EDITORIAL – A operação «Marquês» e a «informação»

Imagem2Temos, por diversas vezes, colocado a questão da deontologia profissional que deve reger a actividade jornalística e não iremos hoje reproduzir aqui argumentos que nos parecem desnecessários, nem transcrever artigos do código deontológico a que os profissionais da informação estão vinculados.

Relativamente à operação «Marquês», não temos emitido opiniões, já que o assunto está por demais debatido e não nos parece que, seja qual for o desfecho das investigações em curso, o tema da corrupção fique resolvido. Ángeles Diez, uma professora e politóloga espanhola defendeu a ideia de que as grandes corporações mediáticas dos nossos dias, não só estão ao serviço do poder – são o poder. Noam Chomsky denunciou, por seu turno, as técnicas de manipulação que os «órgãos de informação» desenvolvem na sua acção deletéria de desinformar.

Registamos, no entanto, a má preparação revelada pelos jornalistas dotados ou não de diplomas em «comunicação social», evidenciando primarismo de recursos e falta de cultura – quanto ao respeito pelos princípios éticos que regem a profissão, nem merece a pena falar.

Como dissemos, não temos querido falar sobre a detenção de José Sócrates. Como quem nos visita sabe, nunca fomos defensores da sua acção como governante. No entanto, neste caso, os jornalistas estão a comportar-se como animais necrófagos – chacais, abutres, hienas. Tal como noutros casos se comportam como animais cegos, toupeiras ou peixes de insondáveis profundidades. Os do grupo dos ciclóstomos, por exemplo que, sem bexiga natatória e sem mandíbulas, mantêm a boca permanentemente aberta…

As reportagens quase transformam Sócrates numa vítima. Proeza difícil, mas que a desonestidade reinante na chamada comunicação social está a conseguir.

 

1 Comment

  1. De vez em quando, evoco a sábia frase de Baptista Bastos, aos microfones da RDP (eu estava lá…), já há umas dezenas de anos, quando o número de possuidores de carteira profissional de jornalista andava, se bem me recordo, ainda longe do milhar: «Sabe, jornalistas somos uns trinta: o resto são simpatizantes».
    Actualmente, esse número ascenderá a vários milhares. A grande maioria dos novos jornalistas apresenta-se de canudo académico, por via de cursos cujo conteúdo, a julgar pelos resultados, me parece assaz duvidoso, não devendo andar longe da miséria intelectual cultivada nas faculdades que produzem robotizados economistas, gestores e afins, meros papagueadores de conceitos que lhes enfiaram nos “crânios ermos” e que crêem piamente constituírem referência imutáveis, eternas, inquestionáveis. O número de jornalistas a sério pouco terá ultrapassado a tal trintena. Os simpatizantes, que ainda se esforçam por parecer jornalistas, já não chegarão ao meio milhar. O resto são criaturas de uma incomensurável incultura, totalmente avessos ao cumprimento de uma coisa chamada “Código Deontológico” (que nem devem saber o que é), palradores de muito “inglês técnico” ou das docas e possuidores de vaguíssimos conhecimentos da língua portuguesa, que diariamente submetem a tratos de polé, oralmente ou por escrito. Esta última característica não tem a ver, apenas, com a difusão da iliteracia perigosamente sancionada pela “autoridade” dos “media”; veda-lhes por completo a compreensão do que se passa à sua volta, do que lhes é comunicado, até, mesmo, do que vêem e tentam narrar.
    Aquilo a que assisti nos canais televisivos é, simultaneamente, péssimo trabalho jornalístico e acumulação de violações da lei, e não só do tão badalado segredo de justiça, que as criaturas “encarteiradas” pensam estar isentas de acatar, como se um assassino pudesse descartar a sua responsabilidade na eliminação da vítima, com a desculpa de que o criminoso seria quem lhe ordenara o crime e lhe fornecera a arma, limitando-se o autor material do homicídio a usá-la…
    Aquilo a que assisti em dois debates na RTP informação seria, noutras circunstâncias e com uma direcção de informação a sério, impossível. Nas circunstâncias actuais, sendo obviamente possível, pela presunçosa ignorância dos intervenientes, continua a ser inaceitável.
    Num dos debates, as vozes de uma professora universitária da área da comunicação e de um jurista, que tentaram chamar a atenção dos outros intervenientes (e dos espectadores…) para a referida responsabilidade dos profissionais dos “media” na violação de imperativos legais foram completamente abafadas por umas criaturas que confundem debate com uma vozearia ofegante e estulta de alarido de pátio. “Moderava” Carlos Daniel, cujo desempenho me decepcionou, por ser dos poucos que considerava terem alguma noção de jornalismo e das responsabilidades inerentes à profissão.
    Noutro, uma das jovens apresentadoras que, de vez um quando, brotam do vácuo profissional, começou por apresentar a “recuperada” (por razões que desconheço, mas não por certo de qualidade profissional) Manuela Moura Guedes – que aparentemente já nasceu a pontapear o código deontológico – como “comentadora” da RTP, quando foi, sim, (mal) contratada para apresentar um concurso e já conseguiu invadir um espaço de pretenso debate político “feminino”, um atentado a uma verdadeira igualdade de género… E, depois, quando a improvisada comentadora se instalou como protagonista, no palco que lhe ofereciam, de um vergonhoso espectáculo de auto-promoção, evocando a justeza das suas “investigações” socráticas, que este episódio só “vinha confirmar” (quando ainda não há sequer julgamento, nem indícios e hipóteses de acusação que ultrapassem generalidades) e acusando – sem provas! – o ex-Procurador Geral, Pinto Monteiro, de ter impedido a instauração dos inquéritos que tão importantes “pesquisas jornalísticas” imperiosamente exigiam, a dita apresentadora mostrou-se absolutamente incapaz de pôr a desenfreada criatura no seu lugar, muito provavelmente porque nem sequer é capaz de perceber que aquela estava a usar o canal público para praticar uma sucessão de ilegalidades, incluindo difamação e atribuição de culpas jamais provadas em tribunal, pois todos os processos referidos foram arquivados: e a lei, que nos deve proteger a todos deste tipo de “justiceiros” armados em “juízes populares”, é para cumprir.
    Estranharei se o “acusado” não processar a “comentadeira” (ou comadre de pátio), envolvendo inevitavelmente, como cúmplice, o próprio canal público, que deveria ser uma referência de boas práticas jornalísticas e não um caneiro de águas turvas.
    Mas outra coisa não seria de esperar, depois do êxito da política do actual governo de degradação e abandalhamento deste serviço público, com a cumplicidade de agentes escolhidos a dedo.

Leave a Reply