EDITORIAL – ALUNOS DE ESCOLAS PÚBLICAS SÃO MUITO MELHORES, MESMO QUE TENHAM NOTAS MAIS BAIXAS

O saber dos alunos vê-se pelas suas notas nos exames nacionais? logo editorialElas indicam a sua capacidade de aplicar os conhecimentos adquiridos? Elas indicam os seus outros saberes essenciais para a vida? É-se melhor aluno quando se tem melhor nota? Nem sempre. Vale mais ter uma boa nota num colégio com uma equipa de professores estável, com pessoas em casa que ajudam no estudo, até com “explicador” pago? Ou vale mais ter a mesma nota quando já se mudou de professor umas três vezes e em casa se não tem quem ajude?

Vale mais ter uma boa nota quando se vai de carro para a escola, ou quando se tem que andar uns bons quilómetros a pé?

Vale mais ter boa nota quando se tomou um bom pequeno almoço e se pode fugir ao almoço da cantina, ou quando se vai de estômago vazio e se tem que se sujeitar ao “bónus” da caridade para encher a barriga?

Vale mais ter uma boa nota quando se está num colégio uniforme nos valores, no corpo docente, nos alunos, ou quando se faz parte do grupo a que se cortou a verba de 700 milhões de euros ?

Como ter boas notas se, para a família alcançar esses resultados não faz qualquer diferença?

Se esta visão entre “bons” e “maus”, está posta ao contrário, só nos chama a atenção para o facto de, felizmente, existirem escolas públicas que dentro dos princípios de uma educação inclusiva, conseguem que todos sejam integrados, e mostrar que se consegue alcançar bons resultados, fazendo omeletes sem ovos.

1 Comment

  1. Houve tempos em que discordei desta classificação (“ranking”, para a maioria de imbecis que invadem os “media” e nem sequer são capazes de escrever em português escorreito) exigida por uns sujeitos mui esclarecidos, em nome de qualquer coisa do tipo “transparência”, “direitos dos pais” ou outras semelhantes inanidades, que já nem recordo, dada a sua insignificância. Discordei, porque se trata de comparar coisas que não são comparáveis, como o texto da Clara evidencia, ao descrever as diferentes circunstâncias em que as escolas funcionam.
    Agora mudei de opinião.
    Completada com as informações adequadas sobre quem frequenta o quê e em que locais, de que classes sociais são oriundos os alunos dos vários estabelecimentos de ensino (nomeadamente os “particulares”), quanto é que uns tantos paizinhos pagam para os seus meninos não se misturarem com a escumalha das escolas públicas (ai, credo, córror!), passei a considerar esta classificação como prova inquestionável da acção de sucessivos governos em prol dos mais ricos e em detrimento de todos os outros cidadãos e do “investimento” no cultivo e manutenção de uma “élite do dinheiro” que tem acesso a todos as condições para uma formação de elevado nível, mas… se analisarmos onde acaba por chegar, culturalmente, a esmagadora maioria desses favorecidos, verificamos que se fica por uma geral menoridade intelectual, potenciada precisamente pela ausência de contacto com o “mundo real”, do qual os filhinhos são cuidadosamente preservados.
    Por muito elitista que seja a “escola particular”, por muito bons que sejam os professores (mas, “hélas!”, em geral, apenas “tecnicamente”), só os educandos muito inteligentes (em termos globais e não específicos) e intelectualmente inquietos, que não absorvem alvar e resignadamente o que lhes despejam nas cacholas, se conseguem libertar do espartilho de banalidades em que os comprimem, e atingir um patamar cultural elevado. Os restantes não passam de candidatos acéfalos a espectadores de “riálitchós” e esterqueiras similares, isto é, tornam-se nos intérpretes ideais, “modelo João César Monteiro”, de um projecto de sociedade inculta, ignorante e acrítica. A seu modo, são tão básicos como os fanáticos do califado islâmico e, se a ocasião se propiciar, igualmente capazes das mesmíssimas barbaridades, já que os “valores” que lhes incutem são superficiais e voláteis.
    Considero uma sorte ter frequentado a escola primária “da Junta”, que acolhia os miúdos mais pobres da freguesia onde cresci (mesmo os desprovidos de tudo, que passavam fome e usavam a roupa surrada que herdavam dos irmãos mais velhos, o que não era exactamente o meu caso). Essa experiência contribuiu decisivamente: a) para obter um conhecimento directo de uma realidade (não só do presente, mas do futuro divergente de muitos dos meus companheiros) que escapava, por completo, à grande maioria dos colegas que viria a encontrar no Liceu e que, na melhor das hipóteses, tomariam contacto com ela penas através da literatura; b) para aprender, “no terreno”, a solidariedade, então traduzida por começar a repartir a minha merenda com os colegas e, depois, por a minha mãe, confrontada com a situação que lhe transmiti, passar a preparar-me uma “merenda aumentada”. Por outro lado, foi daí que vieram alguns dos meus melhores amigos, uns tantos exemplos de coragem e vontade para enfrentar e ultrapassar situações adversas, alguns futuros companheiros de luta política e resistência ao fascismo. Em compensação, continuei a verificar, muitos anos depois, que alguns amigos dos tempos do Liceu, que nunca frequentaram outros meios que não os da sua “classe social” (elevada…), mesmo tendo adquirido a consciência das injustiças da sociedade em que viviam e querendo contribuir para a sua mudança, mesmo trilhando os caminhos de um aperfeiçoado humanismo, continuavam a evidenciar lacunas espantosas, ao nível de coisas para mim comezinhas mas cujo conteúdo, suspeito, nunca assimilarão por completo, pois nada substitui o que não se viveu.

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