GIRO DO HORIZONTE – SER E/OU NÃO SER…. CHARLIE – por Pedro de Pezarat Correia

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            Tenho lido e refletido sobre o (muito) que vai passando ao meu alcance sobre o massacre no Charlie Hebdo. É uníssona a indignação e condenação veemente, à qual me associo, evidentemente. O que não impede que uns se solidarizem proclamando “je suis Charlie” e outros igualmente solidários afirmem “je ne suis pas Charlie”. Os argumentos são conhecidos, têm tido eco nas páginas de A Viagem dos Argonautas e não vou repeti-los. Nem tomar partido. A própria imponência das manifestações de ontem, domingo 11 de janeiro vêm dar razão a uns e a outros, porque se a portentosa e diversificada participação reforça o apelo implícito no “je suis…”, a presença de personagens pouco recomendáveis e que trataram de oportunisticamente aproveitar a onda justifica o “je ne suis pas…” Isto é, pode estar-se com o “je suis” e com o “je ne suis pas”, num e noutro caso com um “mas”, com reservas, ao contrário do que pretendem muitos dos subscritores de uma e outra posição que não admitem um mas.

            Em 27 de outubro do ano passado intitulei a minha participação no Giro do Horizonte de “Estratégia do caos” e referia-me, exatamente, ao contributo (néscio ou deliberado, não interessa agora) que os senhores do Ocidente têm fornecido ao avanço do extremismo fundamentalista islâmico e à desastrada estratégia global para lhe fazer frente. Quando se confronta com um epifenómeno como o do Charlie Hebdo mostram-se surpreendidos. Mas surpreendidos como? Depois de Nova Iorque, de Londres, de Madrid, de Bali, de Moscovo, da Nigéria, depois das trágicas intervenções nos Balcãs, no Iraque, na Síria, na Líbia, depois das conivências em Gaza, no Egito, no Bahrein, surpreendidos com quê? Pelos ataques à liberdade de expressão? Pelas ameaças à segurança?

            O ataque ao Charlie Hebdo é, certamente, um ataque à liberdade, à liberdade de expressão em particular e é um problema de segurança. Duas questões que estão profundamente associadas nas sociedades modernas, porque não há liberdade sem segurança como não há segurança sem liberdade. Mas mais do que nunca este princípio tem de ser interpretado numa dimensão holística, a minha liberdade passa pela tua liberdade, da mesma maneira que a minha segurança passa pela tua segurança. Liberdade e segurança, ou são globais, ou não são.

            O problema é que estamos no seio de um conflito, de um conflito global de novos contornos, sobre o qual já muito tenho escrito, que não envolve apenas o mundo islâmico mas que tem tido especial incidência no mundo islâmico. É por vezes identificado com o conflito norte-sul, mas não no sentido tradicional de um norte e um sul divididos pelos paralelos geográficos. Philippe Engelhard chamou-lhe a terceira guerra mundial e que já teria começado, que se desenvolve segundo dois eixos, um no interior das nações opõe pobres e ricos, excluídos e incluídos, através da incivilidade generalizada e da violência gratuita; o outro opõe Estados à ordem mafiosa transnacional. Não é uma guerra aberta mas uma violência insidiosa e generalizada que a máfia e o terrorismo desencadearão contra a sociedade com “tropas” que recrutarão entre os excluídos e marginalizados. (La Troisième Guerre Mondiale est commencée, Arleá, Paris, 1999, p. 144). Mary Kaldor considera que «[…] se desenvolveu um novo tipo de violência organizada […] que é um aspeto da atual era globalizada. Chamo a este tipo de violência nova guerra.» (New & old wars – organized violence in a global era, Polity Press, Cambridge, 1999, p. 1). E Martin Van Creveld diz que «No futuro, a guerra não será função dos exércitos, mas de grupos, hoje chamados terroristas, guerrilheiros, bandidos, assaltantes de estrada, mas que procurarão, sem dúvida, títulos mais oficiais.» (La transformation de la guerre, Éditions du Rocher, Paris, 1998, p. 251). Estes conflitos desenvolvem-se preferencialmente no Estados falhados e, tragicamente, o Ocidente tem contribuído objetivamente para proliferação dos Estados falhados. Com a entrada no século XXI, à Somália, que era o seu paradigma, veio juntar-se o Iraque, a Síria, a Líbia e em todos eles o Ocidente tem tido o seu papel.

As ações que têm abalado o mundo, um pouco por toda a parte, caraterizam-se pela sua diversidade, atos de terrorismo puro seletivo ou indiscriminado, guerrilha, banditismo organizado, próximas da guerra convencional, mas todas se inscrevem no tipo das novas guerras que Mary Kaldor identifica. Há alguma dificuldade em integrar nestes tipos de conflitos a ação contra o Charlie Hebdo, que alguém já preferiu de associar aos atos de “vendeta” mafiosa, por terem motivações de vingança. Sofia Lorena, numa reportagem de Paris no Público de 9 de janeiro, citava uma jovem francesa que definia este tipo de ações com o imaginativo termo de “allahshnikov”. A verdade é que a forma como os irmãos Kouachi atuaram, o manejo das armas, a movimentação no terreno, a determinação, o sentido do objetivo, denunciam treino militar e eficácia tática. E não é difícil integrar estas e as muitas outras ações que se têm verificado num planeamento estratégico amplo, seja da Al Qaeda, do Estado Islâmico ou doutra entidade, que passa pela provocação de setores europeus racistas, xenófobos e mais intolerantes, que desencadearão ações de represálias e exclusão contra as comunidades imigradas, já muito numerosas, que por sua vez responderão com levantamentos organizados e anarquizantes. Estará criado o cima para a extrema direita captar apoio popular, chegar ao poder e lançar uma campanha generalizada de perseguição e exclusão das minorias.

Não será pacífico e não é um cenário animador. Voltarei ao tema.

12 de janeiro de 2015

1 Comment

  1. Quem está recordado do assassinato tecnicamente perfeito de Aldo Moro e dos seus acompanhantes? Dessa vez os seus autores receberam o nome, aliás conveniente, de brigadas vermelhas. Desta, os seus mandantes, como chamar-lhes-ão?CLV

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