Rodeado de “inimigos” como os madeirenses de água, o português desconfia de tudo e de todos, dilacerado por insaciáveis perseguidores que cobiçam o seu “belo” País, a sua honra, as suas liberdades fundamentais, os seus direitos democráticos, a sua carteira…e a sua mulher!
Como é fácil de perceber, o português mantém-se constantemente de atalaia, tal um ancestral alcaide num velho castelo de fronteira e, por conseguinte, desconfia de todos os movimentos e de todas as pessoas estranhas à rotina da sua arruinada fortaleza.
O português nasce desconfiado, cresce desconfiado, caminha na vida desconfiado e, na maioria das vezes, morre desconfiado. Mas de quem desconfia o português? – O genuíno, o tradicional, o pitoresco português desconfia d’eles!
Mas quem são eles?
Não há melhor que uma carruagem de um comboio (Évora-Lisboa/Gare do Oriente), num fim-de-tarde frio, invernoso, para vermos surgir aos nossos olhos a “Hidra” malvada, eles!
É claro, eu já sabia de há muito da existência maquiavélica dos eles, porém, desta vez, ao viajar inadvertidamente no comboio da CP para Lisboa, fiquei definitivamente elucidado sobre a vida real, negativa e anti-portuguesa dos eles!
O “monstro” parecia ter mergulhado numa hibernação sazonal quando, no fim-de-tarde daquele dia cinzento e gélido, a energia eléctrica falhou por instantes nas carruagens do comboio. «Eles podiam ao menos passar em revista as carruagens, a ver se estava tudo ligado, antes de as atrelarem umas às outras.». – Resmungou anafada burguesa, carregada de ouro ao pescoço e de ourivesaria dependurada nas orelhas.
Até ali taciturnos, entregues aos seus íntimos pensamentos ou entretidos a ler o jornal do dia, destacaram-se cinco portugueses do conjunto de passageiros da carruagem, como se estivessem à espera de um sinal de alarme, mais precisamente do alerta para iniciarem o velho “jogo”, tal e qual o futebol!
O eles, transformado em esférico, lançado pela burguesa doirada de ourivesaria, foi interceptado no seu voo e apanhado pelo “ponta direita”, passageiro de triplo queixo e riso sarcástico, muito senhor de si, todo empertigado no seu fato de referenciada marca: «Está senhora bem servida! Eles importam-se lá com os passageiros! O que lhes interessa são as taxas. Os aumentos constantes no preço dos bilhetes…».
Entrando no jogo, outro passageiro: «A começar pela mentira da velocidade, que eles diziam ter aumentado…». Outro passageiro: «Com certeza…». Ainda mais outro passageiro: «Desde que a gente pague! Eles estão-se nas tintas para o resto!…».
Entretanto, o “jogo”, perdão, o diálogo, tinha-se alargado, tornando-se cada vez mais violento. O eles era atirado de um para outro lado, de cima para baixo, contra isto e aquilo, sem respeito por qualquer regra. Uma velha repulsa pelo jogo de futebol, adormecida na minha remota infância, fazia-me desinteressado observador, sem pena alguma de não “entrar em campo”, reduzido assim a árbitro mudo, marcando em silêncio os pontos a favor d’eles e os pontos contra os passageiros.
«Se houvesse um governo a sério…». Logo respondeu outro passageiro: «Governo há, mas é como se não houvesse! Não vê que são eles que vão sempre para lá!». Um jovem que até ali se mantivera sem “jogar”, isto é, sem falar, adiantou uma conclusão que parecia de um velho amante da ditadura: «O que nós necessitamos é de um governo que mande!». Resposta do homem do queixo triplo e riso sarcástico: «A quem o diz! Um homem de pulso é que era preciso!». Intervenção súbita da burguesa carregada de ourivesaria: «Que desse uma boa vassourada em todos eles!». Uma passageira de rosto oval e olhar casadoiro: «Até isso acontecer eles vão-se rindo da gente!». Outro cavalheiro, espécimen “gestor executivo”, esgrimindo um computador portátil: «Eles só pensam no tacho! Em encher as algibeiras!». Por fim o passageiro jovem, provavelmente julgando concluir a “jogada”, arrematou: «Eles acabam por dar com o País em pantanas!».
Por um acaso e numa viagem de comboio Évora-Lisboa, desta forma inesperada, desvendei a identidade da “Hidra” que faz um trágico e doloroso assédio ao português. Pensar eu que andam ilustres sociólogos e historiadores há séculos procurando a identificação das causas que fazem do português um ser humano desconfiado… Enfim, uma curtíssima palavra do nosso vocabulário mais vulgar, veio revelar-me a secreta identidade deste inimigo mortal, deste assaltante material e espiritual do português: – Eles!
Chorando todos os desvarios de olhos postos no Deus benigno dos avós dos seus avós, soterrado pela desconfiança, falho na “sorte” e senhor apenas dos caminhos da vida, ora arrogante ora humilde, o português está sempre em guarda, de atalaia, mas apesar de tudo isso, nenhum europeu como o português sofre a sina de andar sempre a ser enganado por …Eles!

