A PESADA LINGUAGEM DA AUSTERIDADE – MAS OS PECADORES SÃO SANTOS! – por BILL MITCHELL – II

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A pesada linguagem da austeridade  – mas os pecadores são santos!

Bill Mitchell, The loaded language of austerity – but all the sinners are saints!

Billy Blog, 27 de Novembro de 2014

(continuação)

Proferi uma conferência  na Universidade Roma Tre na segunda-feira sobre  o  enquadramento e a linguagem que é utilizada   pelos neoliberais para reforçar  os conceitos económicos que  não têm  nenhum fundamento na realidade. (…)

Como parte da apresentação coloquei em confronto  duas visões da economia e nisto inspirei-me no trabalho realizado por Shenker-Osório, no seu livro de 2012 – Don’t Buy It: The Trouble with Talking Nonsense about the Economy.

A primeira figura representa a vista conservadora, neoliberal, onde o pressuposto básico é o de que  “as pessoas e a natureza existem principalmente para servir a economia” (Shenker-Osorio, 2012: localização 439).

Esta narrativa diz-nos que uma economia competitiva, uma economia auto-regulada, gerará o máximo de riqueza e de bem-estar possível se lhe for “permitido” poder estar a operar com o  mínimo de  intervenção pública.

A economia é representada como uma divindade que é obtida a partir de todos nós e em que esta se  reconhece nos  nossos esforços e nos recompensa em conformidade. Somos obrigados a ter fé (confiança), trabalhar duro e fazer os sacrifícios necessários para o bem da ‘economia’: e estes que não se comportam assim são então privados, legitimamente, de tais recompensas. Estes são pecadores depravados – reincidentes –!

A economia também é apresentada  como uma entidade viva. Se o governo intervém no processo da concorrência e fornece uma avenida onde os indignos (preguiçosos, etc) podem  receber subsídios , então, o sistema torna-se ‘doente’.

A solução é então restaurar os processos naturais da economia (a sua saúde), o que implica a eliminação da intervenção do governo em áreas tais  como salários mínimo, a protecção do emprego e os apoios sociais em termos de  rendimentos.

As mensagens-chave são “auto governação  e natural’, o que força a conclusão óbvia de que ” a intromissão governamental faz mais mal do que bem, e nós só temos que aceitar as duras dificuldades económicas actuais” (Shenker-Osorio, 2012: localização 386).

Embora os subscritores deste ponto de vista  nos queiram fazer crer que esta é uma narrativa racional, na verdade, ela  representa um tipo de ‘pensamento mágico’ que está sobretudo mais apropriadamente associado com a visão medieval  sobre a relação entre os indivíduos e o mundo.

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Na visão ortodoxa, as referências para um país ser considerado bem-sucedido são quando o crescimento do PIB em termos reais é forte e independentemente dos custos.

No contexto da UEM, a estabilidade dos preços foi elevada à posição mais elevada em termos de prioridades e os políticos julgam o sucesso de acordo com a aderência às relações financeiras arbitrárias. Estes toleram o desemprego em massa  como se não haja nenhuma outra alternativa.

E o BCE nem foi capaz de cumprir sua própria meta de inflação – ficou por  baixo!

Mas, nesta visão, disciplina e sacrifício são elogiados mesmo quando as taxas de pobreza sobem e em que há uma geração de jovens que se está rapidamente a desviar fortemente das trajectórias que normalmente  nos permitem não só conseguir  alcançar  a prosperidade individual como também a conseguir manter  a estabilidade social.

Claramente, a disciplina é um festim  em movimento. Os banksters  e as elites financeiras têm regras diferentes para si mesmos sobre os  sacrifícios  e a   poupança  necessária.

A narrativa  ensina-nos    igualmente que os nossos próprios resultados estão deslocados face ao  sucesso do sistema e assim sucesso e insucesso  estão ambos representados  como sendo devidos em primeiro lugar aos  nossos próprios esforços e sobretudo a eles. Similarmente, os desempregados são vistos como sendo os próprios  responsáveis pela sua situação de  desempregados, quando na realidade se trata de uma falta sistémica de postos de trabalho e é esta carência de postos de trabalho que explica a  sua situação.

Esta narrativa é tão poderosa que comentadores e políticos progressistas acabaram por se deixar seduzir por  ela propondo  apenas algumas   alternativas  consideradas ‘justas’ para as principais soluções propostas pelos neoliberais ao invés de colocarem esta narrativa em questão, através de uma  crítica radical às hipóteses que estão subjacentes ao modelo  neoliberal.

Por exemplo, os progressistas timidamente defendem a aplicação de uma austeridade orçamental  mais gradual quando, pelo contrário, a deveriam rejeitar frontalmente com base na evidência que esta falha completamente, como se tem visto, e deveriam defender  a aplicação de políticas orçamentais expansionistas (gerando défices)  para atacar frontalmente  as enormes taxas de subutilização do trabalho que pesam fortemente para a maioria  das economias.

O grupo defensor do euro   é tão forte que os progressistas projectam  todos os tipos de soluções para a crise que preservem  o euro, quando na verdade é o euro que é o  verdadeiro problema.

Os progressistas e os conservadores são reféns das mesmas crenças erradas  sobre o modo como a economia funciona; assim, o público é obrigado a acreditar que não há alternativa à política económica fortemente prejudicial que tem sido praticada.

A segunda figura abaixo colocada representa uma visão alternativa da economia, onde a economia funciona para todos  nós,  como sendo a nossa construção,  e as pessoas são organicamente integradas  e nutridas pelo ambiente natural.

Shenkar-Osorio (2012: Localização 1037) diz:

Esta imagem mostra a noção de que, em estreita ligação com e confiança sobre o nosso ambiente natural, nós somos o que realmente importa. A economia deve estar a funcionar para nosso benefício. Reflexões sobre  se uma política sugerida é positiva ou negativa devem ser considerados apenas à luz de como é que esta política irá promover o nosso bem-estar, e não à luz de quanto aumentará a dimensão da nossa economia.

Nesta perspectiva, a economia é vista como um “objecto construído” ‘ e a eficácia das  políticas devem ser avaliadas em termos de como é que elas são funcionais  em relação aos nossos objectivos em sentido amplo, em que uma visão progressista deve articulá-las    em termos do aumento do bem-estar  público e da maximização do  potencial para todos os cidadãos dentro dos limites da sustentabilidade ambiental.

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O foco desloca-se para  colocar os nossos objectivos humanos no centro do nosso pensamento acerca da economia.

Esta perspectiva faz imediatamente lembrar  os princípios da  finança funcional desenvolvidos por Abba Lerner. Leia, por exemplo o meu blogue  – Functional finance and modern monetary theory –– para mais discussão sobre este ponto.

Consistente com  isto, a teoria monetária moderna (MMT) explica bem  a inaplicabilidade de uma visão estreita centrada sobre  o equilíbrio orçamental   sem nenhuma referência a um contexto humano mais vasto.

Nesta última narrativa, as pessoas  criam a economia. Não há nada de  natural acerca disto. Os conceitos tais como “a taxa de desemprego natural”, que implicam  que  deve ser deixado às próprias forças do mercado a determinação da sua posição de equilíbrio natural,  são profundamente erróneos.

Os governos podem sempre escolher e sustentar uma taxa de desemprego particular. Nós criamos o governo como sendo o nosso agente para fazer coisas que não podemos facilmente fazer nós mesmos, e nós entendemos que a economia só vai servir  os nossos propósitos colectivos se esta está sujeita a um  controlo e a uma  fiscalização activa.

O governo (ou a Comissão Europeia) não é um árbitro moral – condenando  criminosos ou advertindo os pecadores.

A UEM foi criada pelo esforço humano e pode ser desmontada pelos mesmos meios. A União não é irrevogável, e o euro não é insubstituível.

A visão de que a Europa  se iria afundar e regressar a uma nova ‘idade das Trevas’ se  um só pais que seja abandonasse   o euro e restaurasse  a sua própria soberania monetária  é simplesmente a polémica instalada pelo Groupthink.

As duas visões da economia podem ser resumidas em termos de valor como a visão em que predomina o  individualismo   (visão neoliberal) e a visão em que predomina o colectivo,  (visão progressista).

Para uma visão progressista,  o colectivo  é importante porque fornece a justificação política por mais igualdade, por uma partilha dos custos e dos benefícios da actividade económica. Os  progressistas têm, historicamente, argumentado que o governo tem a obrigação de criar trabalho, se o mercado privado não consegue criar  suficiente emprego.

Nesse sentido, a vontade colectiva significa que o nosso governo está habilitado para utilizar a despesa pública  (os défices) para garantir que haja  empregos suficientes disponíveis para todos aqueles que querem trabalhar.

A competição entre as duas visões gerou um longo debate nas Universidades.

Esta funcionou  durante a Grande Depressão, e foi este debate que nos ensinou  que a intervenção política foi fundamental  para reinar sobre  forças caóticas e prejudiciais como a ganância e poder que sustentam o sistema monetário capitalista.

Aprendemos que os chamados sinais de  ‘mercado’ não dão  níveis satisfatórios de emprego e que o sistema poderia facilmente permanecer nessa terrível situação  e provocar um  desemprego em massa.

Nós aprendemos que este mal-estar é provocado por uma despesa insuficiente  e que o governo teve a capacidade de efectuar despesa  e rectificar  estes défices para assegurar  que todos aqueles que queiram trabalhar o possam então  fazer.

Desde a Grande Depressão e  das  respostas que lhe foram dadas  nós aprendemos que a economia era uma construção – não uma divindade – e que poderíamos controlá-la através de uma política orçamental  e monetária a fim de criar os resultados colectivos desejáveis .

A Grande Depressão ensinou-nos que a economia deve ser entendida como a nossa criação, concebida  para nos oferecer benefícios, não uma entidade abstracta que distribui recompensas ou punições de acordo com um quadro moral. O governo é então não um árbitro moral mas uma entidade funcional, ao serviço das nossas necessidades. As nossas experiências durante o período da Grande Depressão levaram-nos  a uma completa rejeição da macroeconomia neoclássica (a precursora da moderna variante neoliberal).

A solução para a crise da zona euro não é a França estar minar o progresso social expresso pelos seus níveis salariais, pelos serviços públicos etc que foram alcançados ao longo dos anos. A solução é muito  simplesmente que o governo francês aumente as suas despesas públicas, isto é que aumente o seu défice. .

Nós distanciámo-nos  da ideia  que foi a subida do preço  do petróleo provocada pela OPEC nos anos 70,  que gerou o ponto de viragem a favor das ideias conservadoras  apesar destas  terem sido moldadas no descrédito durante os anos 30 pelo trabalho de Keynes e de outros.

Nós  analisamos a transição em detalhe  no nosso livro de  2008  – Full Employment abandoned.

(continua)

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Para ler a Parte I deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/12/26/a-pesada-linguagem-da-austeridade-mas-os-pecadores-sao-santos-por-bill-mitchell-i/

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