A COLUNA DE OCTOPUS – Charlie Hebdo: um atentado demasiado perfeito

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Qualquer ataque, como o que aconteceu às instalações de “Charlie Hebdo”, é condenável, apesar do facto deste jornal satírico obsessivamente atacar a religião muçulmana.

Imagem1Ao analisar o modus operandi deste ataque verificamos numerosos factos estranhos.

Este ataque foi planeado e executado com um rigor militar.Deu-se à hora exacta em que toda a redacção estava reunida,   – Neutralizaram os dois seguranças que se encontravam dentro do edifício. Não houve qualquer destruição do local, apenas execuções,  – Os executantes envergavam equipamento do tipo militar.  – Disparam com as suas metralhadoras uma bala de cada vez em vez de rajadas, Imagem2o que demonstra um treino apurado.  – Durante a fuga mantêm a calma e o sangue frio.  Depois de saírem do edifício ainda se deram ao “trabalho” desnecessário de executar um polícia caído no chão em vez de iniciarem a fuga.  – Um pormenor interessante é o facto de antes de entrarem no carro e saírem do local, um dos executantes, com sangue frio, apanha um dos sapatos que tinha caído junto do automóvel.

Saída do local e percurso automóvel impecáveis.

O carro da polícia chamado ao local, sabendo de um tiroteio com mais de dez minutos, deixou-se infantilmente surpreender pelos atacantes,- O polícia abatido com um tiro com uma metralhadora a um metro de distância, não provoca qualquer sangramento no chão claro do passeio, – Apesar da zona estar bastante policiada e do transito lento neste local de Paris, o carro conseguiu percorrer metade da cidade sem ser interceptado, fazendo prova de um percurso perfeito.

Poucas horas depois já tínhamos a identidade dos culpados.

Apesar de encapuzados, pouco tempo depois já era anunciada a identidade dos supostos atacantes- – Inacreditavelmente, este comando, super preparado e organizado, terá esquecido o bilhete de identidade de um deles no carro que serviu para o assalto!

10 Comments

  1. Duas observações.
    A “Charlie Hebdo” não ataca obsessivamente a religião muçulmana. Basta recordar o “cartoon” em que surge Maomé a lamentar-se – «C’est dur d’être aimé par des cons…» -, para o entender.
    A revista “Charlie Hebdo” ataca, sobretudo, a estupidez que, das mais desvairadas maneiras e proveniências, sufoca o Mundo e ameaça o futuro da Humanidade, sendo o extremismo islâmico um dos seus expoentes mais notórios, civilizacionalmente retrógrados e perigosos, até por cevar opiparamente o cada vez mais obeso porco da extrema-direita fascistóide.
    Disso são testemunho centenas, milhares de “cartoons” que, essencialmente, satirizam (criticam, põem a nu, chamam a atenção para) as contradições e perversidades das diversas formas de poder, incluindo o religioso: num outro “cartoon”, publicado numa época em que o jornal era alvo de vários processos, três figuras, representativas do judaísmo, da igreja católica e do islamismo, avançam para o observador, lado a lado e em “ordem unida”, berrando em coro «Il faut voiler ‘Charlie Hebdo’».
    O treino militar é claramente revelado nas imagens, mas não é treino de tropa de élite, que se ateria estritamente à “sua missão” e não perderia tempo com acções desnecessárias e inúteis, como abater polícias surpresos e incapazes de reagir a tempo de perturbar a fuga, no que foi uma improvisação canhestra: os terroristas foram treinados para a acção, para um planeamento simples dela, mas não para grandes rigores – militares ou outros -, em que todos os pormenores são tidos em conta e até as improvisações são previstas e treinadas… O que, aliás, me parece típico deste tipo de “treino” proporcionado a uns voluntários arrebanhados apenas pelo critério da “devoção fanática”, mais carne para canhão que outra coisa. Pelo que o pormenor do bilhete de identidade não me causa a mínima estranheza.
    Claro que este terrorismo é amamentado pela sobranceira imbecilidade do “ocidente”, basicamente às ordens do verdadeiro poder, o económico e financeiro, ganancioso e visando apenas um curto horizonte temporal, em que a capacidade de análise inteligente também não brilha, nem pode… Vejam-se todas as consequências das políticas ocidentais, comandadas pelos EUA, desde o Iraque e o Afeganistão (não esqueçamos quem apoiou e armou os talibãs, contra o “perigo comunista”) até ao recente fiasco generalizado das “primaveras árabes”, que transformaram o Norte de África num caos, onde regaladamente se espojam precisamente os fanáticos islamistas, com especial relevo para a Líbia e alguns países limítrofes sub-saarianos, vítimas “por tabela” da esfusiante idiotia “democrática” dos dirigentes americanos e da UE.
    Não me parece, pois, que estes atentados sejam fruto de qualquer conspiração desviante. A semente já foi lançada, os indesejados frutos estão a ser colhidos. Não é preciso inventar nada. Bom seria que não se continuasse a acrescentar lenha a esta já imensa fogueira…

  2. Senhor Rato,
    Nada disto consegue fazer-lhe lembrar o assassinato de Aldo Moro e dos seus acompanhantes? Na época disserem que a autoria do crime pertencia às brigadas vermelhas. Como chamar-lhe-ão agora? Quem não aceitava as alterações profundas que Aldo Moro queria imprimir na gramática política italiana? Quem, agora, não aceita qualquer autonomia à política dos europeus e precisa de fazê-los viver num clima de medo? Quem é, quem é? CLV

  3. Lembrar o assassínio de aldo Moro? Apenas indirectamente.
    De facto, ambos os episódios – o actual e o já histórico – pertencem à mesma galáxia capitalista, onde orbitam, sem conseguirem escapar à imensa força gravitacional do dinheiro e seus detentores, as “democracias” ocidentais”, hoje ainda mais pervertidas pelo “neo-liberalismo” mais obtuso, que geram todas as monstruosidades deste “brave new world”. Acontece é que, na minha opinião, a finança internacional, os seus mercados sem rosto e os seus empregados políticos – dispersos por governos e parlamentos – constituem uma outra espécie de fanáticos, agindo num horizonte temporal limitadíssimo e obcecados por objectivos imediatos, para lá dos quais nada conseguem vislumbrar, pelo que vão fabricando problemas que não prevêm e aos quais vão respondendo com idênticas limitações, desencadeando uma espiral de acontecimentos que a História nos ensina que culminam sempre numa qualquer catástrofe. Isto significa, sempre na minha perspectiva, que estamos perante planificações e actuações que se querem “globais” e “coordenadas”, mas são, efectivamente, fragmentárias e caóticas.
    As Brigadas Vermelhas, como o grupo alemão Baader-Meinhof, brotaram de uma intelectualidade burguesa desorientada, facilmente infiltrável e manipulável (recorde-se “A Terceira Geração”, de Fassbinder) – considero que algo de semelhante se passou, também, em Portugal, mas não me parece útil, aqui, insistir nesses esconsos da história recente -, mas não actuaram nem foram “utilizados” pelo poder de forma coincidente. As responsabilidades antecipadas pelo CLV, na resposta óbvia à pergunta referente ao “caso Aldo Moro”, acabaram por ficar, apesar dos esforços empregados na sua ocultação, bem evidenciadas.
    Mas, por isso mesmo, daí emerge a sua caracterização como algo bem delimitado, nas suas razões como nos seus objectivos.
    O que se passou em Paris decorre, em meu entender, de um outro contexto, potenciado pelo somatório de disparates cometidos pelo “ocidente”, mas não de uma conspiração similar à que o “caso Aldo Moro” claramente denuncia. Exactamente porque o somatório de asneiras acumuladas pelas “intervenções” ocidentais conseguiu criar um processo que já funciona por si, sem mais ajudas, tornando desnecessária qualquer maquinação mais retorcida. Creio mesmo que estes “doutores Frankenstein” já se aperceberam de que não era bem esta a criatura que engendraram, pois o seu domínio há muito lhes escapou, sendo substituído por uma cadeia de reacções destrambelhadas.
    Mas, reafirmo, esta é apenas a minha opinião, sobre este caso concreto, decorrente de uma análise dos factores que considero relevantes, filtrada por uma “grelha” que é a minha. Exponho-a, naturalmente, mas jamais a confundindo com “a verdade” – única, definitiva e incontroversa – que é pretensão (parva) que, felizmente, nunca me acometeu.

  4. Paulo Rato.

    Continou a referir que Charlie Hebdo é predominantemente islamofóbico, além de criticar também a cristã, mas raramente a judaíca.

    Mantenho que este atentado foi organizado por tropas de elite, objectivos ciblados, calma com que é executado,…

    A imbecibilidade que refere do ocidente, é fruto de uma estratégia para maior controle individual e justificação das suas acções

    1. Repetindo o que já disse em anteriores textos, nada justifica o assassínio de 12 pessoas. No entanto o Charlie Hebdo,por qualquer motivo que ignoro, ridicularizava particular e excessivamente, sobretudo de uma forma primária e obscena, o islamismo. Desconheço o pormenor referido por Octopus – de a religião hebraica ser poupada à ironia do jornal. Limito-me a reconhecer com este exemplo que aqui mostro, a boçalidade com que o islamismo é criticado.
      (Não foi possível reproduzir uma primeira página onde uma legenda destacada diz «LE CORAN C’EST DE LA MERDE». Convenhamos que não é uma forma de definir um livro sagrado. Não dá razão aos assassinos nem aos seus mentores, mas conhecendo-se a forma como vivem a sua crença, explica muito do que aconteceu. Oportunamente reproduziremos esta primeira página).
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  5. Tudo, sobretudo aquilo para que não há razão, tem “explicações”. Explicação não é sinónimo de justificação.
    Entre as explicações destes actos bárbaros pode estar a forma como alguns muçulmanos “vivem a sua crença”: explica, sem dúvida, o tipo de mediocridade intelectual (semelhante à defendida, tão imprevistamente para algumas boas almas, pelo Papa Francisco) indispensável ao cometimento desses actos. Como entre elas hão-de estar as asneiras políticas do “ocidente” (sempre norteadas pela estupidez dos interesses económicos), as condições de vida e educação nos bairros de onde provêm os homicidas, conceitos errados de “multiculturalismo” e outros factores. O QUE NÃO ESTÁ, de certeza, são as palavras ou os desenhos do Charlie-Hebdo, independentemente de todos os atributos que lhes queiram colar: se são mais agressivas com o Islão do que com outras religiões, se mais insistentes, se mais boçais (ou não – suspeito que, actualmente, a “intelligentzia” acha fino dizer que os autores do jornal estão ultrapassados e assim, coisa, sabe.. não tá nada “in”, em Cascais já nem se vende!…), o que quiserem.
    Desenhos e palavras não assassinam ninguém. Até porque podem ser combatidas com as mesmas armas: as contusões provocadas não acabam nas urgências hospitalares nem na morgue.
    Parece-me que há uma linha qualquer, a cuja existência não consigo conferir resquício de racionalidade, que me separa de uma esmagadora maioria de gente que crê estar do lado da defesa da liberdade de expressão, no que se me afigura ser só mais um exemplo de pura fé. Há quem acredite, portanto e “porque sim”, que há “livros sagrados” e que há “normas” para eles serem referidos.
    A questão é que, racionalmente, não sei por que raio devo considerar um qualquer livro “sagrado” e por que corisco devo obrigar-me a uma qualquer norma – definida por alguém tão “bicho da terra vil e tão pequeno” como eu – quando me refiro a um livro assim descrito…
    O que significa, para mim, que não tenho nem um vago vestígio de crença em deuses, almas (espírito é outra coisa, bem como espiritualidade) ou poderes extra-humanos, a frase “não é forma de definir um livro sagrado”? O que é uma “livro sagrado”? Quem decretou “urbi et orbi” e, pelos vistos, com obrigatoriedade de acatamento geral, a sua (dele) “sacralidade”? Quem está autorizado, a não ser por poderes que “crê” divinos (isto é, por si próprio), a cometer tão portentoso acto?
    Há livros que considero malditos, impróprios para consumo e que deveriam ser banidos pela Democracia (não queimados, mas reservados à investigação histórica): os que advogam princípios doutrinários que ferem a dignidade humana e cujos efeitos catastróficos já foram repetidamente confirmados, como, obviamente, o “Mein Kampf” (livro decerto sacratíssimo para os nazis); a que se acrescentam quaisquer outros que manifestem e defendam, sem margem para dúvidas, posições xenófobas, racistas, discriminatórias de outros seres humanos.
    Isto está mais que definido, esclarecido, lembrado e relembrado, mas é com demasiada frequência esquecido, em nome de um conceito suicidário de liberdade de expressão, muito em voga: é como se eu oferecesse as balas a quem, empunhando uma arma de fogo, pretendesse assassinar-me. E até há muito democrata capaz de me condenar este “excesso de zelo”… em nome da liberdade de expressão, apoiando-se, doutamente, numa célebre “frase de Voltaire” que o filósofo, aliás, nunca proferiu nem escreveu.
    Pelo contrário, e estranhamente, há quem se obstine em pôr limites à liberdade de expressão, quando nenhum ser humano, nem nenhum dos seus direitos estão ameaçados pelo seu exercício.
    O “desrespeito” por uma “doutrina religiosa” (estou careca de tentar explicar que os princípios de qualquer religião só fazem sentido para os que a seguem ou, mais vulgarmente, pensam segui-la) não impede ninguém de manter as suas crenças ou de praticar os seus ritos, não leva ninguém à prisão, à tortura ou à morte. O direito de todos a terem ou não uma religião, com tudo o que daí decorre, não é beliscado (nem sequer coçado) por referências, satíricas ou solenes, inteligentes ou estúpidas, pela maior ou menor frequência dessas referências, por a sua crença ser um alvo mais apetecível do que outras: nada, nada, nada! O que é ridículo, para mim, é o esforço de invenção das “ofensas”, mais umas réguas para medir as suas dimensões lineares e “ofensómetros” para lhes avaliar o peso, a intensidade, a área, o volume…
    Em suma, o tal “desrespeito” NÃO TEM CONSEQUÊNCIAS físicas para ninguém.
    Mesmo quando uns tantos (demasiados, pelos vistos) querem, por força, agitar dores imaginárias, porque são tontos, oportunistas, ou de fé, afinal, tão frágil que julgam ter de se sentir afrontados, substituindo-se à divindade em que crêem crer – o que, convenhamos, é uma avantajadíssima falta de respeito por alguém que consideram “infinitamente superior”! – tais “consequências” são irrisórias e tanto menos justificáveis quanto mais o “sofredor” acredite na superioridade da sua crença, que, se verdadeira, seria inatingível por qualquer mesquinho e humaníssimo acto ou palavra. Tais susceptibilidades acabam por não se distinguir das dos fanáticos de clubes de futebol, face às invectivas dos adeptos de clubes rivais: em substância e intensidade, não se diferenciam e, em boa verdade, não há motivo para se diferenciarem, pois relevam da mesmo tipo de imbecilidade humana, que vive estas diferentes circunstâncias com a mesma demencial e fabricada intensidade.
    Não há nada que justifique estas queixas e queixinhas, que acabam SEMPRE, mesmo que os seus autores bradem, a cada passo, não ser essa – nem de longe! – a sua intenção, por retirar alguma da culpa que recai sobre ao autores de actos brutais e intoleráveis e por desviar parte das responsabilidades, que por inteiro lhes cabem, para as suas vítimas, essas muito realmente lesadas (e mortas, e estropiadas), com tiros e bombas, mas também chicotadas, lapidações, excisões clitorídeas, violações e etc., sem esquecer as históricas fogueiras, torturas variadas e confisco de bens, que outra coisa mui sagrada – a Santa Inquisição (em que dia se celebrará esta santinha?) – tão devotamente distribuiu ao longo de muitos séculos.
    Estes argumentos “prudenciais” e subliminarmente ditados por uma cultura milenar de medos e reverências só não me fazem rir porque significam que o conceito de Liberdade, que implica a irreverência e a recusa de qualquer reduto onde o “sagrado” ou o “venerável” se acoitem, ainda está muito longe de ser satisfatoriamente assimilado, de modo a inviabilizar o retrocesso que agora espreita de novo e já ousa contagiar os que têm por dever defendê-la.
    LIBERDADE é LIBERDADE. O “respeitinho” não cabe lá dentro.

    1. Caro Paulo, po vezes fico na dúvida se falamos a mesma língua – Então o meu comentário não começa por dizer que explicar não é justificar? A meu ver, nada do que o teu extenso comentário diz constitui qualquer avanço na discussão – temos aqui, em artigos assinados e em editoriais, denunciado, quanto a mim de forma mais clara e frontal do que a que usas, o papel deletério das religiões. E não temos poupado nenhuma das chamadas crenças de Abraão – temos denunciado os arranjos cosméticos que os livros ditos sagrados têm sofrido ao sabor dos interesses seculares e temos especificado o retrocesso civilizacional que o fanatismo islâmico tem provocado na sociedade muçulmana – mais retrógrada actualmente do que há um milénio atrás. Temos em numerosos posts denunciado a monstruosidade da Declaração Balfour que, com base em historietas dos tais livros sagrados, espoliou um povo, o expulsou das suas terras e permitiu que os judeus se apossassem de algo que nunca lhes pertenceu. Temos verberado o escândalo permanente em que vive o Vaticano, as suas ligações às mafias, a canonização de crápulas como é o caso de Pio XII, Eugenio Pacelli, aliado de nazis e fascistas, testemunha impávida do Holocausto. Não me recordo de ver comentários teus a estas denúncias frequentes e inequívocas. Não nutrimos a menor simpatia pela religião islâmica ou por qualquer outra. Consideramos que a cleresia islâmica é, de maneira geral e salvaguardando eventuais excepções, um dos grandes factores da fanatização demente de alguns dos seus fiéis. Não privilegiamos, no entanto, os sionistas ou os mafiosos vaticanos. Coisa que o Charlie Hebdo parece ter feito. Se assim é – não justificando, explica.

  6. Carlos, caríssimo, não duvido de que falamos a mesma língua. Parece é que não interpretamos da mesma maneira o que através dela se veicula.
    De facto, o teu comentário “não começa por dizer que explicar não é justificar”. O que dizes é: “nada justifica o assassínio de 12 pessoas”. Para, mais adiante, enveredares pelo estranho caminho (estranho, precisamente por seres tu a tomá-lo) da aceitação de que há “formas” que não podem ser usadas para definir um “livro sagrado” e cujo uso “explica muito do que aconteceu”. Ora, esta “explicação” traduz-se, a meu ver, num “mas”, que vem acrescentar-se ao “nada justifica”, fragilizando a sua assertividade.
    O meu comentário tem a ver unicamente com essa, para mim, inaceitável aceitação de um pré-estabelecimento de “formas” usáveis e não usáveis, inelutavelmente limitadora da liberdade de expressão. Não tem nada a ver com o conteúdo e a história de qualquer religião, em particular. O pouco que evoco dessa história serve apenas para ilustrar a diferença entre as consequências físicas, reais, objectivas e efectivamente lesivas de direitos dos outros, de acções de prosélitos religiosos e a total ausência de consequências desse tipo, decorrentes de palavras, desenhos ou quaisquer outras formas de expressão de ideias e opiniões. Creio que é assaz difícil contradizer esta disparidade.
    Ainda hoje, em entrevista à RTP Informação, o advogado e professor Paulo Saragoça da Matta, a propósito da legitimidade do direito de a defesa de um arguido pôr em causa o próprio sistema judicial (incluindo a legislação e as suas instituições) referia que o primeiro dos direitos do cidadão era o de “dizer não”. O direito de cada um a decidir a forma de “definir” – ou tratar, ou referir-se a – uma religião e seus dogmas ou interpretações deles, bem como qualquer instituição (política, judicial, administrativa…), é parte integrante do direito enunciado por Saragoça da Matta, que citava, aliás, uma obra dum estudioso do Direito, cujo nome não fixei.
    O meu comentário, portanto, não tem nada a ver com o que tenha sido publicado no blogue sobre os malefícios das religiões, não sendo de estranhar que não tenha comentado os artigos que li (muito provavelmente, não terão sido todos) relacionados com esse tema, se nenhum deles me suscitou qualquer discordância, pelo menos suficiente para justificar uma intervenção. A haver discordâncias, tratar-se-ia de um outro debate, por onde não considero pertinente enveredar, neste momento e neste contexto, no qual, a par dos malefícios, teria de analisar os benefícios dos conteúdos filosóficos e/ou da influência social, quer de doutrinas como o cristianismo (que parte de elementos culturais, geográfica e civilizacionalmente dispersos, que lhe são anteriores), quer de vivências, temporariamente delimitadas, de notável abertura e tolerância, de outras religiões, que não só as de linhagem abraâmica, quer do contributo de importantes intelectuais dessa linhagem, de origem judaica, cristã ou islâmica, crentes ou não, para a evolução do pensamento, das filosofias, das civilizações que se sucederam, até às que modernamente subsistem e nas quais, historicamente, nos integramos.
    O que interpelei são interpretações que considero gravemente restritivas (e perigosas) do conteúdo da liberdade de expressão. São as referências a “sacralidades” insusceptíveis de fundamentação racional. São explicações muito parciais e que se confundem, inevitavelmente – ainda que inadvertidamente –, com a tolerância do intolerável.
    Neste âmbito, o que sustento (e acreditava tê-lo feito com clareza) é que o que o “Charlie-Hebdo” fez ou deixou de fazer não justifica, NEM EXPLICA, a actuação de fanáticos homicidas. E, naturalmente, não repetirei argumentos já apresentados.

    1. Parece-me que estamos num diálogo de surdos. Tenho por diversas vezes elogiado os teus comentários, alguns deles criticando desfavoravelmente opiniões minhas. Neste caso, no entanto, parece-me que o teu comentário configura uma especulação sem sentido. A importância de ter publicado, aqui e noutros locais, dezenas de textos contestando as religiões, abraânicas ou não, apenas é referida para situar a minha afirmação de que as caricaturas do Charlie Hebdo me parecem excessivas na linguagem usada (e até desprovidas do humor que os cartoons costumam veicular), é porque, sempre tenho defendido, que as ideias se contestam, mas as pessoas que as defendem devem ser respeitadas. O Islão não é só constituído por tarados fanáticos; há gente honesta e há gente que condena o fanatismo e o repudia. Diria que os fanáticos assassinos são uma minoria. Tal como na igreja católica nem todos os crentes são mafiosos ou entre os seguidores da Torah, há sionistas e anti-sionistas. Dizer num cartoon que o Corão é uma merda, para além de revelar falta de criatividade, insulta centenas de terroristas e milhões de crentes pacíficos- E não justificando os assassínios, pois nada os pode racionalmente justificar, explica-os, sabendo-se que os fanáticos são tudo menos racionais. Quem vai passear numa campina ribatejana vestido de vermelho, sujeita-se à investida dos touros que por ali andem a pastar. Ao touro, manipulado geneticamente para ser agressivo, não interessam as rezões do passeante – sejam elas clubísticas ou partidárias – aquela cor provoca a investida. Explicação e não justificação, pois para a irracionalidade não há justificação racional. Invoquei o que tenho escrito porque tenho afirmado à saciedade que a sacralidade religiosa nada significa para mim – em nome dos livros (ditos) sagrados não há o direito de matar 12 pessoas, nem de roubar as terras a milhões de seres humanos, de os bombardear e chacinar. A indignação pelos crimes de Paris, pressupõe indignação pelo genocídio que Israel está a levar a cabo na faixa de Gaza. Sem os assassinos sionistas, não haveria os assassinos jihadistas. Por mim, a explicação está dada. De me justificar, não preciso.

  7. Carlos, não há aqui surdez nenhuma. Simplesmente, em relação a este assunto, temos opiniões diferentes sobre várias das suas componentes. Quando se chega a um ponto em que ambos os interlocutores têm opiniões firmes e díspares, o debate não tem por onde prosseguir: aceitam-se as diferenças e passa-se adiante. Quanto aos que “assistem” (isto vale para debates por escrito ou “ao vivo”), formarão as suas opiniões, se for caso disso, sendo ou não influenciados pelo que lêem ou ouvem, avaliando a coerência, a pertinência e a consistência do que foi exposto pelos intervenientes no debate e tirando conclusões que uns acharão certas, outros erradas e ainda outros sem relevância. É isso o debate livre.
    Mas confesso que, neste momento, estou um pouco confuso. Depreendi (com já afirmada surpresa) da tua afirmação “Convenhamos que não é uma forma de definir um livro sagrado”, que consideravas haver “livros sagrados”, que devem ser referidos com uma certa deferência, para aquém da qual surge um qualquer ultraje, suponho que não aos livros, propriamente ditos, mas aos indivíduos ou grupos que os têm por “sagrados”.
    Eu não.
    Eis uma primeira discordância.
    Só que, neste último texto, esclareces que a “sacralidade religiosa” nada significa para ti (o me parece bem mais de acordo com as ideias que te conheço). Ora, se não reconheces, tal como eu, essa sacralidade, onde reside o insulto aos que crêem nela?
    Há, pois, uma discordância, mas não consigo situá-la, neste paradoxo.
    Reitero a opinião de que considero as susceptibilidades dos “crentes” ridículas e do mesmo valor que as clubísticas. Se respeito os outros, quero ser respeitado no mesmo grau. Mas são “os outros” que eu respeito, o direito a terem “as suas ideias e as suas crenças”, a agirem de acordo com elas, desde que não ponham em causa a liberdade nem os direitos de ninguém. Se me permitirem entrar num templo de uma qualquer religião, não irei, dentro de um espaço que, para os seus fiéis, é sagrado, tomar atitudes que infrinjam as regras que estabeleceram para esse espaço, embora, certamente, delas discorde: tenho a opção de não entrar. Nada disto, porém, pode confundir-se com respeito “pelas ideias” ou “pelas crenças” desses outros.
    Tu consideras que os indivíduos se amalgamam com as suas crenças, pelo que não acatar os ditames das respectivas doutrinas ou menosprezá-los é insultar os próprios crentes.
    Temos aqui uma segunda divergência.
    Os militantes e apoiantes dos partidos que nos desgovernam – não só em Portugal – têm direito às suas ideologias (ou que dizem ser as suas). Respeito esse direito. Não respeito, nem um bocadinho, as ideologias. E não vejo absolutamente nada de substancialmente diferente entre uma ideologia política, cujos fiéis acreditam apresentar as melhores soluções para as questões da “polis”, e uma ideologia religiosa, cujos fiéis acreditam representar a salvação das suas “almas” e não raro confundem e misturam com receitas para a sociedade. Ambas são um mero produto da mente humana. Nada permite valorizar mais uma do que outra. O facto de as ideias políticas se confrontarem publicamente – em Democracia! – e serem objecto periódico de sufrágio pelos cidadãos, enquanto as crenças não podem – em Democracia! – opor-se entre si, não desmente a sua origem comum. Se eu gozar, inteligente ou estupidamente, com uma ideologia política, estou a faltar ao respeito aos seus seguidores?
    Estou-me nas tintas para que alguém goze seja com o que for que eu aprecie, estime, tenha por orientação. A não ser que insinue uma mentira, uma calúnia, algo que me lese efectivamente, não me fará cócegas em susceptibilidades vácuas. Só me soa o sinal de alarme, única excepção, se se tratar da propaganda de ideias cujo objectivo seja limitar ou destruir esse núcleo fundamental que são os direitos humanos, o que, aliás, raramente se disfarça de ironia ou sátira, mesmo “verbalmente violenta”.
    Para o que não me estou nas tintas é para qualquer acto ou doutrina que pretenda impedir-me de exercer os meus direitos, em toda a sua plenitude e… sem “mas”.
    (A propósito, seguindo o teu próprio raciocínio, seria ofensivo – e perigoso – comparar toiros soltos na campina, manipulados geneticamente, com islamistas fanáticos, conduzidos pelo que treslêem no seu “livro sagrado”…)
    Mas, aproveitando a imagem, diria que não tenho qualquer interesse em ir passear no meio de bestas bravas, que estão mui sossegadas em seus pastos. Se, no entanto, alguém me colocasse, de helicóptero, num recinto “seguro”, dando-me todas as comodidades, mas limitando-me movimentos e contactos, pela presença de touros bravos e pelo medo deles, garanto que tudo faria para encontrar instrumentos adequados e lutar pela minha Liberdade, eventualmente abatendo algum feroz, mas inocente animal. Se tivesse êxito, não me esqueceria de procurar o autor do sequestro. Para uma breve explicação. Sem ofensas, claro…
    Para o que debatemos, não tem qualquer importância se o que se exprime, qualquer que seja o veículo utilizado, é inteligente ou estúpido, tem ou não tem graça: não só, também aqui, as opiniões inevitavelmente divergem, como também, se a expressão da estupidez, na sua infinitude (Einstein dixit), fosse rigorosamente avaliável e interditável, 99% do que é expresso seria banido…
    A liberdade de expressão não tem nada a ver com tais valorações.
    A liberdade de expressão vale para os mais diversos graus de valor intelectual do que se exprime, até porque a análise pressuposta seria sempre humana, donde, subjectiva e falível… Sabê-lo não me interdita a avaliação do que leio, oiço e vejo; nem que fundamente e sustente a minha avaliação. Só não me autoriza a tomá-la como verdade absoluta e irrefutável: isso cabe aos deuses, em quem não acredito…

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