Como Jesus Cristo e Tiradentes, ei-los magros, barbudos, perseguidos e assassinados por um poderoso Estado. Só isto aproximaria Ernesto Che Guevara e Osama Bin Laden?
Muito mais: quando vivos, eram guerreiros duros na queda, corajosos, assustadores, implacáveis, infundiam medo e esperança.
Compartilhavam um inimigo comum: os Estados Unidos da América.
Guevara queria multiplicar guerrilhas rurais – criar um, dois, muitos Vietnãs – para enfraquecer, até quando fosse possível abater e destruir o imperialismo norte-americano.
Bin Laden preconizava outros métodos: o terror de massa com o objetivo de assustar e intimidar até a paralisia e a desagregação o império do Mal, núcleo de uma civilização a ser destruída pelo Bem da Humanidade.
E depois, o Império derrotado, em que pensavam os dois guerreiros?
O Che sonhava com uma Cidade justa e igualitária, dirigida e regida por “homens novos”, extraordinários. No limite, inumanos. Estóicos, ascetas, preocupados com o bem comum, emancipados do egoísmo e do individualismo malsãos. Haveria que tanger a humanidade neste sentido. Com mão amiga, terna. Se fosse o caso, enérgica e dura. Esta seria a tarefa histórica dos comunistas.
A Cidade com que sonhava Bin Laden era o Califado muçulmano redivivo, a glória dos anos de ouro do Islã, uma sociedade hierarquizada, ordeira, harmônica, pacificada, governada por Sábios e Justos. Esta era, e ainda é, a missão da Al- Quaeda.
Che Guevara olhava para o futuro. Era um socialista moderno, autoritário, mas compartilhava com seus inimigos as referências das tradições iluministas. Caso vitorioso, é de se perguntar se não estaria condenado a construir arcaismos insustentáveis em sociedades cada vez mais complexas.
Já o outro – Bin Laden – tinha da modernidade uma perspectiva meramente instrumental, não pensava senão no passado, vendo nele a única hipótese de futuro.
Morreram em combate nas mãos dos inimigos: que morte mais nobre para guerreiros?
Em suas reflexões sobre o Homem Revoltado, Albert Camus nos fala de dois tipos de assassinato. Os perpetrados com paixão envolvem descontrole dos sentidos, impulsos cegos. Os realizados com lógica submetem-se à Razão, fazem parte de um teorema. Guevara e Bin Laden foram logicamente assassinados por um sistema que não podia conviver com homens que almejavam a sua destruição total. Um assassinato racional. A fotografia do presidente Obama com assessores civis e militares, observando com atenção e cuidado, em tempo real, a ação que resultou na morte do líder da Al Quaeda, evidencia uma total ausência de emoção. Se meios técnicos semelhantes existissem nos anos 1960, é mais do que provável que a morte do Che fosse assistida com o mesmo interesse desapaixonado.
Os dois guerreiros não viram em vida nem veriam o sonho realizado. Se vivos permanecessem, estariam destinados à morte política. O isolamento e a solidão em que se encontravam quando desapareceram evidenciam a distância entre suas propostas e as sociedades que procuravam persuadir. A evolução da história contemporânea de Nuestra America e do mundo árabe o comprovam. Neste sentido, foi sorte deles terem morrido.
Porque só a morte, paradoxalmente, permitiu a sobrevivência do Che e, agora, permitirá a de Bin Laden.
Mortos, viverão para sempre na fantasia das utopias. E serão redesenhados e reconfigurados, cultuados. Nas camisetas e nas bandeiras, nas máscaras de carnavais, nos posters e fotografias penduradas nas paredes das casas dos humanos comuns que, no entanto, não os acompanharam, nem acompanhariam. Símbolos e mártires de um mundo de Justiça e de Felicidade, de Harmonia e de Paz, inalcançável, mas sempre imaginado e anelado por sucessivas gerações, da antiguidade aos dias atuais e futuros.
Che Guevara e Bin Laden eram homens de pétreas convicções. Tentaram, cada um a seu modo, curvar o mundo a seus desejos. Antes santos, porque transcendiam os limites de seus tempos e lugares, ao contrário dos politicos, submissos às pressões das circunstâncias, condicionados por elas, sempre às voltas com cálculos mesquinhos e lamentáveis, humanos.
Foi exatamente por falarem através de ações – armadas – é que os dois guerreiros tanto se distanciaram da democracia, território da palavra, da disputa contraditória, assumida e reconhecida, da alternância legalizada, da desconfiança organizada, do espaço próprio da política porque a guerra, ao contrário da fórmula lapidar e do senso comum, não é a continuação da política por outros meios, mas a sua mais clara negação.
Os dois guerreiros eram partidários de enfrentamentos heróicos, épicos, catastróficos. A democracia é a terra da negociação permanente, inglória, construtiva. Eles eram singulares, poéticos, quase perfeitos, enquanto a democracia é plural, prosaica, a confissão mesma da fraqueza e da imperfeição humanas.
Que os guerreiros descansem na paz que só a morte recupera.
Quanto à democracia, não carece de guerreiros nem de heróis.
Daniel Aarão Reis
Professor de História da UFF
Email: aaraoreis.daniel@gmail.com

