EDITORIAL – Mário Soares diz que. “A democracia em Portugal não existe”

Imagem2Ontem, ao fim da tarde, na sessão de apresentação do seu livro mais recente – uma colectânea de entrevistas de Mário Mesquita, Mário Soares na construção da democracia (editado pela Tinta da China) – O ex-Presidente da República produziu esta afirmação –

“A democracia em Portugal não existe!”

Temos com frequência evocado esses tempos do PREC em que as tensões políticas atingiram um ponto de ruptura e em que Mário Soares desempenhou um papel preponderante na opção que foi feita – a de adoptar um modelo de democracia «representativa», como a que vigorava e vigora na grande maioria dos países ocidentais. Ao aliar-se a Sá Carneiro, líder do partido herdeiro da União Nacional, ao conspirar com Frank Carlucci, ao pronunciar o discurso da Fonte Luminosa, Soares condenou a viabilidade de em Portugal se instalar uma democracia directa, apoiada numa quadrícula de órgãos de poder popular.

Na verdade, não existia no mundo um modelo credível de democracia (e continua a não existir). As alternativas propostas pelos partidos de esquerda iam de um capitalismo de Estado à beira do colapso, como o que governava a União Soviética, a exemplos absurdos como o da Albânia, de Enver Hodja. Mas havia a hipótese de tentar caminhos não-trilhados, o de construir uma democracia nova. Não era fácil, pois com uma maioria dos cidadãos apoiando a social-democracia, a democracia-cristã e os modelos neo-liberais, à defesa do «socialismo de rosto humano», juntavam-se os obstáculos dos defensores dos modelos de socialismo – não faziam parte da solução – aumentavam a gravidade do problema.

Para justificar as suas opções, Mário Soares poderá invocar muitas razões – mas «descobrir» quarenta anos depois que “em Portugal não existe democracia”, ofende a inteligência e a memória dos que sabem quem «meteu o socialismo na gaveta» e abriu as portas ao «socialismo de rosto humano», eufemismo para designar o «capitalismo á solta» que se instalou por toda a parte.

Em Portugal não existe democracia – é um facto – um governo de gente incompetente, incapaz, escudados por um presidente inacreditável – executivo e presidente que constituem provas de que o nosso sistema eleitoral é uma burla. Mas, pergunta-se: onde é que há democracia? Onde é que podemos colher um exemplo de um sistema verdadeiramente democrático?

«Quem construiu a democracia foi o povo», disse Soares na sua intervenção de ontem. Certo. E quem a destruiu foi quem teve medo de que o povo assumisse as rédeas do poder. Pode o porteiro do bordel queixar-se de que «lá dentro há prostitutas»?

1 Comment

  1. Sei que não sou lido mas num livro de minha autoria que veio à luz do dia em Março de 2012 já está escrito o que, agora, o tal Soares andará a dizer. Será bom recordar o Senhor Professor Doutor Magalhães Godinho que foi com quem, já lá vão uns bons anos, aprendi a seguir essa sua conclusão cuja objectividade é in- questionável “Em Portugal não há Democracia”.
    Dito pelo tal Soares não tem qualquer significado que não seja advinhar-se-lhe mais uma qualquer vigarice dentre as muitas sempre em curso.CLV

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