Já passaram dois dias sobre o Natal e só hoje lhe venho escrever. Realmente tenho andado muito entretido. E confesso que bastante bem disposto. Tenho dormido muito profundamente, o que, como já me tem dito, é um bom sinal. Um sinal de saúde, na verdade. Repare, ontem lá fui fazer uma visita ao andar de cima. Lembra-se de que ali mora a D. Henriqueta… e também a Maria Antónia. Pois, a D. Henriqueta ressonou o tempo todo, mas fechámos a porta do quarto, e estivemos muito bem. Só voltei para casa era quase uma da manhã, a tempo de baixar a televisão, ir vestir o pijama e vir acordar a Heloísa, para ela ir dormir para a cama dela. Não me pergunte qual era o programa que estava a passar, porque não olhei uma única vez para o aparelho, em toda a noite. Hoje acordei, passava das dez horas, com o cheiro a torradas na cozinha. Recebi um telefonema da Maria da Luz, já era quase meio dia. Diz que estão todos bem, lá na serra. O frio é que é muito. Enfim… tudo corre bem.
Mas sabe que a ceia foi excelente? O bacalhau estava um mimo. É pena que não queira vir cá a casa. Diz que é muito meu amigo, mas não quer abusar. Pois não sabe o que perde. Gostava de o apresentar à minha mãe. É claro que não diríamos uma palavra sobre a nossa correspondência. Mas a Heloísa está numa altura em que parece apreciar que eu tenha novas companhias. Pelo menos é o que me parece.
Tive um dia de natal bastante ocupado. Fui às compras com a minha mãe logo pela manhã. Levámos mais de duas horas. Só à volta, do mercado até casa,foi bem meia hora, a pé, e vínhamos bem carregados. É verdade que parámos umas quatro vezes para falar a pessoas conhecidas. Calcule que a Heloísa gastou mais de cem euros. Mas reparei que ela ainda ficou com uma data de notas na carteira. Ando espantado. Onde é que ela vai buscar tanto dinheiro? Vai-me dizer: pergunte-lhe. Sabe, não estou habituado a meter-me nesses assuntos. A minha mãe tem tratado sempre de tudo. Para as compras, para pagar a luz, a água… às vezes manda-me pagá-las, mas dá-me o dinheiro primeiro. E, para além disso, o que ela me dá, chega-me para os meus gastos. Não são muitos… Percebo que acha que eu devia preocupar-me mais com este assunto. Mas o dinheiro vai-me chegando. Por isso não me preocupo. Mas tenho andado mais atento, garanto-lhe. Agora vou mudar de assunto, que este começa a aborrecer. Não me leve a mal. Deixe-me contar-lhe o resto.
Anteontem, a D. Henriqueta e a Maria Antónia desceram ainda não eram sete horas. A minha mãe recebeu-as com tanto entusiasmo, que não parecia ter estado com elas no café poucas horas antes. O bacalhau já estava no forno havia mais de uma hora. A Heloísa deu-lhe mais uma volta e fomos para a sala. Já se sabe que nos pusemos a ver televisão. E lá começaram a fazer os seus comentários. Entretanto, toca o telefone. Atendi eu. Era a Maria da Luz a desejar boas festas. Quis falar com a minha mãe. A Maria Antónia observava, com o sobrolho levantado. Depois, também cumprimentei a D. Belisária e o Sr. Tructesindo, os pais da Maria da Luz. Insistiram comigo para fosse passar o ano novo com eles:
– Assim temos companhia. E traga a sua mãe.
Enfim. Fomos para a mesa, já posta na sala, cerca das oito horas. Nos vais e vens da cozinha, a Maria Antónia apanhou-me a jeito, deu-me um apertão no sítio habitual, e disse-me baixinho:
– O que te vale é que não sou ciumenta. Hoje escapas porque a Henriqueta esta noite não vai adormecer com facilidade, mas olha que amanhã não falhas. Estás lá em cima às onze e cinco.
Tudo nos conforme, como gostam de dizer uns rapazes, e também umas raparigas, que se acham bem falantes. Lá na faculdade, oiço-os muitas vezes. E eu, estes dias, tenho-me sentido assim. Sem pressões, descansado. Pergunta-me se tenho saudades da Maria da Luz? Sim, algumas. Mas nada de aflitivo.
Estivemos à mesa até depois da meia-noite. Tivemos prendas e tudo. Ofereci às nossas vizinhas uns pechisbeques que a Heloísa tinha comprado para o efeito. Declararam-se encantadas. Ofereceram-me uma carteirinha, tipo porta-moedas, sobre a qual a Maria Antónia, noutro vai e vem sala-cozinha, me informou sigilosamente ter as dimensões ideais para comportar preservativos.
– Assim anda prevenido. Com estas serigaitas, nunca se sabe.
Eu pus um ar encantado. A Heloísa estava contentíssima com um tacho que lhe tinha oferecido a sua velha amiga Henriqueta. E a Maria Antónia já trazia ao peito o ornamento em pechisbeque que tinha sido a sua prenda de Natal. Conversámos bastante tempo. A certa altura, ocorreu uma sombra. Pelo menos foi o que me pareceu. Levantávamos a mesa. A Maria Antónia fazia turnos comigo a levar os pratos, copos, etc., para a cozinha A Henriqueta perguntou baixinho à Heloísa:
– Soubeste alguma coisa de Cascais? – possivelmente achou que mais ninguém a ouvia.
A Heloísa disse que não com a cabeça, também muito discretamente. Tinha os olhos semicerrados e uma expressão contristada. Mas as duas olharam em volta e quebrou-se a intimidade. A Maria Antónia sentou-se à mesa, e eu pus-me a ver televisão, ao lado dela. Perguntei:
– Temos algum filme esta noite?

