Meu caro editor de A Viagem dos Argonautas
A Europa vive actualmente um momento extraordinariamente difícil, atravessada por uma enorme e profunda crise, a que se veio agora juntar a chacina sobre Charlie Hebdo. Muita gente morreu, muitas famílias ficaram destruídas. Uma enorme manifestação se organizou, uma manifestação histórica em que à frente estiveram os hipócritas responsáveis exactamente pela crise que atravessamos e portanto os principais responsáveis pelo que se passou, para além de e necessariamente dos criminosos directos. E tiveram a pouca vergonha não de a vir viver mas de a percorrer durante umas centenas de metros e à frente das famílias enlutadas. O espectáculo must go on diz-nos Freddie Mercury d e a sua banda Os Queen. Mas aí é o espectáculo, não é a vida, não é um país que é agredido, não é sobre gente que é morta. Respeito por todos é o que se exige, não o espectáculo mediático para se obter ganhos políticos. Assim terá sido para isso que vieram e não eram lá precisos. Mas sabem todos bem que não há almoços grátis e que o crime compensa, sobretudo quando não se agride quem os comete à escala planetária, como é o caso da alta finança e com esta tão bem defendida por um David Cameron ou por um Jean-Claude Juncker e tão respeitada por um François Hollande ou Merkel.
O que agora venho propor são duas series, uma série de textos directamente ligados a Charlie Hebdo e uma outra série que aparentemente nada tem a ver com o chacina havida, composta por uma intervenção de Roosevelt explicitando o que deve ser a atitude de um dirigente político, o oposto do que assistimos hoje na Europa, e dois textos sobre os últimos dias da República de Weimar, dadas as semelhanças que me aprece existir entre a realidade de então e a nossa situação actual. Dois textos sobre a República de Weimar onde emerge uma figura que bem poderia ser equivalente à de Roosevelt, o general Kurt Von Schleicher, se este não tivesse sido politicamente abatido pelos traidores de então, entre os quais Von Papen, o marechal Hindenburg e muita gente do Partido Social Democrata de então. Mas até a este nível os paralelos são evidentes com o que se passa hoje. E não é preciso pensar muito tempo, qualquer que seja o país na Europa, para encontrar as equivalências.
Repare-se. Morreu gente barbaramente assassinada em Paris. E quantos milhares terão já morrido, quando milhares mais hão-de morrer, se como diz a Cruz vermelha Internacional o pior ainda está para vir, por culpa exclusiva das políticas de austeridade impostas pelos homens que quiseram assumir a pouca vergonha de encabeçar a manifestação? A diferença objectiva, material, entre os dois grupos onde está então? Claro, a diferença está na violência assumida por uns, os assassinos de Al Qaeda, na violência ideologicamente escondida dos outros, os nossos dirigentes europeus. Nas armas utilizadas, as metralhadoras, por uns, a política de austeridade, pelos outros, e o resultado é o mesmo: mortos, muitos mortos. Desse ponto de vista o texto de Roosevelt é de uma enorme frescura e é uma enorme lição para quem ache que estou a exagerar.
Deixe nesta curta nota citar Michel Lhomme sobre a questão de Charlie Hebdo:
“No momento grave que é o nosso, todos os comportamentos da oligarquia política e intelectual nos fazem lembrar um pouco o sorriso da hiena. A hiena assemelha-se a um grande cão mas, como se sabe, é um felino, um gato selvagem conhecido pelo seu grito, um grito que se assemelha a uma risada desagradável, uma risada que emite apenas quando encontrou alimento, quando encontra a sua presa. Quando as hienas saem em grupo muito numeroso, não têm um adversário específico e estão na maior, não se ouve no deserto ou na savana senão as suas risadas desagradáveis em conjunto. Mesmo se não houver já ninguém para as desenhar, nós não gostamos destas risadas da hiena porque há sempre como um inferno em chamas no corpo das hienas. Os seus excrementos mediáticos e políticos têm a côr das cinzas brancas, as que nada consomem, que não solucionam nada mas que consomem em silêncio o mal que fizeram.”
Hienas ou chacais quais as diferenças, então?
Júlio Marques Mota

