Ou temos uma estratégia ou fazemos parte da estratégia de outros.(AlvinToffler)
Vista por este ponto, Portugal vive uma situação sui generis. Passos Coelho e o seu governo abdicaram de ter uma estratégia para o país. Decidiram fazer parte da estratégia daquilo a que se convencionou chamar a Troika, no fundo a estratégia da Alemanha com fundos comuns, uns europeus e outros mundiais. A originalidade da nossa situação assenta no facto de que, à medida que o tempo passa e mais elementos para análise dispomos, mais fica claro que a Alemanha também não tem estratégia. Menos ainda a hidra de 26 cabeças que se designa por União Europeia. Vivemos em Portugal como uma formiga em cima de uma rolha, que está num alguidar com água, que, por sua vez, anda à deriva num lago. Ou, noutra imagem, somos como uma abelha perdida dentro de uma garrafa perdida.
As vendas em saldos de liquidação dos principais ativos portugueses – EDP, Portugal Telecom, Aeroportos, BES, BESI, CIMPOR, OGMA, TAP, Estradas de Portugal – revelam que o governo português não tem qualquer estratégia de desenvolvimento para Portugal. Vende a quem der mais e aparecer à porta do estanco. Atua como os netos estroinas que despacham as propriedades da família para estoirarem na boa vida. Para o governo e para o presidente da República a ruína é uma estratégia de sucesso!
Habitualmente, quando uma geração começa a desbaratar os bens de raiz, surgem vizinhos, antigos amigos e inimigos, competidores, que aproveitam a ocasião para promoverem uma estratégia de fortalecimento à custa da ruína alheia. É uma estratégia natural de horror ao vazio. A actual Europa não se rege por este princípio da natureza.
Seria normal que, pertencendo Portugal à União Europeia, esta aproveitasse o desbarato das empresas portuguesas numa estratégia de reforço das suas. A Europa não ficaria mais pobre com a venda das empresas portuguesas e até podia ficar mais forte, se a sua integração noutras as potenciasse. Se assim acontecesse, teríamos uma prova da existência de uma estratégia europeia. A EDP poderia reforçar uma das grandes eléctricas europeias, a alemã, ou a francesa, por exemplo. Mas não, por falta de uma estratégia da Europa, foi integrada na estratégia da China. A PT podia integrar uma grande telefónica europeia, já que por trapalhadas várias falhou o projecto de uma telefónica da lusofonia. Mas não, foi parar como restos de colecção a uma brasileira e a um fundo abutre francês. A CIMPOR é brasileira. Uma parte do BES foi para um fundo estratégico da China e segundo o mexeriqueiro governamental, Marques Mendes, o BES, ou o que se espremeu dele, irá também para a China, em vez de integrar o sistema bancário europeu. As OGMA, se existisse uma estratégia europeia para a indústria aeronáutica, podiam ter integrado directamente um consórcio europeu, a EADS, por exemplo, mas fê-lo, seguindo a genialidade política de Portas, através dos brasileiros da EMBRAER. E a Europa olha para o lado e vê o Portas abanar-se de vaidade de vendedora dos últimos pechisbeques na tenda. A ANA, já que os aeroportos eram para este governo umas faixas alcatroadas com uns barracões por onde passam aviões e gentes com malas, deveria integrar uma estratégia europeia de gestão de aeroportos, aliando-se a um dos grandes gestores europeus, os aeroportos de França (Paris) da Alemanha (Francforte) ou ingleses (Londres). Mas não, quem ficou com o bolo foi uma construtora de estradas e parques de estacionamento, por acaso francesa, mas que nada tem a ver com este negócio! Também nenhum estaleiro de construção naval europeu deitou a mão aos estaleiros de Viana.
A estratégia da Europa é a do Estado fora dos negócios. Todo o poder aos agiotas. Por acaso, nos outros grandes espaços, nos EUA, na China, na Rússia, na Índia, não é assim. Desenvolvem uma estratégia que integra as empresas. A indústria aeroespacial americana, chinesa, indiana é estatal, com as suas ramificações nas indústrias das tecnologias da informação, por exemplo. Nos EUA, o berço do neoliberalismo, as indústrias militares dependentes do Estado envolvem empresas tão aparentemente privadas como a Ford, a Boeing, a Bell, a Lockheed, a Marconi, a Rolls Royce, as petrolíferas, as químicas, entre tantas outras.
Ter uma estratégia é, para os Estados, conjugar e potenciar todos os recursos naturais, industriais e humanos para garantir a soberania indispensável à segurança e ao bem-estar dos seus povos. Para o governo português, a estratégia é desfazer-se dos seus motores económicos para colocar o seu povo a pagar uma dívida tanto mais impagável quanto menos condições para produzir riqueza tiver. É a tática do ciclista que vende os pedais de uma bicicleta e espera mesmo assim chegar à longínqua meta no cume da montanha, batendo com os pés no chão. Quanto à Europa, a única estratégia perceptível é a do embezerramento da Alemanha, agarrada ao saco onde tem os marcos, confiante na ilusão de que continuará a fazer sempre e para sempre melhores máquinas do que todos os outros e por isso as venderá sempre. Como se o mundo tivesse parado à sua voz.
Por fim, ter uma estratégia é ter uma ideia do que pretendemos e força para o conseguir. A Europa não tem nem uma coisa nem outra. Os outros seus competidores têm.
Só uma pergunta: qual a estratégia da Europa nesta guerra dos preços do petróleo?

