Os piores canibais do planeta Terra são os animais racionais. Enquanto continuarmos a não querer passar de animais racionais a seres humanos vasos comunicantes e reciprocidade de afectos, acabamos apanhados pelo vírus do poder, nós próprios, poder, cujos apetites, sonhos, projectos, são insaciáveis. Nada, ninguém, nos detém. Acabamos a odiar furiosamente a vida, os seres vivos, os outros como nós, as mulheres, os úteros das mulheres, o amor nupcial, os berços, as filhas, os filhos. Devoramos tudo e todos, num festim sadomasoquista sem fim, até que o planeta Terra imploda de vez e deixe de ter vida, de que espécie for. E não digamos que semelhante apocalipse está a milhares de anos de se tornar realidade. Pensarmos/dizermos assim, é enterrar a cabeça na areia, para não vermos. Mas então já nem animais racionais somos. Somos os mais perversos dos seres vivos. Os mais canibais. E se, depois de tudo, ainda insistimos em entregar aos agentes do poder, a condução política das nossas vidas, então o terrível apocalipse pode acontecer ainda no decurso deste século XXI. Negar esta possibilidade, é negar o que está aí hoje à frente dos olhos de toda a gente que queira ver. Só que até a capacidade de ver, de querer ver o que está à frente dos olhos de toda a gente, já nos roubaram. Uma razão mais, e de peso, para não termos dúvidas de que esse terrível apocalipse está próximo. Não se trata de pessimismo. A verdade objectiva nunca é pessimista. É libertadora, por isso, grávida de esperança antropológica-teológica, a mesma de Jesus Nazaré. Só a verdade praticada nos faz humanos. Humanos sororais, vasos comunicantes, por isso, livres, criadores, alegres, saudáveis, felizes. Tudo coisas que nós, como animais racionais sem afectos, mais odiamos, perseguimos, atacamos, impossibilitamos que aconteça. Fôssemos animais racionais, pelo menos, ao modo dos injustamente chamados, “animais ferozes”, que atacam, matam de acordo com o seu adn, para se alimentarem, sobreviverem, nunca para acumularem/concentrarem em algumas poucas mãos, e também para manterem equilibrado o ecosistema, e saberíamos proteger-nos/ acautelar-nos. Mas não. Somos muito mais ferozes, demolidores, destruidores, por isso, os mais perversos dos animais. Recusamos passar a seres humanos, porque depressa nos demos conta de que, assim, poderíamos ser o que já estamos hoje a ser, ao nível global. Sem que ninguém nos saia ao caminho, nos desarme, amarre, impeça de prosseguirmos com os nossos crimes de lesa-humanidade, de lesa-ecosistema global. O horror dos horrores! Basta mascarar-nos, nesta época do ano, de presépios e de pais natais, e logo nos são abertas todas as portas, as que dão acesso ao poder e seus privilégios, e, muito pior que isso, as que dão acesso às nossas próprias mentes/ consciências que assim ficam formatadas, tolhidas, paradas, coisificadas. Contam-se pelos dedos das mãos, as, os que hoje resistimos ao Mercado global e, mesmo essas poucas, esses poucos, vêem-se reiteradamente ridicularizados/ humilhados/ostracizados por todos os outros. Porque, de quem a esmagadora maioria de nós gosta, melhor, somos levados/obrigados a gostar, é das elites dos privilégios que estão por trás dos presépios e dos pais natais, com os quais habilmente escondem de todos nós, povos da Terra, Aquilo que nos pode matar, e mata mesmo, a alma/identidade, a mente/consciência. Tudo começou com a furiosa destruição do natal do Solstício de inverno, uma operação da responsabilidade do Cristianismo católico romano e protestante. O seu Cristo todo-poderoso, proclamado Sol Invictus = Sol invencível, pela igreja cristã imperial, derruba, destrói, odeia, mata o natal do Solstício de inverno, tal como derruba, destrói, odeia, mata o Solstício de verão, substituído pelas festividades dos chamados “santos populares” do cristianismo. Há séculos que o natal do Solstício de inverno é substituído pelo natal-do-menino-jesus, a que, no século XII, Francisco de Assis juntou o presépio, numa completa deturpação das narrativas antropológicas-teológicas dos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus e do Evangelho de Lucas. Hoje, este natal-do-menino-jesus, com o respectivo presépio, quase desapareceu – o que resta é mero folclore, coisa de museu – comido que foi pelo natal do Deus Dinheiro, o Cristo laico financeiro, que já é global. Tudo é Mercado, mercadoria. Até o presépio do menino-jesus e o próprio menino-jesus, substituídos, respectivamente, por árvores de natal e por pançudos pais natais, carregados de prendas, qual delas, a mais cara, a mais vaidosa, devoradoras da alma/identidade de quantas, quantos de nós nos deixamos guiar/arrastar pela maldita Publicidade. Ou acordamos e passamos, sem mais adiamentos, de animais racionais, os mais canibais dos animais, a seres humanos sororais, vasos comunicantes, reciprocidade maiêutica, ou simplesmente, despareceremos como natureza consciente, até agora, o cume a que chegou a Evolução, dinamizada/ conduzida pela Ruah/Sopro maiêutico, a mesma que está na fecundação de Jesus e de cada ser humano que o queira ser de dentro para fora, em plenitude. Cabe-nos a palavra, a decisão. Digamo-la/pratiquemo-la! Sem deixar para amanhã.