FRATERNIZAR – JÁ HÁ ‘LINEAMENTA’ E 47 PERGUNTAS À ESPERA DAS RESPOSTAS *- por Mário de Oliveira

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+ 1 Texto JF, Edição 2014, Janº 2015 Sínodo dos bispos sobre a família, Outº 2015

A doutrina-base é mais do mesmo

A Cúria romana mostra serviço, no que respeita ao Sínodo dos bispos, parte II, a realizar este ano, em Outubro. Já divulgou o “lineamenta”, ou documento-base, a partir do qual os bispos vão ter de trabalhar. O que seriamente se duvida que o façam, tão instalados que vivem nas suas rotinas. O documento culmina com 47 perguntas para católicos de todo o mundo responderem. Como, na sua esmagadora maioria, não são praticantes, podem responder uma coisa a cada pergunta e depois fazer outra, nas suas práticas quotidianas. Os bispos e o papa é que ainda são levados a pensar – pelo menos, é suposto que sim, mas, provavelmente, já nem eles! – que o pensar dos católicos corresponde ao seu quotidiano agir em família. Não corresponde. As poucas excepções só confirmam a regra. E é bem-feito, porque só a hierarquia da igreja católica romana, impedida de constituir família, é que insiste em falar de “família cristã”, quando não existe “família cristã”. Existe família. Não existem “famílias cristãs”. Existem famílias. Tudo o que se acrescenta a este escrever-falar é ideologia, por isso, negação da realidade. Pode ser, e é, muito cristão, mas não é nada humano, jesuânico. Fora do humano, do real, não há saúde, salvação. Há ideologia. Há pecado. Há mentira. Já li os “lineamenta”, ou documento-base, uma síntese elaborada por quem de direito, devidamente mandado pelo Sínodo, Parte I, realizado no último trimestre de 2014. E só não fiquei desapontado, porque já sei que da hierarquia eclesiástica, proibida de constituir família, não se pode esperar nada de jeito sobre as famílias humanas, nas mais diversas culturas. Os bispos, nem a própria família que os deu à luz conhecem bem, porque, quando pré-adolescentes, rumaram ao seminário, tiveram de a deixar e, depois de clérigos e bispos monárquicos, estão condenados a ter de viver à parte, ocupados em tarefas que não interessam nem ao menino-jesus, mas que eles realizam com aparente enlevo, tudo faz-de-conta, como funcionários do religioso que são. Basta ver as suas agendas, para se concluir com o que se ocupam. É uma dor de alma, mas eles gostam, porque foram formatados para essas coisas e, fora delas, nem jeito revelam para garantirem a sua própria subsistência diária. Basta pensar, por exempo, no falecido bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, com quem tanto convivi, concretamente, naqueles dez anos que viveu longe da sua diocese, no estrangeiro. Todos os meses, a diocese do Porto fazia-lhe chegar o respectivo salário, para ele viver sem quaisquer preocupações materiais. São privilégios que indignificam quem os aceita, como quem os aprova e realiza. Mas que querem? É do Direito Canónico! Subjacente aos “lineamenta” está ainda – vejam só! – o velho mito das origens bíblico, que o documento chama de primeira família da história, constituída pelo casal Adão e Eva, mais os dois filhos Caim e Abel, aos quais se juntará mais tarde, um outro, de nome, Set. O relato do Génesis é um mito, que um segundo relato das origens, elaborado 400 anos mais tarde, liminarmente rejeita e apresenta a chamada “criação em seis dias”, ao fim dos quais, Deus descansa. É outro mito, bem mais evoluído e muito mais oportuno para a época histórica em que é criado, escrito. Pelos vistos, nem o papa Francisco, nem os bispos, nem os cardeais conhecem estas realidades tão elementares. E não conhecem, porque têm horror à verdade, à realidade. Perante a verdade/realidade, o seu cristianismo cai como um castelo de cartas. E das suas igrejas monárquicas, não fica pedra sobre pedra. Por isso, fogem da realidade/verdade, como todo aquele que pratica o Mal, foge da luz que põe a descoberto os seus crimes. Que há então a esperar de uns “lineamemta” que ainda assentam nestes mitos bíblicos das origens? As famílias humanas das múltiplas nações do mundo, têm tudo a perder, se ainda vão por estas doutrinas e por estes mestres da mentira e dos mitos. E tudo a ganhar, se crescem de dentro para fora em sabedoria e passam a orientar-se pela sua própria consciência, a verdadeira casa de cada ser humano, mulher, homem, simultaneamente, casa de Deus, que nunca ninguém viu, de tão íntimo a cada uma, cada um de nós que é. O mais a que podemos chegar – e isso é o que há de mais humano – é praticá-lO, deixá-lO ser Deus em nós e connosco. Nunca os clérigos, quanto mais do topo da pirâmide do poder eclesiástico, pior, poderão sequer acolher esta realidade, muito menos, vivê-la, praticá-la. O Deus que constantemente têm na boca é, ele proprio, um mito, um ídolo que idolatram nos seus templos, santuários, catedrais, tais quais eles próprios, seus criadores, adoradores. Quanto às 47 perguntas com que concluem os “lineamenta”, são de fazer rir e chorar ao mesmo tempo. Formulá-las, tais quais elas estão, retrata bem os bispos curais que as pensam, formulam, divulgam. Apenas alguns exemplos: 8. Quais são os valores do matrimónio e da família que os jovens e os cônjuges vêem realizados na sua vida? E de que forma? Existem valores que podem ser evidenciados (cf. n. 13)? Quais são as dimensões de pecado que é necessário evitar e superar?; 10. O que é preciso fazer para mostrar a grandeza e a beleza do dom da indissolubilidade, de modo a suscitar o desejo de a viver e construir cada vez mais (cf. n. 14); 17. Quais são as iniciativas para levar a compreender o valor do matrimónio indissolúvel e fecundo como caminho de plena realização pessoal (cf. n. 21)?; 23. Na formação dos presbíteros e dos outros agentes no campo da pastoral, como é cultivada a dimensão familiar? São envolvidas as próprias famílias?; 32. Quais critérios para um correcto discernimento pastoral das várias situações devem ser considerados à luz do ensinamento da Igreja, para a qual os elementos constitutivos do matrimónio são unidade, indissolubilidade e abertura à procriação?(Sublinhado meu) Leiam e pasmem. As grandes questões concretas com que as famílias humanas deste início do terceiro milénio estão hoje confrontadas, também são afloradas, nos “Lineamenta” e nalgumas Perguntas, mas de modo tão desastroso, moralista, que chega a causar calafrios. Quão cruéis, estéreis, alienados, são os bispos e os clérigos das paróquias que os servem e lhes obedecem, contra a própria consciência, se é que ainda há neles algum resquício de consciência. O que seriamente se duvida, perante tudo o que, dessas bandas, nos é dado constatar todos os dias!

 

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