   de desterrado na situação de desemprego técnico, vive numa condição de eterna suspensão em que a fábrica acaba por lhe parecer  como um mundo à parte, que pode ser observado  apenas através de um buraco. Em resumo, o  confinado assume o papel de aviso, de advertência para todos os outros,  para todos,  ou seja, para todos os  que continuam a trabalhar nas  cadeias de montagem. Se alguém não se portar bem,  aí está, pois, o que o espera … Ao mesmo tempo, que é enviado para um local de degredo, o trabalhador confinado   é  constantemente exposto à chantagem de passar da situação de trabalhador “confinado” à situação de despedido, em suma, de cair da panela para cima das brasas.”

Colectivamente não se irá “ atingir aquele lento, prolongado estado de inacção que não se torna numa forma extrema de violência contra a própria mente, contra o seu próprio corpo”, de que nos fala o texto. Em vez desse estado colectivamente o que se vai gerar será pois,  mais cedo ou mais tarde, a mais profunda revolta e dessa o que restar  ninguém pode adivinhar. Temo aí pela vida de loucos como Schauble, Merkel, Jens Weidmann, ou de oportunistas políticos  como Durão Barroso  e outros, temo mesmo muito. Não percebo porque é que não vêem isso.

Meu caro Amigo,  JAS,  são estas as considerações que me merecem o seu pequeno bilhete.

Coimbra, 22 de Novembro de 2014

Júlio Marques Mota

_______

[1] Perante um suicídio de um ex-empregado da Fiat em 2011, afirmou  o governador Lombardo : “Quando ci si comporta da farabutti, i lavoratori vengono portati all’esasperazione e si arriva alla disperazione”. Citado por La Reppublica de Palermo, 29 de Julho de 2011. Tradução proposta : quando os patrões se comportam como tubarões, os trabalhadores são levados à exasperação  e acabam por cair no desespero total.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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