MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 58 – por José Brandão

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Igualmente quando Homem Cristo escreve em 9 de outubro de 1910 que: «D. Carlos dissera e muito bem: Isto é uma monarquia sem monárquicos. Nós diremos, por semelhança, isto é uma república sem republicanos. Isto é um país sem povo. Isto é uma Nação sem nacionais.»

«Não combatemos a república, pois hoje, como sempre, somos republicanos. O que combatemos é o espírito de banditismo, de especulação, de hipocrisia, de infâmia. Estão, senhores do poder? Contem connosco a sério que nos hão-de encontrar como sempre.»

Também António Sérgio, em setembro 1913, no Rio de Janeiro, dirá a Raul Proença: «Eu não acuso os seus republicanos de serem revolucionários; muito pelo contrário os acuso de o serem muito pouco, de serem imensamente conservadores nas questões essenciais: reprovo-os por serem revoltosos, e acuso-os de serem bestiais e desonestos. Bestializaram o povo e ludibriaram-no. Desde o grande teórico, o Teófilo, ao grande prático, o A. Costa, os homens que têm dominado são uma cáfila de intrujões […] Não tenho simpatia obscura e instintiva pela Monarquia; tenho instintiva e não instintiva antipatia por esses republicanos. Tem havido progressos? Quais? De que ordem? […] Como vê, afirmo constantemente o meu talassismo (antirrepublicanismo-português). Se fosse monárquico conspirava – pois que estou cá fora, não preciso de ir a Portugal, não desejo nada do Estado, não quero conservar os meus galões, o argumento parece-me bom. Não tenho nada a temer, e por tanto nada me impediria de conspirar se fosse realmente monárquico.»

Resta acrescentar que tal como aconteceu com Homem Cristo, que foi preso logo após a revolução de 5 de Outubro de 1910, também António Sérgio, nessa mesma data, ficou preso nas casamatas do quartel dos marinheiros de Alcântara, por se recusar a aderir à revolução republicana. Ironias do destino. Homem Cristo, que em 1891 tinha sido preso pelos monárquicos acusado de republicano, em 1910 é preso pelos republicanos acusado de monárquico.fim!… Como disse José Mattoso: «sobre o regicídio escreveu-se muita coisa, mas concluiu-se pouca».

Sempre muita opinião, para poucas certezas.

Somado tudo isto, um facto parece claro: exatamente a eterna questão monárquicos, ou republicanos? Se em 1908 tudo aponta mais facilmente para os republicanos, também, como se viu, aparecem os monárquicos. Em 1921 trocam-se os papéis mas os atores são os mesmos. Os monárquicos são apontados como causadores mas os republicanos é que aparecem no desenrolar da fita.

Igualmente com o sidonismo se procurou confundir o republicanismo de alguns notáveis que a ele aderiram numa primeira fase, com o monarquismo de alguns outros que se juntaram a Sidónio no final do «presidente-rei».

Como tivemos a oportunidade de ver, o que acaba de ser exposto sobre os segredos do Regicídio de 1908 liga-se até à Noite Sangrenta de 1921, passando pelo Sidonismo de 1918. E isto, enquanto analisados os casos parcelarmente.

Em todos eles surgem os nomes de António Granjo, José Carlos da Maia e Machado Santos.

Em todos eles aparecem comprometimentos maçónicos ou carbonários e são sempre estes que pagam as favas pelo que acontece.

Em todos eles os republicanos democráticos de Afonso Costa estão a passar dificuldades e são sempre estes a ganhar com o que sucede.

E, como é bem notado, em todos eles se verifica a existência de um encontro de interesses entre determinados setores monárquicos e determinados setores republicanos.

Mas não faltam, nem se escondem indicações diretas da relação entre estas três ocorrências.

Imediatamente após os acontecimentos de 19 de outubro de1921, Aquilino Ribeiro redige um artigo para a revista Seara Nova intitulado «O regicídio e os regicidas», no qual estabelece uma ligação direta entre o regicídio de 1908 e a noite de 1921, (como há dois dias) e, eventualmente, com o sidonismo, (como há dois anos), diz o seguinte: «De toda a história portuguesa dos últimos anos, o regicídio, em 1908, é ainda um facto misterioso, sobre o qual presumem de certas versões várias e se enredam homens e responsabilidades. O meu depoimento deve trazer luz suficiente ao trágico sucesso. Fazendo-o, juro dizer a verdade, como se a minha mão, sendo a de um verdadeiro católico, pousasse sobre os Evangelhos. Condenável por si, pelas leis da vida e as lições da História, condenado ainda pela ação, até agora nefasta, da República, do regicídio não teço um libelo com receio duns e, muito menos, na apologia para agrado doutros. O regicídio foi logicamente a eflorescência vermelha de ódios e revoltas, semeadas ás cegas por republicanos e monárquicos na razão ardente de 1907-1908. Culpa de todos, como há dois dias, como há dois anos. Como obra de facto, tem de integrar-se na campanha de demolição, praticada e levada a cabo por republicanos contra a realeza. Os protagonistas nisto foram o menos; apoucá-los ou engrandecê-los seria um cometimento tão parvoinho que in limine eu o afasto.»

O presente trabalho vai chegando ao final. Ao longo destas páginas procurou-se apresentar os eventos de modo a compreendê-los como algo que tem mais a ver com frustrações e anseios de um País eternamente suspenso do que com meros atos isolados de qualquer Costa, seja ele Alfredo, José Júlio ou Afonso. Frustrações de um povo que nunca conseguiu ser europeu da Europa próspera e desenvolvida estando quase sempre nos últimos lugares naquilo que é bom e entre os primeiros naquilo que é mau. Anseios de quem vagueia mundo numa demanda que parece não ter fim e onde o esplendor do Sol maravilhoso é teimosamente encoberto por uma desesperada manhã de nevoeiro.

O Desejado não é um rei desaparecido em terras do norte de África. É antes um País prometido em 1143 e que existe como se não existisse. O destino não é sebastianino, é henriquino.

Diz-se que depois da Batalha de S. Mamede, em que D. Afonso Henriques derrota a sua mãe, esta é acorrentada com ferros nos pés, e que nesta altura D. Teresa lhe roga a seguinte praga: «Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Mande Deus que isto seja!».

Esta maldição justificaria o acidente que o primeiro rei sofreu em Badajoz, no qual partiu uma perna, nunca mais se recompondo. Porém, a mesma parece ter caído sobre o novo Portugal. Também ele com as pernas partidas sempre que procura recompor-se. Como diria Joaquim Barradas de Carvalho: «Portugal nunca mais foi ele próprio», ou, conforme António Sérgio escreveu: «uma promessa não cumprida».

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