A pesada linguagem da austeridade – mas os pecadores são santos!
Bill Mitchell, The loaded language of austerity – but all the sinners are saints!
Billy Blog, 27 de Novembro de 2014
(CONCLUSÃO)
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A forma como os governos por todo o mundo têm respondido à Crise Financeira Global em contraste com as respostas que foram dadas na Grande Depressão, mostram-nos à evidência a dimensão e a importância da retórica económica ortodoxa na definição do que é a economia como profissão e a compreensão do público quanto às opções políticas que fluem a partir daí, orientando as sociedades para bem longe de um modelo de economia que sirva para maximizar o bem-estar colectivo.
O ressurgimento do paradigma da economia de mercado tem sido acompanhado por uma campanha pública bem orquestrada onde o enquadramento e a metáfora triunfa sobre a realidade com que se trabalha ou sobre a superioridade teórica.
Este processo tem sido apoiado pelos interesses económicos privados e por outros interesses contra o governo, que têm fornecido fundos importantes para os centros de elaboração e difusão das ideias conservadoras, os ‘think tanks’ defensores dos mercados livres.
Os políticos apresentam-se a defender estas ideias ditas com origem em organismos de investigação independentes como sendo a autoridade necessária para justificar as suas agendas de desregulamentação. As organizações multilaterais como o FMI também continuam a distorcer os debates de política com as suas declarações sem-sentido, com as suas contraproducentes exigências e, no caso do FMI, com a sua modelização incompetente e sujeita a grandes erros.
E os altos funcionários da UE invocam e ampliam esta linguagem para perpetuar o mal-estar.
Enquanto isso, os Estados Unidos actualizaram os seus números quanto ao crescimento do PIB para o terceiro trimestre em que se mostra que o PIB em termos reais cresceu, sazonalmente ajustado, de 3,9 por cento relativamente ao ano passado. A estimativa preliminar tinha sido de 3,5 por cento. Se nós anualizarmos o crescimento dos dois últimos trimestres então a taxa seria de 4,25 por cento, que é suficiente para reduzir fortemente nas estimativas oficiais do desemprego.
Veja-se o gráfico seguinte. Ele mostra o PIB real indexado ao valor 100 para o primeiro trimestre de 2008 para a zona euro, para a França e para os Estados Unidos.
O trimestre de base 100 é o pico para cada série que foi alcançado antes da crise. Assim, para a Europa foi o primeiro trimestre de 2008, enquanto que para os EUA foi um trimestre anterior (Dezembro de 2007). Os números no eixo horizontal são os trimestres após o pico.
Os ciclos estiveram intimamente ligados na recessão e nos períodos iniciais após a retoma. Os défices orçamentais em todos os países (regiões no caso da zona euro) estavam-se a expandir através de uma combinação de estabilizadores automáticos (resposta cíclica decorrentes das receitas fiscais perdidas e de se estar a responder à diminuição do bem-estar com subsídios) e variados graus de estímulos fiscais discricionários.
As recessões foram profundas em todos os casos (mais profundos na Itália) e as retomas lentas, o que indica que a expansão nos défices do governo foi insuficiente para compensar a queda nas despesas não-governamentais.
Mas depois de algum tempo, o crescimento constatado divergiu entre os Estados Unidos e a Europa, ficando as economias europeias para trás. Enquanto os Estados Unidos claramente cresceram e de forma consistente (embora modesta), as economias europeias têm vacilado. No caso da Itália, a recessão está-se mesmo a intensificar.
O crescimento estagnou no caso da França e da zona euro, de um modo geral, está estagnado e ainda está bem abaixo do pico do primeiro trimestre de 2008 – mais de 6 anos depois.
A diferença é que o disfuncionamento do sistema político nos Estados Unidos durante todo este período significou que o défice orçamental se manteve relativamente grande e por muito mais tempo e apoiou assim o crescimento , enquanto o sector privado recuperado a sua confiança.
Agora é evidente que o crescimento de crédito do sector privado dos Estados Unidos está começando a acelerar – Veja o mais recente – Household Debt and Credit Report – publicado pelo Federal Reserve Bank de Nova York.
Este mostra que:
A 30 de Setembro de 2014, a dívida total do agregado familiar era de $11,71 milhões de milhões mais 0,7 por cento do seu nível alcançado no segundo trimestre de 2014, ou seja um aumento de $78 mil milhões.
Em grande contraste está o comportamento dos governos europeus conduzidos pelas mentalidade e pelas regras absurdas do Pacto de Estabilidade e de Crescimento e pelas suas sucessivas alterações ad hoc.
Uma vez que a mentalidade da austeridade da Europa foi imposta não há então nenhuma esperança para que seja verdadeiramente possível o crescimento, dada a situação da despesa não-governamental. Todas as justificações para a politica de austeridade apresentadas pela Comissão Europeia e pelo FMI de que haveria uma politica de contracção orçamental expansionista são uma pura mentira .
Isto é agora claro, mesmo que seja óbvio a qualquer um que compreenda mesmo apenas o mínimo quanto à forma como funcionam as economias.
A posição e as justificações da Comissão e do FMI foram e continuam a ser apenas uma cortina de fumo para manter os trabalhadores na submissão e para criar finalmente as circunstâncias em que os serviços governamentais e os esquemas de apoio social (que incluem pensões) poderiam ser cortados e gerarem pois mais um grande impulso para cimentar a hegemonia do capital financeiro.
Conclusão
A Comissão Europeia irá decidir esta semana sobre o caso francês. Se impuserem, em termos de austeridade, ainda condições mais duras ao povo francês e se o governo as aceitar então a recessão em França será inevitável (substituindo a situação de crescimento vizinho de zero) .
Se França não obedecer então nós voltamos à situação de 2003, o que pode vir a ser interessante.
A nossa esperança é que os franceses não repliquem os italianos que falam muito alto mas, quando são pressionados, ei-los submissos à austeridade neo-liberal.
O facto de que os franceses tenham recusado cortar no seu défice no período de tempo especificado pela Comissão faz deles uns santos [uns pecadores para Schauble] ou para invocar a grande linha de Rolling Stones: “todos os pecadores são santos”! do poema Sympathy for The Devil:
Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
But what’s confusing you
Is just the nature of my game mmm yeah
Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
‘Cause I’m in need of some restraint
[Just as every cop is a criminal , and all the sinners saints
Chega por hoje!
Bill Mitchell, The loaded language of austerity – but all the sinners are saints!, 27 de Novembro de 2014. Texto disponível em:
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=29581
Publicação autorizada pelo seu autor.
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Para ler a Parte II deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
A PESADA LINGUAGEM DA AUSTERIDADE – MAS OS PECADORES SÃO SANTOS! – por BILL MITCHELL – II

