Apesar de ciente da teia de poderes dos diversos “caucus” que condicionam a ação de um presidente norte-americano que queira remar contra a pretensa identidade nacional ainda predominantemente WASP (white, anglo-saxon, protestant), não escondi publicamente a esperança que alimentei com a eleição de Barack Obama. E, se bem que timidamente e sem grandes consequências materiais, foi dando sinais que me conferiram algum conforto com aquela confiança.
Posteriormente sofri, como muitos outros, alguns golpes rudes na minha esperança e deles fui dando conta em algumas intervenções nesta página. Em geral centravam-se na política de Washington no Médio Oriente e no Golfo Pérsico e na minha perceção clara da sujeição da Casa Branca ao lobby judaico.
Chega a altura de, sem negar nada das minhas reservas anteriores, me regozijar com uma boa notícia vinda da outra margem do Atlântico. Refiro-me à decisão, que alguns justamente classificam de histórica – histórica porque a História a registará –, de romper com a política de isolamento de Cuba, que dura há quase cinco décadas e meia e é a última e anacrónica herança da guerra-fria, dando lugar a uma política de reaproximação mútua. Merecem aplausos os dois presidentes, Barack Obama e Raúl Castro, porque ambos certamente fizeram cedências e, segundo consta, o Papa Francisco que terá desenvolvido uma eficaz ação diplomática de intermediação. Para já é um primeiro sinal de que terá valido a pena a aposta num primeiro papa não-europeu e, ainda por cima, latino-americano.
Os efeitos práticos não serão, para já de grande vulto. As medidas mais importantes que se impõem e mudariam, de facto, o statu quo, estabelecimento de relações diplomáticas, abertura de embaixadas e consulados, fim ao embargo económico, dependerão do Congresso, nomeadamente da Câmara de Representantes, onde os republicanos, hostis a esta abertura, reforçaram a sua maioria e não tencionam facilitar a vida ao presidente. John Boehner, líder da maioria republicana no Congresso, já declarou a oposição ao fim do embargo. Justificam-se as críticas ao presidente por não ter tomado esta decisão enquanto dispunha de maioria no Senado logo de maior margem de manobra e as suspeitas de que se satisfaz em deixar a imagem de que queria mas não o deixaram.
De qualquer forma já há benefícios concretos, no clima geral de desanuviamento, na perspetiva de dias melhores para os cubanos, no fluxo de pessoas e bens entre os dois países, na libertação de presos por ambas as partes. Obama vai colher vantagens nas suas relações com os restantes países da América Latina que, na sua quase totalidade, exigiam o fim do ostracismo de Cuba. Em contrapartida nos EUA nunca lhe perdoarão aqueles que jamais se conformaram com a perda de regalias e privilégios na estância de férias cubana. Quem teve a oportunidade de ver o filme “O Padrinho”, não esquecerá a célebre cena em que os milionários norte-americanos festejavam a passagem do ano de 19959-1960 num hotel de luxo em Havana e, alheados da realidade quando os “barbudos guerrilheiros” já entravam na capital, ainda repartiam as fatias do bolo com o mapa de Cuba que acabavam de esquartejar a seu gosto.
Há ainda uma nota curiosa. No seu discurso Obama confessava que a política dos EUA em relação a Cuba, nos últimos 50 anos, falhara. Dias antes, quando a senadora democrata Dianne Feinstein apresentou o “Estudo do Programa de Detenção e Interrogatórios da CIA”, além de revelar a condenação dos métodos utilizados na guerra contra o terrorismo, denunciou o seu falhanço face aos objetivos de segurança. Têm sido também frequentes as denúncias e reconhecimentos do falhanço da guerra de agressão ao Iraque em 2003. Isto é, estamos perante uma confissão do fracasso sistemático, reiterado, das grandes opções estratégicas dos EUA enquanto hiperpotência liderante do mundo globalizado. Não é tranquilizador.
Muitos têm denunciado estes fracassos e os efeitos perversos que deles têm resultado para a paz, o relacionamento internacional e a segurança mundial.
Lamentavelmente à maioria dos governos do mundo ocidental, onde mais acrítica e reverentemente se seguem as opções de Washington, tem escasseado coragem e lucidez para ousarem recusar o seguidismo às políticas desastrosas que têm arrastado o mundo para o caos em que nos vemos mergulhados.
22 de Dezembro de 2014

