GIRO DO HORIZONTE – “ESTÁ NA HORA” – por Pedro de Pezarat Correia

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            Para aqueles que pensam – e entre eles me revejo – que o projeto europeu entrou num impasse para o qual não se vislumbra saída, porque insiste em soluções anquilosadas de um capitalismo que de conservador e liberal passou a neoconservador e neoliberal mas só agrava as suas contradições e os seus vícios, é com alguma esperança que se vislumbram alguma roturas a perfilarem-se no horizonte. Pelo contrário, os que se ufanam de integrarem o “arco da governação”, que afinal mais não tem sido do que o “arco da (ir)responsabilidade” pelo estado a que isto chegou, sabem que mais tarde ou mais cedo serão chamados a prestar contas e, por isso, é com mal-disfarçada apreensão que encaram esses sinais.

            As movimentações populares de protesto dos “indignados” e dos “ocupas” que um pouco por todo o lado inundaram as ruas e praças da Europa – e não só –, clamando contra as medidas de austeridade que a direita e, por vezes, uma certa esquerda por ela, aplicou como receita sem alternativa para a crise do capitalismo, não tiveram efeitos imediatos ao nível das superestruturas do poder, mas deixaram sementes que começam a dar frutos.

            Novos partidos à esquerda, chamemos-lhe mesmo, da esquerda radical (porque pretendem não deixar de enfrentar as raízes do mal no atual sistema político e nas relações de poder), lideram sondagens de opinião em Espanha e na Grécia, países do sul da Europa e dos mais atingidos pelas soluções com que Bruxelas quis responder à crise. O Podemos e o Syriza sentem-se apoiados nas propostas que anunciam orientadas para o combate aos programas de austeridade que os tais partidos do “arco da irresponsável governação” impuseram em nome da “troika”, para a renegociação da dívida, para a recusa do protetorado “merkeliano”. Em Portugal, os partidos que se têm – e bem – excluído desta sujeição e as massas populares que não calam o seu protesto, não podem permanecer indiferentes a esta dinâmica. Como não o ficarão na Irlanda e em Chipre, ou seja, o conjunto dos povos dos países mais periféricos no naipe ocidental da UE e que se sentiram os alvos prioritários da ofensiva da “troika” contra o “Estado Social”, pilar essencial de uma identidade europeia para o século XXI. Partidos que se têm posicionado, essencialmente, como contra-poder, começam a assumir-se com projetos de poder.

            Mas não se pode ignorar que há um outro lado da barricada que também condena a UE por não encontrar respostas para a vaga migratória, para os fundamentalismos religiosos, para a violência urbana, que se expressa através de movimentos populistas em França, no Reino Unido, nos países nórdicos e ma periferia a leste, assumindo inquietantes sinais de extrema-direita.

            Há quem veja aqui uma nova expressão da luta de classes. Se assim for obrigará a um reajustamento do conceito da natureza das classes, pois se observado através do conceito clássico nota-se que alguns setores da classe média integram as fileiras contestatárias da esquerda, enquanto camadas do proletariado urbano se juntam às fileiras populistas da extrema-direita. Resulta isto, em parte, de discursos demagógicos dos governos perante a crise, promovendo linhas de fratura nas sociedades entre jovens e velhos, entre empregados e desempregados, entre funcionários públicos e trabalhadores dos setores privados, entre ativos e reformados, entre estabilizados e precários.

            É óbvio que algo vai mudar e, por isso e para isso, é urgente que a esquerda, quer a mais tradicional e que tem implantação partidária e sindical, quer a emergente e que arrasta camadas mais heterodoxas, equacione e encontre consensos sobre questões fundamentais, a integração europeia, o federalismo, a soberania, a imigração, o euro, a dívida. Já várias vezes expressámos aqui a opinião de que não é viável um rompimento com o statu quo unilateral, mas apenas no quadro de uma frente de esquerda europeia. Defender interesses nacionais, sim, mas recusando os chauvinismos, as xenofobias, as autarcias da extrema-direita e, pelo contrário, promovendo políticas internacionalistas solidárias, inclusivas, cosmopolitas.

Na Grécia, soubemos hoje, vai haver eleições legislativas no princípio do ano com o Syriza bem posicionado. Bruxelas já reagiu com mau humor. Em Espanha serão em Novembro e o Podemos lidera as sondagens. Em Portugal também as teremos em 2015 e é urgente acertar o passo com esta dinâmica.

Como diz o povo nas ruas…está na hora!!!!

29 de Dezembro de 2014

2 Comments

  1. Ao argonauta Pezarat Correia ,o meu voto de um Bom Ano de 2015, em todas as horas e circunstâncias.

    José Cruz de Magalhães

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