CONTOS & CRÓNICAS – Uma mulher entre dois brincos” – por Marcos Cruz

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Um dos romances da minha vida é A Casa e o Mundo, de Rabindranath Tagore. Encontrei-o por artes mágicas num alfarrabista da Rua das Flores, que não o Chaminé da Mota, quando passeava pela cidade, recém-desempregado, há coisa de seis anos. Mal abri a porta, logo ele me lançou um sorriso íntimo, do alto de um monte de livros, com a sua capa desenhada em tons serenos. Era uma edição de 1941, da Inquérito, no âmbito de uma colecção chamada “Os melhores romances dos melhores romancistas”. A letras moderadas, longe da histeria promocional que não respeita a qualidade objectual dos livros, vinha a informação de que Tagore havia recebido o Nobel da Literatura em 1913. Peguei nele, observei-o, tacteei as folhas amarelecidas pelo tempo e não tive dúvidas em trazê-lo comigo. À noite, na cama, comecei a lê-lo. E, embora o início não me tenha sido fácil, talvez pela opção estrutural do autor de conceder alternadamente a narração a cada uma das três personagens principais, cedo me apercebi de que tinha em mãos uma obra-prima. Da literatura, claro, mas mais ainda. As palavras brilhavam como pérolas ante o meu olhar estupefacto, encadeando-se em ideias, descrições, diálogos e fluxos narrativos que, por um lado, pareciam anéis, colares, alfinetes e pulseiras da melhor e mais filigranada joalharia e, por outro, constelações de estrelas nunca antes reveladas. Passo a passo, a geometria emocional do romance definia-se, com o frágil coração feminino de Bimala ao centro, oscilando entre a virtude personificada em Nikkil e a tentação representada por Sandip. Um pouco como Sommerset Maugham denota, no inesquecível O Fio da navalha, um conhecimento igualmente profundo da sociedade burguesa e aristocrata de entre as duas guerras e das correntes espiritualistas que então chegavam do Oriente aos ouvidos mais atentos e sensíveis da América, da França ou da Inglaterra, com insuperável eloquência Tagore desenha e percorre os domínios da terra e do céu, do desejo e da gratidão, da sede de poder e da bondade pura, para nos desvendar a vulnerabilidade de uma alma incapaz de escolher entre uma coisa e outra – a casa e o mundo – e impor a si mesma um rumo firme. Onde em Maugham há uma prevalência conjuntural no contexto narrativo, com a Grande Depressão em pano de fundo, em Tagore os pilares do romance são mais arquetípicos, embora enraizados numa Índia de cuja identidade cultural ele era, segundo Gandhi, “a Sentinela”. Talvez por isso o alcance de A Casa e o Mundo resista melhor ao tempo, não tanto como romance tout court mas enquanto ringue lírico das coordenadas do bem e do mal, poeticamente exortadas a sair do seu estatismo conceptual para se digladiarem no palco complexo das relações humanas. E daí que, chegado a qualquer fim-de-ano, face a listas, tops e macaquices afins sem grande serventia, eu me lembre deste tesouro literário semiescondido, uma das poucas obras a que aplicaria sem hesitações o rótulo de essencial. Desta vez, porém, o móbil da recordação não foi o calendário, e sim um filme que acabo de ver, intitulado Que mais quero eu. Com realização do italiano Silvio Soldini, leva-nos para o fulcro das incertezas e angústias de uma mulher (Anna / Alba Rohrwacher) que vê o seu plano de vida furado pela ausência de paixão e se vê tentada a furar pela efervescência da paixão um plano de vida alheio. À semelhança de muitos outros, este filme passou injustamente por baixo das atenções mediáticas, na medida em que, para lá de revelar uma ideia de cinema solidamente comprometida com a teia de emoções da narrativa sem nunca subjugar as imagens a uma mera dimensão dramática ou, menos ainda, funcional, problematiza com inusitada actualidade a desorientação ontológica provocada em sensibilidades pouco lineares – como tantas vezes são as femininas – por uma sociedade que pressiona os seus constituintes a fazerem escolhas não fundadas em possibilidades que eles próprios se dediquem a criar mas nos modelos cada vez mais escassos que ela lhes disponibiliza, ávida que está de os vigiar até ao último reduto. O tempo do pronto-a-vestir deu lugar ao tempo do pronto-a-viver, e a concomitante superficialização do conceito de liberdade trouxe a cada um de nós em extensão aquilo que nos retirou em profundidade. É nessa prisão profunda onde hoje vivemos que se desenrola a verdadeira acção do filme. Tudo o mais são cenários, papéis, esquemas. A oscilação de Anna não é entre a fisicalidade de Domenico e a bonomia de Alessio, é entre a miríade de cordas da sua própria natureza. Os dois homens que a balizam, na equação última de Que mais quero eu, são tão postiços como os pingentes de que ela se desfaz quando por fim se entrega nua ao seu desespero.

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