Tudo parece pequeno na Dinamarca, tanto o território como a sua discreta e ancestral Monarquia… Todavia, esta nação pode orgulhar-se de possuir uma História heróica e uma Cultura de profunda indagação filosófica.
Iniciemos a viagem, pela alma e pela inteligência… O dinamarquês mais célebre do mundo deve a sua formidável existência póstuma a um inglês (Shakespeare): – Na entrada norte de Öresund, levanta-se Elsinore, o local da tragédia de Hamlet, Prince of Denmark. Poém, eu creio que a Dinamarca não necessita de recorrer ao espírito criativo do dramaturgo inglês, para se erguer na Europa, como terra habitada por um povo de nobre civismo, e pátria de brilhantes intelectuais.
O pequeno reino, constituído por 406 ilhas, das quais só 89 são habitadas permanentemente, com o seu território quase ao nível das águas do Mar do Norte e do Mar
Báltico (o ponto mais alto da Dinamarca eleva-se apenas 171 metros acima do nível do mar), resolveu o problema das suas gritantes carências, exportando sofisticada tecnologia, serviços, ideias, literatura e filosofia. Na verdade, apesar de ter uma agricultura de difícil manutenção, mas que subsiste graças a engenhosos métodos, bem como a quase completa ausência de matérias-primas, a sua produção industrial beneficia de uma longa e comprovada imaginação criativa dos produtores: – No mobiliário, nas pratas de Georg Jensen, nas porcelanas da Real Copenhaga e, o mais internacional produto, o brinquedo de construções Lego (nascido numa modesta oficina de marceneiro). Além de trabalhar no campo científico e laboratorial para indústria farmacêutica (convém saber que a Dinamarca é a maior exportadora mundial de insulina), também exporta a sua engenharia de pontes e portos, como também exporta a sua imaginação patente, por exemplo, no traço da arquitectura mais arrojada, como é a Ópera de Sydney (Austrália), obra do arquitecto dinamarquês Jørn Utzon.
País onde o «Estado-Providência» não foi destruído, mas remodelado de acordo com as capacidades reais da nação, sem dependências de ajudas externas, o sistema político, responsável e pouco amigo de escândalos e demagogias, mantém níveis de sanidade mental na política invejáveis (sobretudo para países do sul da Europa, como Portugal), através de governos de coligação, com grande sentido do serviço público (da direita à esquerda), eleitos por um sistema de representação proporcional, dando um alto valor à iberdade individual, conseguindo assim manter o equilíbrio institucional sem antagonismos, em nome do bem comum.
Exemplo do país onde impera a ética protestante (grande parte da população é formada segundo a doutrina luterana), pouca gente notará que os dinamarqueses mais conhecidos e lidos em todo o mundo culto, não poderiam ser mais diferentes nem mais contraditórios nas suas origens, vidas, pensamento e destino humano. Sendo, por isso mesmo, o alfa e ómega da própria Dinamarca. Refiro-me, bem entendido, a Hans Christian Andersen (1805-1875) e Sören Kierkegaard (1813-1855).
Andersen, o autor dos Contos (1835-1872) para crianças é um poeta que se compraz com as suas felizes fantasias e histórias fabulosas. Kierkegaard é o teólogo trágico, poeta também a seu modo, mas somente para se atormentar com problemas mais graves e dolorosos em busca da fé e da autenticidade do cristianismo. Andresen escreveu somente para crianças e para todos aqueles que sabem defender a poesia da sua infância até à mais avençada idade. Kierkegaard escreveu para adultos aterrados com a ideia de pecado e da morte, para cristãos com pouca fé. O que ele pretendeu foi que acima de tudo não se procure a fé e a verdade pelo abandono do humano, afirmando na sua obra O Desespero Humano que o «cristianismo do Novo Testamento não existe», querendo dizer com isso que os homens não vivem o cristianismo, que lhe permanecem exteriores, infelizmente.
O mundo de Andersen vive numa atmosfera de luz e alegria, de bondade cordial e afável ironia. O mundo de Kierkegaard é um mundo de angústia insistente, de dilemas, da busca da opção absoluta. Poucos em Portugal conhecem a sua obra (além dos grandes mestres, Leonardo Coimbra e Adolfo Casais Monteiro), que nos revela a exigência, para consigo própria, duma alma que se deve comportar consoante o seu próprio pensamento, que deve viver com continuada e conquistada harmonia, entre actos e pensamentos.
Se um criador de personalidades tivesse querido fazer nascer ao mesmo tempo e no mesmo país dois homens que fossem por natureza, obra e génio, o contrário um do outro, não teria conseguido melhor que o antagonismo entre o pensamento de Andresen e o de Kierkegaard. E, contudo, ambos são filhos da Dinamarca, ambos filhos da primeira metade do século XIX, ambos viveram em Copenhaga e ambos beberam as primeiras letras com a doutrina religiosa de Lutero.
A pequena Dinamarca produziu duas “estrelas” diversas, mas que conseguem ainda brilhar ainda hoje no seio da Europa da Cultura livre, da arte independente e do pensamento inquieto, da Europa livre de câmbios, de prestamistas, de agiotas, de abstracções monetárias e dívidas fictícias. Por tudo isto, e muito mais, penso que valerá a pena que o Portugal que pensa se preocupe com a vida, com os povos e as culturas dos países que vale a pena conhecer!
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Ilustrações:
O autor desta crónica (JPS) junto ao monumento a Andresen, na cidade de Copenhaga, Dezembro de 2004.
Igreja (luterana) de Grundtvig, em Copenhaga, Estranha construção do arquitecto P.V. Jensen Klint, um dos mais notáveis da Dinamarca nos princípios do século XX. Esta igreja deve o seu nome ao bispo (1783-1872)N.F. S. Grundtvig (que esteve na origem da renovação da Igreja Luterana da Dinamarca).

