OS PRISIONEIROS DAS FÁBRICAS, por ALESSANDRO LEOGRANDE, FABIO ZAYED e MAILA IACOVELLI – II

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapa itália

Os prisioneiros das fábricas

Obrigado a:

Alessandro Leogrande, Fabio Zayed e Maila Iacovelli,  I prigionieri delle fabbriche

Internazionale, 27 de Outubro de 2014

Nota de Júlio Marques Mota

Fotos de Fabio Zayed e de Maila Iacovelli, texto de  Alessandro Leogrande para a  Internazionale,  a que acrescentei excertos de jornais e de outros sites, geralmente assinalados no texto.

Os prisioneiros das fábricas

prisioneiros - VIII
Trabalhadores em frente das grades da Fiat. Entre eles Emma Pezzella, trabalhadora especializada, inscrita no SlaiCobas, transferida para o degredo de Nola.

Após a sua morte, foram despedidos cinco trabalhadores que protestaram contra a direcção da empresa em Pomigliano. Fingiram-se de cadáveres, borrados de sangue e estendendo-se no asfalto, depois de terem suspenso num poste eléctrico um manequim com a cara de Marchionne

Três meses antes da morte de Marie, Giuseppe de Crescenzo, activista sindical do SlaiCobas na situação de confinado em Nola, enforcou-se na sua casa de Afragola. Tinha 43 anos.

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Ciro Nacarlo, trabalhador especializado na Fiat, inscrito no SlaiCobas, transferido para o degredo de Nola.

A história de reparti confino, ou seja, da situação de desterrado, de degredo, vem já de longe. O local mais conhecido é o caso de Osr ((Officina sussidiaria ricambi)) na via Peschiera em Turim. A partir de Dezembro de 1952, a Fiat dirigida por Valletta mandou para lá 130 trabalhadores por razões políticas e sindicais[1]. Eram quase todos comunistas, um ou outro socialista. No calão dos grandes empresários eram catalogados como agitadores, como “violentos”. Em 1957 este local de degredo foi fechado e os trabalhadores despedidos, mas durante todo aquele lapso de tempo, no auge dos sombrios anos cinquenta, a Osr (apelidada pelos confinados ao degredo de Oficina Estrela Vermelha) tinha sido uma pedra de toque nas relações de trabalho.

O sociólogo Aris Accornero coligiu trinta testemunhos de trabalhadores que terminaram a sua vida profissional na via Peschiera em Fiat Confino, um velho livro das Edições Avanti de 1959. Mais recentemente Ornella Bellucci e Danilo Licciardello realizaram um documentário, Democrazia sconfinata ( Democracia aprisionada), em que conseguem mostrar os vestígios do passado da Oficina Estrela Vermelha no actual polo logístico de Nola.

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Cartaz sobre a consulta sindical, promovida em Fiom, contra a aprovação do novo contrato e dos despedimentos na Ilva, grande grupo industrial italiano da siderurgia, em Tarento.

Pelo meio de tudo isto deveria ser citado um outro livro, Le schedature Fiat, de Bianca Guidetti Serra, que Einaudi não quis publicar e que saiu editado por Rosenberg em 1984. A advogada e antiga guerrilheira Guidetti Serra conta a incrível história, aparecida em 1970, da descoberta de dezenas de milhares de fichas sobre os trabalhadores realizadas a partir do topo da Fiat para atingir os seus trabalhadores, fichas estas feitas a partir de uma estrutura de espionagem interna construído ad hoc. Nas fichas eram anotados os detalhes da vida privada, os hábitos, os costumes, a fé religiosa, a política, de muitíssimos operários.

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Livro de Bianca Serra.

O acontecimento, escreve Bianca Guidetti Serra, foi conhecido e tornado público de um modo inteiramente fortuito, quando em Setembro de 1970, um sujeito de nome Caterino Ceresa intentou um processo à Fiat sustentando ter trabalhado durante anos com uma qualificação diferente da que corresponde às suas funções. Embora tenha sido admitido como estafeta, as suas funções consistam realmente em informar a empresa com “imensos relatórios escritos relativamente às qualidades morais, ao passado penal, à respeitabilidade das pessoas com as quais a empresa deveria entrar em contacto ”.

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Luigi Real, operário especializado Fiat, inscrito ao Cub, transferido para o degredo de Nola. 

Ceresa perdeu a causa, mas foi iniciado um procedimento contra os funcionários de Fiat que, na dependência do ex-coronel Mario Cellerino, teriam organizado o organismo encarregado de investigar a vida dos trabalhadores. Quando o agora juiz de instância Raffaele Guariniello se apresentou nas salas de Fiat para confiscar todo o material necessário ao inquérito, encontrou pela frente 354. 077 fichas pessoais recolhidas sobre longas estantes.

(continua)

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[1] Como se assinala num blog italiano: “Alla FIAT intanto la repressione antioperaia, spalleggiata da Pace e Libertà, era molto evidente: migliaia di dipendenti comunisti o iscritti alla CGIL venivano licenziati, mentre in fabbrica era stato creato un reparto confino, la OSR (Officina Sussidiaria Ricambi) ribattezzata Officina Stella Rossa, a testimonianza del fatto che lì finivano esclusivamente i lavoratori troppo politicizzati.”

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Para ler a parte I de Os Prisioneiros das Fábricas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

OS PRISIONEIROS DAS FÁBRICAS, por ALESSANDRO LEOGRANDE, FABIO ZAYED e MAILA IACOVELLI – I

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