Qu
e Évora a da nossa juventude! Inçada de medos, proibições, “pides” e bufos por uma pá velha, mas com uns serões, mais “subversivamente” culturais e “progressistas” do que conspirativamente revolucionários, passados nas salas do «Joaquim António d’Aguiar» (Sociedade Operária de Instrução e Recreio, saiba-se) … Enfim, todo um quadro provinciano de pasmaceira e angústia sorna, a moer-nos a alma e a paciência, há muitas décadas atrás.
Súbito, numa noite amena de meados de Junho de 1964, após as 21 horas, uma voz viril de cantor romântico, de dicção correcta, rompe da televisão: – Era o Francisco José (1924-1988)!
Há uns anos residindo no Brasil (Rio de Janeiro), o eborense conseguiu calar as vozes dos barulhentos do costume e, como se fosse um momento religioso, todos descemos à sala da televisão para ouvir e ver o nosso conterrâneo.
Há momentos na vida quotidiana em que ficamos paralisados de assombro, sem sabermos explicar, se mais tarde perguntados, donde nos veio essa sensação de premonição, como que beijados pelas asas de um anjo inspirador que nos leva para lá da realidade… Um desses momentos, que de tão remoto passado a memória quase esquece, aconteceu naquele serão, pois pressentíamos que algo ia acontecer. É impossível descrever-lhe todas as linhas, como é impossível descrever, subsidiário desse breve tempo, a arquitectura melódica do nosso juvenil entusiasmo e desafio, no dia seguinte, olhando «pides», «autoridades» locais da ditadura e tutti quanti… Ainda havia quem não se deixasse aborregar, e esse alguém era um eborense!…
Nesse programa de TV, o último transmitido em directo, Francisco José interrompeu, sem mais nem menos, a sua actuação musical para exercer um direito cívico que era proibido exercer: o direito à opinião livre e à crítica ao Poder!
Para surpresa de milhões de telespectadores, o eborense denunciou a descriminação que a televisão portuguesa praticava com os artistas nacionais. Entretanto, recusando obedecer às ordens e sinais que lhe faziam detrás das câmaras, no estúdio, para se calar, continuou a falar dizendo isso mesmo aos telespectadores, que o queriam calar, que iam cortar a emissão, que havia censura, etc.. Por fim, surge a publicidade no pequeno ecrã. Tudo estava terminado.
Mais tarde acabou por ser “ouvido” pela polícia política, que lhe apreendeu o passaporte e lhe fixou residência, acusando-o de ter sido porta-voz das reivindicações de todos os artistas silenciados. Respondeu então em tribunal por «injúrias e difamações» e ficou proibido de aparecer na RTP. Uma vez na posse do passaporte, regressou ao Brasil, onde continuou a sua carreira, desta vez além de ser a «voz do coração», Francisco José era também a voz da consciência cívica, crescendo em número os seus admiradores e admiradoras.
Após a queda da ditadura (25 de Abril de 1974), Francisco José regressou à Pátria, fixando-se em Lisboa. Senhor de uma simpatia contagiante, o cantor romântico ainda hoje tem um lugar especial na memória dos eborenses. O intérprete das canções «Ai se os meus olhos falassem», «Estrela da minha vida», canção que dedicou a sua mãe, «Sinal da Cruz», «Teus olhos castanhos», «Eu não sei que tenho em Évora…», assustou a ditadura, há 50 anos, porque sabia “cantar” no palco da Democracia!


Lembro-me muito bem como se fosse hoje, GRANDE CHICO ZÉ. Foi preciso muita coragem.