GIRO DO HORIZONTE – ESPERANÇA GREGA -por Pedro de Pezarat Correia

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            Os gregos votaram. O Syriza ganhou, os gregos ganharam. O que estes resultados vão significar, para os gregos, para nós portugueses, para a União Europeia, veremos. O filme só agora começou, algumas contradições já se perfilam no horizonte, mas temos como certo que muito vai mudar. Evidentemente que mudar por mudar não chega, mas quando “para pior já basta assim”, a mudança será sempre positiva. As minhas felicitações vão para o povo grego, pelo que quis significar com este voto, pela coragem que evidenciou.

            Há uns anos, exatamente há três anos, quando, perante a crise grega que parecia ainda pior do que a nossa, os aliados e parceiros da troika em Portugal gritavam a sete ventos que Portugal não era a Grécia eu, porque pensava que a hora era de solidariedade e não de distanciamento, dediquei esta coluna a esse tema com o título “Eu sou grego” (18 de Fevereiro de 2012). Perante o abanão que os gregos estão a provocar nesta Europa sujeitada e conformada, não tardará a termos de novo os Coelhos e Portas a gritar que não somos gregos. Este último até já veio hoje antecipar-se e dar o primeiro sinal. É altura de voltarmos à trincheira do “eu sou grego”, agora, conferindo-lhe o sentido da solidariedade contra a agressão terrorista que esteve na origem da recente onda do “je suis Charlie”. É o momento de sermos “Charlie-grego”. Porque se a vaga do “je suis Charlie” nasceu da solidariedade perante uma agressão terrorista contra a liberdade de expressão, a verdade é que no período pre-eleitoral os gregos foram vítimas de uma autêntica ofensiva terrorista contra a liberdade de expressarem a sua vontade soberana. Terrorismo psicológico mas terrorismo tout-court, porque terrorismo é a modalidade de coação exercida através do medo, da chantagem, da ameaça, para condicionar o outro levá-lo a fazer aquilo que de livre vontade não faria. As pressões que de todos os lados da UE convergiram sobre os gregos, de políticos, de banqueiros, de empresários, de analistas, de comentadores, da comunicação social, configuraram objetivamente uma campanha terrorista. E aqui reside a primeira grande vitória dos gregos – não cederam à chantagem, fizeram-lhe frente, derrotaram o terrorismo. Uma lição histórica.

Há um segundo aspeto que importa realçar. Já aqui tenho deixado expresso quanto abomino o equívoco pérfido do “arco da governação” com que a direita pretende recuperar, em nova versão, o caduco mandato divino para ocupar e exercer o poder. Há na UE tendência para reconhecer e institucionalizar esta usurpação de poder pela direita capitalista, conservadora, beata. Com o voto de ontem os gregos romperam com esse fatalismo e deram uma lição de democracia. Os gregos decidiram libertar-se das teias da armadilha com que a UE, através de acordos de gabinetes, de pactos orçamentais, de empréstimos e gestão das dívidas, de “troikas e baldroicas”, têm mantido os povos dos países periféricos reféns e sujeitos a políticas de austeridade humilhantes que os serventuários locais se encarregam de aplicar. Os gregos disseram não ao “arco da governação” da direita e deram-lhe a classificação autêntica, “arco da responsabilidade pelo estado a que isto chegou”.

A Grécia, berço da nossa civilização ocidental, que foi também o berço desta funesta experiência austeritária, perfila-se agora como o berço do polo aglutinador de uma frente solidária e alargada de indignados, transversal, transfronteiriça, com potencialidade para recuperar aquilo que o projeto europeu tinha de mais promissor, o Estado Social que tem vindo a ser sistematicamente destruído.

Por isso aqui deixo a minha solidariedade com os gregos.

 

26 janeiro 2015

 

 

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