Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Kurt Von Schleicher: a última possibilidade da Republica de Weimar contra Hitler (6)
Woyzeck, Kurt Von Schleicher : la dernière chance de la République de Weimar contre Hitler
L’Espoir, 26 de Julho de 2014
(CONCLUSÃO)
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A 11 de Janeiro de 1933, levantou-se uma controvérsia entre o governo e a Câmara dos Estados federados. A Presidência desta Câmara (nota do Tradutor: o Bund) apresenta ao Presidente do Reich Hindenburg uma longa série de queixas sobre um certo abandono da agricultura. Hindenburg convidou o Chanceler do Reich, assim como convidou os ministros von Braun e Warmbold para esta discussão. Von Schleicher testemunhou o bom trabalho do governo sobre o assunto e garantiu que ainda era possível ter-se em conta os pedidos do mundo agrícola na medida do possível. Mas, após essa discussão, von Schleicher e os seus ministros tomaram conhecimento de uma decisão da Presidência do Bund publicada entretanto na imprensa difamando fortemente o governo e além disso especificando que esta instituição não toleraria um tal abandono da agricultura.
O governo defendeu-se contra essa condenação unilateral do Bund e tomou a decisão de deixar de negociar com esta Câmara. A Federação da indústria alemã apoiou esta atitude do governo.
No entanto, vozes contra o governo se espalhavam nos círculos agrícolas e entre os partidos nacionalistas (em especial o Deutschnationale Volkspartei). Hugenberg ele próprio começou a mudar sua posição face ao governo. Pouco antes ele mesmo tinha sugerido a von Schleicher de poder entrar para o governo e para ocupar a pasta da economia. Mas von Schleicher na altura recusou esta proposta porque ele temia que, assim, a colaboração dos outros partidos e dos outros grupos do eixo constituído em torno do seu governo fosse sujeita a efeitos negativos. O SPD também teria provavelmente nestas circunstâncias elevado o seu tom de voz em termos de desafio face ao governo e a uma escala nunca atingida até aí.
Hugenberg esforçou-se então a partir de meados de Janeiro a retomar os contactos com Hitler.
Enquanto que a política interna da Alemanha neste mês de Janeiro de 1933 provocava tumultos e manifestações em contínuo, nada de especial se estaria a passar em termos de política internacional. Von Schleicher mantinha sempre contactos com François Poncet (nota do tradutor: François Poncet, embaixador da França em Berlim de 1931 à 1938) a fim de se entenderem sobre as medidas da conferência mundial para o desarmamento de Genebra de 1932 que o governo desejava pôr em prática em primeiro lugar.
O embaixador encontrou o chanceler sobrecarregado neste período, mais preocupado que nunca, esgotado pelo trabalho. De acordo com afirmações dos seus familiares, François Poncet teria então pintado um quadro demasiado negro de von Schleicher. Von Schleicher, após a sua saída, confessou que não se tinha sentido muito bem durante o mês de Janeiro de 1933. Após a sua saída do governo teve que fazer um tratamento contra a sarna e contra a anemia. Mas não se pode dizer que as suas capacidades de trabalho tinham sido enfraquecidas de maneira significativa nas últimas semanas da sua chancelaria. Consagrou-se à gestão dos negócios com a mesma energia que lhe era sobejamente conhecida.
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Ver o original em:
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Ver a Parte V deste texto de Woyzeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
KURT VON SCHLEICHER: A ÚLTIMA POSSIBILIDADE DA REPÚBLICA DE WEIMAR CONTRA HITLER – por WOYZECK – V

