Selecção, tradução e nota final por Júlio Marques Mota
Homenagem a Bernard Maris, vítima da chacina de “Charlie Hebdo”
Robert Steuckers, Hommage à Bernard Maris, victime de la tuerie de « Charlie Hebdo»
Revista Metamag, 11 de Janeiro de 2015
Existem situações esquisitas na vida. A minha sogra morreu em plena rua em Madrid, no dia 29 de Dezembro, mais exactamente na Puerta del Sol, a cerca de dezenas de metros do famoso e terno pequeno urso de bronze apoiado sobre o seu arbusto, de que lambe as folhas . Tivemos que conseguir neste fim de ano encontrar bilhetes de avião para a capital espanhola: encontrámos-los, in extremis, mas ao preço de ter que andar a vaguear nas ruas de Charleroi durante um dia inteiro, com um frio bastante intenso e um tempo demasiado húmido. Antes de Natal, os meus passos tinham-me conduzido às Galerias da Rainha, à Livraria Tropismes, onde queria encontrar o livro de um certo Bernard Maris, pseudónimo “Onc’ Bernard” nas páginas de Charlie Hebdo, consagrado a Maurice Genevoix e Ernst Jünger (*). De passagem, compro outro volume cujo título me tinha intrigado, na sequência de uma curto recensão sobre o blog http://metapoinfos.hautetfort.com: Houellebecq economista (**). Levo este volume no bolso na minha viagem a Madrid e leio-o quase que com um só olhar , de tal forma ele está tão maravilhosamente escrito, de uma limpidez e de uma liquidez das mais agradáveis, sobre os sofás de um Irish Pub de Charleroi onde beberiquei um Celtic Cider e conversei com o rapaz, um genuíno Irishman, seguidamente num tea room muito simpático da estação, onde uma encantadora jovem mulher nos serviu um excelente chá verde e, por último, sentado sobre um banco do aeroporto. Houellebecq economista é breviário para todos nós que abraçámos esta profissão desde um famoso discurso de Guillaume Faye em Paris em 1979, que “a economia não é o destino”.
Bernard Maris vê em Houellebecq o homem que denuncia a hegemonia contemporânea da economia, a que nos transforma “em dominados”, em cães similares ao que conversa com o lobo na fábula de Lafontaine. A economia, acrescenta, condena “à insatisfação à perpetuidade”, porque o dominado – cuja dependência é doravante o seu único horizonte- recebe em porções mais que côngruas salários que mal lhe permitem sobreviver, ou seja, de manter a cabeça fora da água. Os personagens de Houellebecq, que finalmente nos assemelham a nós todos, vivem o medo que decorre desta insatisfação perpétua, vivem este medo de não sobreviver, e interiorizam-no , inibindo assim todos os reflexos audaciosos que tornariam o mundo mais fascinante. Como os insatisfeitos da Belle Époque, entre os quais Arthur Moeller van den Bruck, Houellebecq espera o advento das poetas e dos artistas, figuras salvadoras num mundo que se vira para o niilismo, porque o homem tem “direito à beleza”. E como Orwell e Michéa, Houellebecq apela à common decency, aquela que encarnava o seu próprio pai, aprendiz desde a idade dos catorze anos.
Bernard Maris era o genro de Maurice Genevoix, era o marido da filha deste, Sylvie. É esta a razão que o levou a escrever um ensaio sublime sobre os dois combatentes de 1914-1918, no ano do centenário desta carnificina que devastou a Europa. Após a morte trágica de Maris em Paris, a 7 de Janeiro de 2015, tive nas minhas mãos esta obra, como “jüngeriena” de longa data, germanista que ainda prepara e sempre alguns textos sobre o autor de Falaises de marbre (Penhascos de mármore) mergulhado que ele anda nas biografias fascinantes de Schwilk, de Ipema e de outros. As primeiras páginas invadiram-me de uma emoção indescritível: Maris era um irmão em espírito, um adolescente que frequentava em Toulouse o alfarrabista Georges e este apenas aconselhava bons livros às crianças aventureiras e inquietas que vinham solicitar o seu saber. Georges tinha-lhe feito ler Jünger que Genevoix nunca tinha abordado. Este primeiro capítulo intitula-se “nós que lemos Ernst Jünger”…
Maris recebe pela grande imprensa banalizada, alinhada, conformista, a etiqueta fácil de ‘esquerda’ porque ele era membro activo na redacção do Charlie Hebdo. Eu apanhei a etiqueta de ‘direita’ pelas razões erradas que os meus amigos sabem e que eu tenho que, nos próximos dias, ‘justificar-me’ para alguns horríveis esbirros de uma “Inquisição boba”, enviada por um ignorante. Os dois livros que acabo de ter entre as mãos mostram-nos, mais do que nunca, que este vocabulário maniqueísta não corresponde a nenhuma realidade tangível.
Maris disse escrever os seus textos no escritório do falecido Maurice Genevoix e também relata uma conversação entre Sylvie Genevoix-Maris e Julien Gracq, amigo de Jünger. Do seu escritório, herdado do autor de La Dernière harde (O último rebanho)- um dos presentes da minha comunhão solene – Maris vê correr lentamente o Loire. Gracq também vê o trajecto do rio tranquilo, que eu admirei este verão, sobre a estrada para Espanha, ainda doente e instável, inclinando-se sobre uma bengala que se termina numa cabeça prateada, capturando de relance um flamingo branco muito bonito. Ainda um sentimento comum, com o desgosto do economicismo, o jungerismo incorrigivel, noites literárias de alunos adolescentes e jovens, tão semelhantes às nossas… Um irmão em espírito, desconhecido para mim até 30 de Dezembro de 2014, foi-se, um não-conformista que orava como eu para que venha o reino dos poetas e dos artistas, o “Terceiro Reino”’ de Espírito Santo de Joachim de Fiore, de Dimitri Merejkovski e de Arthur Moeller van den Bruck. E seguramente de Ernst Jünger…
Robert Steuckers, Hommage à Bernard Maris, victime de la tuerie de « Charlie Hebdo», texto disponível em :
http://vouloir.hautetfort.com/archive/2015/01/11/hommage-a-bernard-maris-victime-de-la-tuerie-de-charlie-hebd-5531570.html
(*) Bernard Maris, Houellebecq économiste, Flammarion, Paris, 2014.
(**) Bernard Maris, L’homme dans la guerre – Maurice Genevoix face à Ernst Jünger, Grasset, 2013.
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Pela parte que me toca relembro Bernard Maris num colóquio que creio ter sido em Toulouse no final da década de 90, onde admirei tanto o homem de ciência como o pedagogo que manuseia conceitos difíceis e no-los transmite com uma clareza que até incomoda. Como num outro plano o fazia igualmente Francisco Pereira de Moura, em Portugal.
Admirável uma lição que de Maris recebi sobre a teoria neoclássica, sobre a teoria do equilíbrio geral, uma lição a não esquecer. E não esqueci. Desse tempo e desse colóquio quis comprar o seu livro L’économiste, en cette fin de XXe siècle mas como não tinha desconto deixei-o para mais tarde. Num segundo colóquio em que participei em França pela década de 90 qui-lo comprar, com ou sem desconto, mas era obra não disponível. Deixei passar o tempo e esqueci-me do livro que identifico agora pela capa e que uma vez disponível, como o está actualmente, é livro que irei ler e que recomendo a todo o economista que se preze. Deste livro uma pequena recensão:
« O economista, neste fim do século XX, tem, na nossa sociedade, o estatuto que tinha o médico no século XVII. Os Giscard, Barra, Stoleru, Bérégovoy, Attali e outros Fabius são os descendentes directos do Diafoirus pai e filhos. Nós duvidamos disso, Bernard Maris demonstra-o, com provas na mão.
Nascida da utilidade, a economia tornou-se a ciência da inutilidade. Uma falsa ciência de resto, que é sobretudo o exercício preferido dos casuístas contemporâneos. Como os seus religiosos antecessores, estes falam-nos sabiamente das coisas inverificáveis. Instalaram-se progressivamente numa função mágica, substituindo o discurso político pela ditadura do número e secando assim o debate democrático.
Bernard Maris critica os sofismas, os lugares comuns, as aproximações, as contraverdades que constituem a trama dos oráculos que nos fornecem os economistas de hoje. Uma obra salubre e reconfortante. Por fim, com Maris podemo-nos rir, sem nenhuma timidez, dos nossos distantes e soberanos mentores neoliberais . “
Uma obra a ler, um autor a não esquecer.
Júlio Marques Mota


