Carta do Rio – 28 – por Rachel Gutiérrez

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 Notícias sobre moças em cujos corpos foram injetadas substâncias tóxicas para aumentar-lhes o volume das coxas ou dos glúteos dão muito o que pensar. Uma delas perdeu a locomoção de uma das pernas, na qual foi preciso implantar uma prótese com um mecanismo especial que passou a ajudá-la a caminhar. Arrependida e chorosa, a jovem declarou, numa entrevista à TV, ter compreendido, depois de muito sofrimento, que “a beleza não era assim tão importante”. Outra vítima dessa obsessão com a aparência, que teve os glúteos aumentados, permanece internada há mais de seis meses e já passou por quase quarenta cirurgias na tentativa, até agora vã, de combater a infecção que a imobiliza, de bruços, deitada numa cama de hospital. Mas o caso mais alarmante é o da modelo que ficou conhecida como Miss Bumbum, que havia colocado silicone nos seios, nos glúteos e na região genital, e que há cinco anos se fez injetar 400 ml de hidrogel, para “esculpir” as coxas e agora enfrenta uma infecção, gravíssima, que pode se generalizar e até matá-la.

Qual é a ética médica que permite tais procedimentos?

E que critério de beleza é esse que leva mulheres incautas a se autoagredirem em busca de uma forma supostamente ideal que não raro as deforma e mutila? Algumas plásticas de rosto já são tão exageradas que chegam a dar ao semblante um aspecto simiesco, como era o caso de uma certa duquesa espanhola; e além de uma apresentadora de TV, do Paraná, que se transformou num verdadeiro monstro, uma outra, da Coréia do Sul, quis mudar o maxilar e ficou totalmente desfigurada. Esses horrores não acontecem apenas no Brasil, mas isso não consola ninguém.

Que tipo de valor nossa cultura atribui às mulheres e que valor elas mesmas se atribuem?

 Em seu artigo publicado no jornal O Globo, no sábado, dia 6, Rosiska Darcy de Oliveira, escritora feminista e membro da Academia Brasileira de Letras, abordou um relatório do Ministério da Saúde, segundo o qual as mulheres estão tendo menos filhos e mais tarde. E como Riane Eisler, que já citei várias vezes aqui, Rosiska menciona o cuidado das mulheres com crianças e idosos, fato que os governos parecem ignorar porque “a vida privada é ocultada como problema, descartada em seu valor social” e “tudo isso é herança da invisibilidade das mulheres”. A acadêmica ainda afirma que no mundo do trabalho, “as mulheres são bem-vindas com a condição que não queiram os mesmos salários dos homens, de preferência não engravidem…” e façam como os homens – que não engravidam – isto é: “deleguem às suas esposas e companheiras seus problemas familiares.” Porém, “como são elas mesmas as esposas e companheiras, o que se lhes pede é a quadratura do círculo.”

Ora, existe essa invisibilidade das mulheres que trabalham e não são reconhecidas, apesar de frequentemente superarem os homens em escolaridade, como se sabe. Será, então, que a exacerbada visibilidade das vedetes, modelos, pseudoestrelas e pseudocelebridades, que se esforçam tanto em esculpir os corpos, para que os holofotes não as percam de vista, é uma denúncia inconsciente, uma crítica subliminar e uma triste compensação pelo desprezo político e social que a maioria das mulheres sofre?

Em 1985, escrevi em O Feminismo é um Humanismo, que “quando homens e mulheres dividirem, sem tabus nem preconceitos, as tarefas domésticas e o cuidado com as crianças, quando a sexualidade puder ser encarada, por ambos os sexos, como fonte de prazer, forma de comunicação e expressão de alegria, quando homens e mulheres tiverem as mesmas oportunidades de assumir empregos de acordo com seus méritos pessoais, quando o controle da produção e o governo dos Estados estiverem nas mãos do mesmo número de homens e mulheres“… etc, etc. “ a vida privada e a vida pública (teria) sido radicalmente transformada.”

Eu não podia imaginar, naqueles idos do século passado, que a força alienante do capitalismo consumista fosse tão deletéria e que duvidosos critérios de beleza e sedução fossem capazes de convencer tantas mulheres a se transformarem em meros objetos de equivocados desejos.

Portanto, acrescento agora: quando o real valor das mulheres for reconhecido e as que hoje se arriscam em nome de uma suposta forma perfeita compreenderem que a vida pode lhes oferecer mais do que, em última análise, só as reifica e aliena, acredito que todos se beneficiarão. E homens e mulheres poderão inventar, enfim, quem sabe, uma autêntica parceria.

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