GIRO DO HORIZONTE – ESTADO PALESTINIANO – por Pedro de Pezarat Correia

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A última investida militar de Israel em Gaza, no verão passado e a ampla cobertura mediática internacional do conflito, da sua desproporção, da tragédia a que o povo palestino está sujeito no exíguo enclave, a agressão permanente, o cerco, a chantagem, o boicote, as carências de todos os bens vitais, o cinismo de alguns vizinhos árabes como o Egito e a Jordânia, foi demolidora para a imagem do governo israelita no mundo. Particularmente no Ocidente, onde tem contado com os apoios mais fiéis e onde só Washington teima em manter um apoio incondicional. Na Europa e mesmo na União Europeia (UE) a cumplicidade com Israel começa a ser intolerável e contestada.

A Autoridade Palestiniana (AP) há muito que vem conduzindo uma pressão política e diplomática no sentido de ver reconhecido pela ONU o Estado Palestiniano (EP) nas fronteiras de 1967. Aliás, a agressão de Israel do verão passado também tem, no fundo, a ver com isso. Na UE apenas 8 Estados já reconheceram o EP, mas são considerados atores secundários, 6 do leste europeu, Malta e Chipre. A grande pedrada no charco foi dada pelo governo sueco que em 30 de outubro declarou o reconhecimento formal. Neste momento 136 dos 193 países da ONU já o reconheceram. Entretanto os parlamentos britânico, espanhol, irlandês e francês, este no passado dia 2 de Dezembro pela expressiva maioria de 339 votos contra 151, aprovaram recomendações aos respetivos governos no mesmo sentido. Portugal ensaia os mesmos passos. A UE terá, incontornavelmente, de se decidir sobre esta questão e a senhora Frederica Mogherini, que tem a seu cargo as altas responsabilidades da política externa na Comissão Europeia, já se comprometeu expressamente com a existência de um EP, considerando-o como uma prioridade para a UE.

Israel está a tentar, em desespero, bloquear esta dinâmica até porque sabe que, com um EP de pleno direito na ONU, terá de se confrontar em permanência com as denúncias contra si de ocupante de um Estado membro, contra resoluções da própria ONU. Para os EUA o seu apoio isolado à política israelitatornar-se-á cada vez mais incómoda.

Avraham Burg, personalidade israelita destacada, que foi presidente do Kenesset (parlamento israelita) entre 1999 e 2003, e presidiu também à Agência Judaica e à Organização Sionista Mundial publicou, no Le Monde de 11 de Novembro, um artigo notável com o título “Mahmoud Abbas est l’un des derniers partisans de la paix de la région”, no qual denuncia a política cada vez mais conservadora do governo do seu país face à Palestina, a fraude das negociações de paz dos Acordos de Oslo de 1993 uma vez que Israel apenas pretende ganhar tempo enquanto vai alastrando a ocupação e os colonatos colocando o mundo perante o facto consumado. E denuncia que «Israel continua a vangloriar-se de ser ‘a única democracia no Médio Oriente’ mas, de facto, é um Estado que engloba dois povos, um oprimido, outro privilegiado». Faz o elogio de Mahmoud Abbas e da sua batalha pela criação do EP que considera a única solução «[…] para conseguir a paz e garantir a israelitas e palestinianos a sua liberdade, segurança e dignidade».

Esta campanha internacional pode obrigar Israel, isolado, a remeter-se a uma defensiva no plano político. Mas quem acompanha a evolução dos conflitos no Médio Oriente sabe que Israel tende a criar pretextos que justifiquem uma resposta agressiva de natureza militar desde que conte com o apoio norte-americano. O anúncio da intenção de declarar Israel um Estado judaico, de facto a assunção como um regime de apartheid e uma provocação à comunidade árabe, não vai ser pacífica. Por outro lado uma agressão ao Irão a propósito do nuclear, quando as negociações ainda decorrem, seria demasiado óbvia. E a cooperação real ainda que camuflada, entre Teerão e Washington na contenção do Estado Islâmico, também não favorecem os falcões israelitas.

Algo parece estar a mudar na Palestina, ténue compensação para a resistência heroica do seu povo.

8 de Dezembro de 1014

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