Queimamos o facho na passagem do ano, ritual de purificação, de morte e ressurreição, que anuncia, crise e tudo, ou por isso justamente, um tempo novo. 2015 está agendado como um ano divertido e com mudanças de ciclos, jeitos e pensamentos.
Os estereótipos, para além de tudo, numa nação que se estime estão para ser quebrados, normalmente porque são os próprios do império, da metrópole e das suas modas; com a língua, com os géneros, com os temas a tratar – é necessário e urgente – que entram sorrateiros com o resto da publicidade.
É por isso e aproveitando os fachos queimados que acho fundamental neste hoje derivar o discurso e centrá-lo prático na tarefa; e evitar a centralidade da língua e da identidade.
Que o nacionalismo galego como discurso é uma reação ao nacionalismo espanhol e não uma estratégia interna fica claro com esta crise política do Estado espanhol. Vou temendo ofender, mas, na Galiza, esse discurso nasceu da Espanha, das filias, fobias e teimas derivadas do projeto na modernidade para a construção de uma Identidade nacional espanhola e do conseguinte confronto que, catalães primeiro e bascos depois, deram com isto.
Os galegos, cujo regionalismo sempre fora muito mais forte e era ainda quando Murguia começa a escrever bem mais sólido e evidente que o catalão, não fomos capazes até de desenvolver uma oposição continuada e fomos ultrapassados. Seica. Mas, talvez não fomos, talvez e simplesmente nunca terminámos de perceber o sentido deste confronto, deste jogo jogado com as regras da identidade e a nação únicas. Justo e talvez porque não casava com nós.
Gostei muito do artigo sobre a velha ideia galeguista da “Célula de Universalidade”, da amiga Maria Dovigo de 12 de janeiro no PGL, lê-lo, foi também um reforço a esta velha teima. Compartilho muito essas sensações, para mim os referentes há tempo são Said, Bhabha, Fanon, Kiberd… que bem acompanham nas prateleiras os velhos autores galegos e portugueses. A periferia, a margem, as escritas desde o exílio (interior, exterior), géneros e identidades em conflito, relativismo, hibridações, mimetizagens, complexidades nos transvasamentos, jogos de poder, dominações de campos, choques na elite e construção de identidades, a singularidade identitária entendida como osmoses e não como barreiras impenetráveis, a mudança percebida e desfrutada, a narrativa da nação, o sarcasmo, a mestizagem.
Porque é nessa sensação do novo, do útil, do mergulhar no outro, sem perder as vistas do ancestral, ou com os pés nisso e o olhar no longe, que a mim me fascina a Galiza dos tempos da Francesada; a Galiza do tempo das Irmandades medievais, e a Galiza do tempo das novas (1916-36); as Galizas emigrantes com os seus Centros, mútuas e projetos, a Galiza, moderna, industrial, portuária, agrarista, sindical. É dizer cada momento em que por colapso do poder, ou ausência do Estado a gente se organizou.
É por isso que me fascinam essas Galizas práticas do dia a dia, industriosas, científicas, experimentais, que importam jornais, invenções, trebelhos, máquinas, sistemas, produtos, alimentos, e novidades de toda a parte para as fazer nossas, dessas Galizas peregrinas e experientes, de ida e volta, emergindo do local ao geral até imaginarem fórmulas para o território inteiro.
Sim, a Galiza é santuário, uma arca de pedra, prevista para terramotos, tsunamis, glaciações, secas, fomes, e epidemias; há clima e condições, e há (e já foi melhor) água boa, uma alternância de ecossistemas e microclimas, há alimento. Se na Castela há uma unidade populacional por cada boa fonte; na Galiza também há uma, é só que multiplicado.
O do Território na Galiza é fascinante, remotíssimo na sua distribuição fixada e fórmulas legais (como incansável destaca o bom Penha Granha) e ou mesmo tempo enxergado como projeto de modernidade e ainda de ideia de futuro.
A Galiza, como muitas outras nações da Europa quedou feita com as guerras napoleónicas. Emergeu, daquela, simplesmente organizada. Mágoa a Junta Suprema do Reino da Galiza não declarasse o Estado galego em 1809, porque bem que estabeleceu e regulou comércio, emitiu moeda, criou um sistema eficaz de comunicações, analisou o território e os recursos, projetou a cartografia e os caminhos do pais, teve estado maior, diplomacia com Portugal e Inglaterra, desenhou um sistema de intendência, armamento, fábricas e hospitais; não deixou os britânicos desembarcarem o seu exército na Galiza para evitar submissão e pilhagem. Isto tudo e mais manter uma guerra que depois levou pela Península, pagando esse exército, não há referências a grandes fames nesses anos bélicos e após a devastadora invasão, da Junta 1809-1814. É curiosa tanta ordem, porque a implantação do centralismo uma década depois, vai abrir ciclos caciquismo, conflito, fame e emigração.
Esta história do território e da Junta, estas histórias de tanta cousa é do mais interessante. Haveria tanto que se poderia dizer e mais pesquisar; mas talvez mais importante seja achar o fio condutor, e o fio narrativo, a voz própria. E vai havendo já toda uma linha teórica, e toda uma narrativa dos géneros, da africanidade, da aborigenidade. Há que compreender como se rejeita mesmo a simbolização “branca” da identidade e se rejeita entrar no debate em campos teóricos inventados pelos dominadores; vai havendo discursos, exemplos, sentidos que são como desenhados para nós.


Haveria de evocar também a pessoa e obra de Isidro Parga Pondal, junto com da Isaac Dias Pardo, e as suas instituições, científicas e artísticas, hoje (quase) demolidas…