CONTOS&CRÓNICAS – O homem do Farol – por Joaquim Palminha Silva

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Este texto não é propriamente um conto, mas o relatório da despedida de uma vida ligada ao mar… Aos 14 anos, moço de cabina num navio da marinha mercante (carreira de África). Depois, aos 16 anos, grumete. Marinheiro de 2ª classe aos 20 e aos 23 de 1ª classe. Com bom aproveitamento dos tempos livres, dos dias ou semanas de paragem nos portos, enquanto uma parte da tripulação percorria as tabernas da beira-mar aos tropeções às bebedeiras, outra tratava de negociar todo o tipo de mercadorias para um contrabando rentável no regresso, com o auxílio da solidão mas sem compreensão dos companheiros de trabalho, aprendi matemática, ciências, navegação, literatura, história e línguas (espanhol, francês e inglês). Naturalmente, sempre que o tempo de atracação do navio permitia, pagava algumas explicações neste e naquele porto e, logo que chegado a Lisboa, lá ia apresentar-me a exame numa escola pública. Um dia respondi a um anúncio para faroleiro. Fizeram-me um exame cuidadoso. Passei todas as provas. Deram-me o lugar: o Farol que se vê, depois de passar o Cabo…

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           Há muitos anos que trabalho e vivo neste Farol, “plantado” nos rochedos isolados a sul, desafiando as ondas e os temporais. No início ainda ia a terra e frequentava os serviços públicos e privados da vila de pescadores. Depois, com o rodar do tempo, as gentes da terra com a sua coscuvilhice bacoca, despeitados por nada saberem da minha vida, desataram a inventarem a meu favor uma história de vida trágica e, assim iam tentando cruzar os umbrais da minha existência, imaginando que vim para este trabalho solitário do Farol para fugir de terrível pecado e, com assento nestas fantasias imbecis e impiamente crédulas, conseguiram afinal de contas obrigar-me ao afastamento do convívio humano.

De resto, fui severamente penalizado pelas circunstâncias. Em toda a minha vida nunca conheci, sob qualquer das suas modalidades, a ternura de uma família e, sendo órfão ainda criança, nem de meus pais tenho mais do que enevoadas recordações.

Devo dizer que as gentes da vila, almas grosseiras e balouçando fantasmas, fazendo da religião uma coisa desordenada e violenta como as tempestades, resolverem demonstrar-me quanto me detestavam, à medida que cresciam os significados das histórias mentirosas que contavam a meu respeito… Nesta ordem de ideias, a marginalização de que fui alvo iniciou um percurso irreversível: – Eu próprio acabei por decidir reduzir ao máximo toda a espécie de convívio com semelhante gente.

Com o passar dos anos, excepção para a entidade patronal que me enviava todos os meses o cheque bancário com o salário, a minha existência de faroleiro, a minha barba branca, as minhas camisolas de espessa lã e gola alta, as minhas calças de veludo azul e as minhas resistentes botas, fizeram da minha pessoa uma “lenda” viva de não sei quantos disparates, de um sem número de absurdas e salgadas histórias… E a aversão à minha pessoa, fundamentada em nada, ganhou raízes, cresceu como um tornado, pelo que o mover de fantasmas em meu redor tornou-se uma “realidade” para todos, menos para mim.

Detestarem o faroleiro e demonstrarem-lhe isso mesmo, dia após dia, deve ter sido um passatempo local, entre excessos de cerveja, alguma violência doméstica ou de praça pública, tudo pontuado pelos casamentos, baptizados, enterros e uma ou outra cerimónia comunitária que, por curiosidade, eu fui observando do cimo do Farol.

Deixei, portanto, de descer à vila e, através do telefone, comecei a encomendar e a adquirir os víveres e outras coisas de que ia necessitando… Em dias de mar calmo, um empregado do armazém de mercearias deixava encaixotadas as minhas compras sobre os rochedos, mesmo nos primeiros degraus da escada talhada na pedra, que conduz à base do Farol…

A escassa vida social da população da vila (pobres pescadores e dois ou três armadores mais abastados) bastou-me para entender a natureza bárbara do mundo, e dos seus engenheiros de ilusões sociais e culturais. Devo dizer que entrei para o serviço do Farol (após um rápido curso) aos 24 anos de idade, directamente vindo do mar e de um navio da marinha mercante. Dir-se-á que o meu mundo é a rocha calva e escorregadia donde se ergue o Farol, o ímpeto das águas em dias de tempestade, escumando, enrolando-se e procurando despedaçar esta construção… Mas quem assim pensar engana-se redondamente, pois percebi que não há nada de novo na natureza humana, para lá do que existe concentrado, resumido, sintetizado nas gentes da vila e, por isso, dediquei a minha vida a outras ideias…

O meu celibato de faroleiro foi preenchido por uma certa classe de leituras. Acumulei argumentos sobre a maldade do mundo, mas como sou fraco orador e, como já disse, não completei a minha vida a conviver com as gentes da vila, encontrei na existência humana uma passagem melancólica, espécie de antecâmara experimental de cada um que, creio piamente, só será desactivada após a morte. Seguindo esta ideia, os meus deleites intelectuais foram sempre o prelúdio do tédio, e o meu único objectivo de vida, o meu efectivo entusiasmo, foi salvar barcos, tripulantes e passageiros dos escolhos à flor da água. Devo ter salvado (talvez) milhares de embarcações e seres humanos de uma morte horrível, zelando pelo bom funcionamento do apaga-acende das luzes do Farol!

Suponde todos os contentamentos, todas as consolações e sentimentos que a vida pode gerar para os outros e para vós mesmos, e achareis que umas e outros não suprem, apesar da minha solidão sentimental, a máxima energia e intensidade do que existe de bom e útil na minha vida de faroleiro. Acredito que por um acaso (creio que Deus trabalha também com os acasos!) foi-me dado ser o intermediário entre o mar, a terra e o Céu… Creio mesmo que Deus, considerando a minha marginalidade face à imunda e extrema depravação moral da vila (do mundo), me entregou uma tarefa terrena com algo de conteúdo angelical, apesar da terrível solidão desta profissão. Isto é, fez de mim uma variante marítima do «anjo da guarda», seguramente dada a minha experiência e anos de trabalho em muitos navios, e tendo navegado em todos os oceanos da Terra.

Hoje, mais solitário que nunca, velho, gasto e já doente, depois do esplêndido exercício de décadas e décadas de faroleiro, tive de comunicar para terra, para o meu empregador, a estranha paralisia que me vai prendendo os movimentos, de forma a ser substituído rápido nesta tarefa de todos os dias e todas as horas, sem prejuízo para a navegação, pois sei que posso estar a chegar ao fim.

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