Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Os prisioneiros das fábricas
Obrigado a:
Alessandro Leogrande, Fabio Zayed e Maila Iacovelli, I prigionieri delle fabbriche
Internazionale, 27 de Outubro de 2014
Nota de Júlio Marques Mota
Fotos de Fabio Zayed e de Maila Iacovelli, texto de Alessandro Leogrande para a Internazionale, a que acrescentei excertos de jornais e de outros sites, geralmente assinalados no texto.
Os prisioneiros das fábricas
(CONCLUSÃO)
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Um Goulag em Tarento- Descrição publicada pelo Corriere della Sera num artigo com o título: Professione nullafacente: pagati per non lavorare“Quei nove mesi nella palazzina Laf”. “Non un sol giorno di attivita”PROFISSÃO Nada fazer: pagos para não trabalhar. Isto escreve-se “laffizzati”, mas deve-se ler desterrados, confinados, confinados, vítimas de bullying ou ainda pessoas privadas das suas funções e de possibilidade mesmo de trabalhar. O abstruso termo “laffizzato” é um neologismo que, em Tarento, é bem conhecido. Refere-se ao edifício chamado Hotel Laf de Ilva, outrora empresa pública, agora propriedade do grupo Riva sob a direcção de Emilio Riva, o industrial lombardo do aço. Este hotel foi outrora os escritórios dos “Laminados a frio”. Foi depois abandonado, degradou-se progressivamente, encheu-se de poeira e tornou-se um registo espectral de uma era já acabada. Até ao mês de Maio de 1997, em que se começou a repovoar de empregados, já com mais de 70 empregados no início ‘de 98. Este grupo de trabalhadores, contudo, mais do que constituir um novo departamento de produção da empresa Ilva agora privatizada, tornou-se uma multidão de fare niente, de gentes a vaguear nos longos corredores das instalações ou sentados nas cadeiras com os olhos fixos sobre as paredes dos escritórios vazios. A coisa paradoxal é que a inactividade não era uma escolha, mas sim que as pessoas eram pagas para não fazer nada; pelo contrário, a empresa tinha-os ali porque não tinha a intenção que estes trabalhassem como seus empregados. “Reparto confino”, “palazzina lager”, “ufficio spauracchio”, eram estas as definições empregadas para enquadrar o Laf na imprensa local. Até que, em Novembro de 1998, o procurador Franco Sebastio chegou com os carabineiros, fez sair os 79 trabalhadores presentes e selou as instalações, protegendo-as como possível corpo de delito. Este foi o primeiro passo que levou a que a 15 de Dezembro último se declarasse aberto o processo contra Emilio Riva, o seu filho Claudio e outro 10 dirigentes de Ilva, com as acusações de violência privada e fraude processual.Um exemplo da vivência como empregado desterrado contado pelo Corrière della SeraCLAUDIO VIRTU, Técnico informático, 26 anos na FÁBRICA Ilva“Estes nove meses nas instalações Laf”? Permaneci neste edifício confinado por nove meses “. Claudio Virtu ‘tem 51 anos, diploma de professor e com quase trinta anos de serviço em Ilva de Tarento. “ Durante 26 anos trabalhei como técnico informático junto do Ced, centro de tratamento dos dados. Quando chegou Riva não me preocupei: sou do ponto de vista profissional sou um homem seguro, dizia a mim mesmo, Riva está ao nível de empresa numa posição mais elevada nada mais, basta que continue a trabalhar bem como tenho feito e nada a temer. Mas não foi nada assim: ao dia seguinte a ter havido uma greve, ouvi dizer que, por causa da reorganização do trabalho, deixava de haver lugar para mim no Ced. Assim, no início de Fevereiro de 1998 fui colocado no Laf. Recentemente Virtu, junto a outros seus seis colegas que passaram pelo Laf, fundaram a secção regional MIMA, o movimento dos trabalhadores sujeitos na violência física e psicológica ( os mobbizzati). Quando entrei no Laf senti um aperto do coração : dois lanços de escadas, um primeiro lanço muito degradado e no corredor um grupo de pessoas que se passeava de maneira obsessiva para a frente e para trás. Lá dentro, a vida era de um ócio infinito, alienante, falava-se apenas do nosso problema, continuamente. Muitos tiveram necessidade de cuidados psiquiátricos. Em julho de 1998 fui chamado ao escritório do pessoal e, naquele momento, várias vezes me pediram- que aceitasse um novo contrato, ou seja, que aceitasse ser inserido na empresa como operário. Se a empresa estivesse em situação de crise não oporia nenhuma resistência, teria arregaçado as mangas, mas assim não, não podia ceder “. Quando em Novembro de 1998 a magistratura fechou as instalações Laf, Claudio foi mandado para casa. “Disseram-me que estava dispensado de entrar na empresa e mais ainda que continuavam a pagar-me. Senti-me ainda mais humilhado. Agora Cláudio, depois de um ano de inactividade e remunerado em casa, está no desemprego.
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Fiat, Ilva… Os suicídios de Maria Baratto e Giuseppe de Crescenzo, as histórias dos trabalhadores confinados caídos em depressão ou forçados a utilizar fortes psicotrópicos, as histórias de militantes sindicais de base que durante anos se encontraram a lutar contra o Golias da indústria como contra os moinhos de vento, fazem aparecer muita coisa que estava escondida do sistema industrial italiano.
É frequentemente uma Itália de periferia, esta dos camponeses da Campânia, como os da periferia de Tarento, que se afunda na crise e longe dos projectores. Ou ainda estas histórias não são o produto do não trabalho ou de um sistema de microempresas. Não, estas histórias produziram-se no centro dos dois maiores grupos industriais do país. Quem é que no imaginário colectivo coloca de lado a ideia de fábrica? Mudam os tempos, muda-se a linguagem. Ao terror dos “violentos”, dos agitadores de ontem, substituiu-se o mito actual da “governabilidade ” da fábrica. Tudo o que é governável pode ser mantido na Itália. Tudo que é “ingovernável” deverá necessariamente ser colocado na mãos de outras unidades fabris, ou talvez abertos noutros lugares, noutros países. Entretanto, abrem-se brechas: a luta subterrânea entre governabilidade e ingovernabilidade passa através da antiga tradição dos reparti confino, ou seja dos trabalhadores colocados na situação de degredo.
Maila Iacovelli e Fabio Zayed collaborano dal 2000 nell’ambito della fotografia di scena nel teatro e nel cinema. A questa esperienza affiancano progetti di ricerca a lungo termine in ambito sociale e antropologico tra cui “The empty tombs” che è stato esposto al Festival internazionale di fotografia di Roma, “Revolutionary petunias” e “Confino-exil units”.
Alessandro Leogrande è vicedirettore del mensile Lo straniero. Tra i suoi
libri: “Uomini e caporali” (Mondadori 2008), “Il naufragio” (Feltrinelli 2011, da cui è tratta l’opera “Kater i Rades. Il naufragio”) e “Fumo sulla città” (Fandango 2013).
Foto scattate tra il 2010 e il 2012 da Maila Iacovelli-Fabio Zayed (Spot the Difference).
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Para ler a parte IV de Os Prisioneiros das Fábricas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2014/11/29/os-prisioneiros-das-fabricas-por-alessandro-leogrande-fabio-zayed-e-maila-iacovelli-iv/
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Ver o original em:
http://www.internazionale.it/articolo/2014/10/27/reparti-confino-in-italia-9

