Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
NEM TODA A GENTE É “CHARLIE”
Denunciar a hipocrisia
OJIM, TOUT LE MONDE N’EST PAS « CHARLIE ». Dénoncer l’hypocrisie !
Revista Metamag, 16 de Janeiro de 2015
Não, nem todos somos Charlie. A defesa da livre expressão e o respeito do luto das famílias não retira nada a uma necessária reflexão mais detalhada. A partir do dia seguinte ao drama, o sítio Le Bréviaire des patriotes denunciava o excesso emocional e a hipocrisia generalizada dos “ Charlie” de um só dia. Explicando não estar em boas relações com os “usurpadores”, o autor do artigo, Maxime Le Nagard, recusava “ tirar um obsceno alfinete deste jogo de tartufos como o fazem desde este meio-dia todo o teatro politico – mediático ao qual se junta, como cada vez que isso a pode distrair, a parte da populaça que gosta do odor do sangue e da compaixão a baixo custo”. E o facto de aplicar dois pesos duas medidas sobre a “liberdade de expressão” entre os desenhadores de Charlie Hebdo e o humorista Dieudonné. A hipocrisia está sobre todas as frentes.
Um pouco mais tarde, durante a tarde, é Boulevard Voltaire que entrava na dança. Numa tribuna a contracorrente, Gabrielle Cluzel recusa o totalitarismo da emoção, não acreditando “que seja necessário sentir-se obrigada a repetir esta frase, toda ela feita como uma encantação, para ter o direito de exprimir a sua compaixão, ter pena das vítimas e das famílias, de falar da sua inquietação”. Recordando que nos esquecemos bem rapidamente de que os dois polícias foram igualmente vítimas desta fuzilada, Gabrielle ousa confiar (desgraça!) que “sempre detestou o conteúdo” do semanário. Pior, “não encara a hipótese de ficar com ele à sua conta, hoje (s) afirma.”
Desta vez, a linha do jornal está também posta em questão. “Não sou Charlie porque a insultar a memória dos mortos pode-se então dizer que a linha do jornal tem frequentemente mais a ver com o insulto do que com o humor… e eu gosto bastante de me rir mas não de desprezar, de chocar, nem de humilhar”, explica ela.
No dia seguinte, numa tribuna publicada sobre Le Figaro/Vox, o senador belga Alain Destexhe denuncia o risco “da tirania do silêncio” que implicaria tomar como tabu toda a crítica do Islão radical na sequência deste drama. “Desconfio muito dos grandes impulsos de compaixão aquando das grandes tragédias. Aptos a canalizar a tristeza e a emoção geral, arriscam-se também em estar a mascarar o essencial”, escreveu , temendo ver a caça “às amálgamas” e “à islamofobia” a impedir qualquer crítica do Islão radical, ou mesmo do Islão, tout court.
Por fim, entre outras vozes dissonantes, a demógrafa Michèle Tribalat denunciava este Domingo, num outro registo, a hipocrisia de certas associações, a defenderem hoje a liberdade de expressão de um Charlie Hebdo que queriam reduzir ao silêncio ontem. Para começar, ela considera que “a imprensa poderia legitimamente arvorar este slogan se, de concerto, republicasse o conjunto das caricaturas que custaram a morte a estes valorosos caricaturistas”.
E denunciar a posição do MRAP que, no dia 11 de Fevereiro de 2006, intentava um processo à France Soir por ter reproduzido as caricaturas de Mahomet. A associação falava então “de desvio racista da liberdade de expressão”. Não é por este mesmo “desvio” que 10 desenhadores de Charlie Hebdo, apoiados hoje pelo MRAP, foram assassinados? “Quantos políticos que hoje só têm na boca a expressão liberdade de expressão ousaram, aquando da publicação das caricaturas dinamarquesas, sustentar, defenderam a liberdade de expressão sem restrição, sem nunca estar a invocar o espírito de responsabilidade, de contenção, de medida, de respeito, o carácter inoportuno ou provocador dos desenhos? ”, pergunta a demógrafa.
Que seja para denunciar a hipocrisia geral, a ditadura emocional, a irresponsabilidade da linha de Charlie Hebdo ou simplesmente para expressar a sua rejeição ideológica, o semanário está bem longe de criar a unanimidade total apesar do ataque trágico que sofreu.
OJIM, (Observatoire des journalistes et de l’information mediatique) TOUT LE MONDE N’EST PAS «CHARLIE» – Dénoncer l’hypocrisie!, Texto publicado por Metamag e disponível em :
http://www.metamag.fr/metamag-2580-TOUT-LE-MONDE-N%E2%80%99EST-PAS–CHARLIE-.html




