
II
A senhora entrou. Tinha uns trinta anos como outros quaisquer e não vinha só. Trazia um menino pela mão. Este contava os seus dez anos bem puxados, andava vestido à maruja e favorecera-o a Natureza, por intermédio dos seus progenitores, com uma carinha de parvo muito semelhante à de várias pessoas adultas das minhas relações.
Indiquei uma poltrona à senhora e o menino, antes de se sentar numa cadeira, aproveitou a ocasião para entornar com estrondo no meio da casa uma mesinha carregada de várias bibelotagens, metade das quais se partiu por ser de louças caras: Saxe, Delft, Sacavém e gesso.
– Mestre, – disse a senhora com o mais amável dos seus sorrisos – este pequeno é meu filho.
– Faz ele muito bem. – concordei eu – No caso desse jovem fazia o mesmo.
– Muito obrigada. – respondeu a senhora, lisonjeadíssima – Pois o caso é muito simples: Meu filho tem doze anos…
– Está muito bem conservado…
– …E chegou o momento de lhe escolhermos uma carreira. A avó materna quer que ele seja oficial de marinha.
– É uma carreira bastante anfíbia. Ora no mar, ora em terra…
– A outra avó preferia que fosse médico. O avô do lado paterno inclina-se para a advocacia. Meu pai, esse, estimaria que o Gibi – Gibi é o nome familiar do meu pequeno – fosse administrador de qualquer Banco Nacional Ultramarino.
– Vejo que o papá de Vosselência não é tolo de todo. Provavelmente sai à filha.
– Meu marido, por sua vontade, antes dedicaria o Gibi ao comércio.
– E com justos e louváveis motivos. O Comércio, a Indústria, a Agricultura e a Batota são os quatro pontos cardiais dos tempos calamitosos que vão correndo hoje em dia.
– Ora eu tenho outras ideias. Estimaria que o meu filho fosse humorista. Ninguém melhor do que Vosselência, que é com justiça considerado o Príncipe dos Humoristas Portugueses, me poderá aconselhar… Diga-me, querido Mestre…
O Gibi em questão aproveitava esse começo de palestra para limpar com o indicador da dextra a fossa sinistra do nariz, mirando entretanto e de soslaio os destroços dos vários objectos de arte que tão prodigamente espalhara pelo tapete.
Fitei a pobre mãe, que esperava ansiosamente as minhas palavras e disse-lhe com a amargura nos lábios e o coração nas mãos:
– Minha senhora! Faça do seu filho um capitão de mar e guerra. Meta-lhe na mão uma lanceta de cirurgião. Cubra-lhe o corpo airoso com as pregas austeras duma toga de advogado. Arranje-lhe a directoria dum banco, nem que seja dum banco de jardim. Encaixe-o no comércio, pondo-o a um balcão ou à secretária dum escritório. Deixe-o ser o que ele quiser: aviador, sonâmbulo, croupier de banca francesa, senador, dramaturgo, bandarilheiro amador, oficial de barbeiro ou de registo civil. Se tiver queda para revolucionário ou para arquivista, para arquitecto ou para bilharista, para jogador de bolsa ou para gatuno de forasteiros, deixe-o lá. Não o contrarie. Tudo isso são vidas, são carreiras, são destinos. Mas, se estima o seu filho, se ainda se lembra dos apuros por que passou para o trazer a este mundo, se o quer ver feliz e tranquilo, evite, minha senhora, que ele venha a ser humorista…

