Finalmente; o regicídio.
Carlos Ferrão, autor de vasta obra sobre a I República, dirá acerca do regicídio: «Deste há versões contraditórias ou deformadas pela paixão dos que a redigiram, nas quais a verdade e até a verosimilhança, não constituem título de recomendação. Na vasta bibliografia do regicídio não há duas versões idênticas»
Todavia, alguns episódios deste acontecimento podem ser vistos com alguma clareza. É o caso de monárquicos ou republicanos?
Na obra de José Mattoso, encontram-se afirmações como as seguintes:
«Duas coisas são certas: em primeiro lugar, entre a oposição dissidente e republicana discutia-se e esperava-se a morte de D. Carlos; em segundo lugar, o assassinato do rei e do príncipe real não foi cometido por dois anarquistas isolados e mais ou menos loucos, mas por dois notórios membros de uma loja maçónica (talvez não regularizada no Grande Oriente Lusitano), envolvidos na conspiração do 28 de janeiro e em contacto com os chefes republicanos.[…] Havia muito que os mais raivosos oposicionistas se tinham concentrado no ataque ao rei. Revelaram-se cartas do rei, correram anedotas e rumores. Dizia-se que D. Carlos era um mentiroso, que estava impotente, ou então que era um sátiro. D. Amélia traía-o, ou era ele que a traía. Nos bancos de Londres tinha posto todos os milhões que havia roubado à nação. A única coisa que lhe importava era gozar o Orçamento do Estado guardado pela armada inglesa. […] O rei era, portanto, um alvo previsto. Os seus assassinos vieram das lojas maçónicas republicanas. Alfredo Costa era um dos mais ativos organizadores dos grupos de civis armados. Um dos seus maiores amigos era o futuro escritor Aquilino Ribeiro.
Aquilino estava também muito chegado a Manuel Buíça e era padrinho de um dos seus filhos. Costa, Buíça, Aquilino e muitos outros reuniam-se habitualmente num dos cafés da baixa de Lisboa, o Café Gelo, por onde passavam gente das oficinas, empregados de comércio, funcionários públicos e jornalistas. Todos eram radicais e alguns mesmo fanáticos. […] Enfim, na oposição desejou-se a morte do rei e esta foi executada por agentes dessa oposição. Isto é indiscutível. Da mesma forma, é impossível aceitar que o rei tivesse sido escolhido pelo grupo de assassinos apenas porque não encontraram Franco. No dia 1 de fevereiro, Franco vinha no quarto veículo do cortejo – e a gente que estava na praça devia saber que ele estava ali. Mas foi sobre a família real que se disparou.
O que se pode discutir é que tenha havido uma ordem explícita dos chefes do 28 de janeiro para que a família real fosse massacrada. Sobre isto correram os rumores mais furiosos. Na época, os homens imediatamente acusados foram José de Alpoim, Afonso Costa e Ribeira Brava.»
Afirma-se que Alpoim, então refugiado em Salamanca, ao tomar conhecimento do que se passara no Terreiro do Paço, terá mesmo dito: «Já morreu o canalha». Anos mais tarde, Alpoim disse a Raul Brandão que ele e mais outra pessoa eram as únicas em Portugal que sabiam exatamente o que se passara no dia 1 de fevereiro. Finalmente, nas suas Memórias, José Relvas conta como Afonso Costa, numa das reuniões nas vésperas do 5 de Outubro, insinuou a sua participação no regicídio.»
E, continuando com José Mattoso: «Consideradas todas estas informações, podemos afastar piedosas mentiras e considerar que o atentado contra a família real não foi um acidente. Os assassinos cumpriram exatamente a missão de matar quem interessava matar. Franco não podia fazer outro D. Carlos, mas D. Carlos podia fazer outro João Franco.» (História de Portugal, Vol. VI, pp. 295,296)
Esta apreciação dos acontecimentos de 1908 não é restrita à obra citada. Um artigo recente, da autoria de Rui Manuel Costa Neto, publicado na revista História, de novembro de 1996, e tendo como base a tese de Miguel Sanches de Baêna, avança igualmente para conclusões semelhantes. Segundo o autor:
«A versão oficial que nos restou do regicídio de 1 de fevereiro de 1908 é que se teria tratado de um ato esporádico levado a cabo por dois exaltados fanáticos. Seria, na opinião de republicanos maçons e oposição monárquica, uma atitude individual de que não se podia responsabilizar ninguém. Era esta a situação que convinha: um não envolvimento na tragédia de qualquer uma das forças políticas. Os responsáveis estavam mortos. A culpa, genericamente aceite, havia sido do presidente do Conselho de Ministros, João Franco, que levara ao desespero o País, e assim o melhor era não falar mais no assunto.
Desde logo, não faltaram especulações, ou talvez não o fossem, que procuraram relacionar quer o partido republicano quer os dissidentes progressistas com o crime. Especulações essas que seriam imediata e definitivamente esclarecidas se os famosos processos do regicídio, onde se haviam registado todas as conclusões a que se havia chegado, não tivessem desaparecido, sem deixar rasto, após o 5 de Outubro de 1910.

