DIA DE ÉVORA – Antunes da Silva (Évora, 1921- Évora,1997)

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Concluiu o antigo Curso Comercial no ensino público em Évora, tendo iniciado a sua vida profissional com 13 anos de idade, num escritório. Em 1948 fixou-se em Lisboa. Foi activista do «Movimento de Unidade Democrática» (MUD), secção juvenil. Preso pela polícia política, o regime da Ditadura nunca o chegou a julgar. Em 1969 foi candidato pela CDE, nas listas da Oposição Democrática à Ditadura.

Fixou-se em Lisboa em 1949. Exerceu a profissão de revisor de jornais, ao mesmo tempo que trabalhava numa empresa fabril. Desde muito jovem demonstrou talento como ficcionista, vindo a afirmar-se paulatinamente como poeta, contista, romancista e cronista. A sua actividade literária dispersou-se por vários periódicos, entre os quais destacamos os jornais, Diário de Lisboa, Diário Popular, Comércio do Porto, República e Diário de Notícias; e as revistas Vértice, Seara Nova e Colóquio.

Segundo o crítico António Quadros, a Antunes da Silva se ficam a dever algumas «das mais vibrantes páginas que depois de Fialho de Almeida se escreveram sobre a gesta do homem alentejano». O escritor Ferreira de Castro, que cedo seguiu a trajectória do escritor, disse-lhe um dia: «O Alentejo deve orgulhar-se de si!».

Revelando-se sobretudo como contista, atingiu mestria plástica invulgar nalgumas composições, filiadas na corrente literária neo-realista. Algumas das suas obras foram traduzidas em várias línguas, sobretudo eslavas. O seu romance Suão (1960) foi «Prémio dos Leitores do Diário de Lisboa».

Imagem2Grande defensor da qualidade de vida do povo trabalhador do Alentejo, e severo “juiz” do latifúndio, Antunes da Silva foi homenageado pela Câmara Municipal de Évora (1991). Todavia, o executivo político municipal (maioritariamente comunista) agraciou-o com a «Medalha de Mérito Municipal», “classe prata”, considerando talvez que o escritor, apesar de declarado intelectual anti-fascista, mas não militante comunista, não era cidadão de 1ª classe e, portanto, não merecia a «medalha de ouro». Enfim, mais uma vez, a cidade de Évora não esqueceu a sua secular tradição de tratar os seus filhos como madrasta! Antunes da Silva veio a ser agraciado (1992), pelo Presidente da República, com a Ordem da Liberdade.Do conjunto da sua obra destacamos: Gaimirra (1946); Sam Jacinto (1950); O Aprendiz de Ladrão (1954); Vila Adormecida (1956); Canções do Vento (1957); Terra do Nosso Pão (1964); Alentejo é Sangue (1966); Rio Degebe (1973); A Fábrica (1979); Alqueva, a grande barragem (1982).

 

 

Évora-Cidade Dos Beirais Romanos

 

Évora-Cidade

dos beirais romanos,

tem a vida ardendo

na prata dos anos.

Tem lojas e feudos,

ganhões e pistolas,

vagabundos finos

vivendo de esmolas.

Tem muralhas longas

beijando quintais,

armazéns de librar

em antros venais.

Dinastias há

de famílias ricas

mandam na cidade

com ódios e tricas.

E às sextas-feiras

dão esmola dão,

sacudindo a mão…

Évora-Cidade

dos senhores reis,

é sempre guardada

por sustos e leis.

Foi dito uma vez

com autoridade:

«Não podem ser lidos

versos na Cidade!».

Um sujeito sonso

E uma bela dama

Criaram a lei

Que deu em ter fama.

[…].

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– Do livro de poesia Rio Degebe, 1973.

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