CARTA DO RIO 35 – por RACHEL GUTIÉRREZ

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Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece, dizem os chineses, os indianos e os sábios sufis. Neste Brasil ocidental e sul-americano, onde os profissionais do ensino são desvalorizados e quase ninguém se refere aos mestres como guias dignos de respeito, alguns professores com os quais tive o privilégio de conviver habitarão para sempre as minhas gratas lembranças.

No antigo Curso Clássico, que comecei a frequentar aos dezesseis anos, o professor de Francês de quem recordo apenas o sobrenome, Perrault, era um homem alto e forte, parecido com o ator Walter Pidgeon, que hoje só alguns raros cinéfilos sabem quem foi. Pois o nosso professor Perrault, além da semelhança, tinha daquele ator a simpatia e um irresistível sorriso bondoso. Apaixonado pela poesia, costumava declamar com gosto e emoção os versos imortais de Malherbe: … et rose, elle a vécu ce que vivent les roses, l’espace d’um matin; lia-nos Victor Hugo, Baudelaire, Verlaine; remontava ao século XVII e falava-nos em Bossuet e Boileau e nos explicava a diferença entre “ a cabeça bem cheia “ e “ a cabeça bem feita ”. E esse professor extraordinário, bastante extravagante para aquela época, costumava nos deixar sozinhos nos dias de provas. Dizia que podíamos “colar”, conversar, consultar uns aos outros ou algum livro, pois isso só contribuiria para melhorar os nossos desempenhos!  Ah! quem dera que cursos Clássicos voltassem a existir e que professores pudessem recuperar o entusiasmo e a liberalidade do professor Perrault.

Outra professora inesquecível, do mesmo curso e da mesma época, foi Zilah Totta, cuja contagiante paixão por sua “matéria”, a Filosofia, determinou a escolha da minha faculdade. Zilah também era amável, generosa, compreensiva e liberal, amiga dos alunos, atenta a cada um. E concentrava num corpo miúdo e um tanto desengonçado toda a energia que a animava. E nos grandes olhos negros, a luz da vocação de quem ama ensinar.

Especialmente inesquecíveis são todos os meus professores de música e de piano, a começar pela paciente e amorosa Dona Maria Montano, que orientou meus primeiros contatos com o instrumento; a seguir,  Natho Henn, ( cujo nome foi dado à Discoteca Pública de Porto Alegre, que ele criara), que além de pianista e compositor extremamente original, foi também poeta e pintor. Um mestre muito querido e um paternal amigo.

E como esquecer a figura encantadora e extraordinária de Guilherme Halfeld Fontainha, que depois de uma Master Class em Porto Alegre, não só me ofereceu uma bolsa de estudos para estudar com ele, no Rio, mas me levou anos mais tarde à Europa, com sua família, numa viagem de navio do Rio a Lisboa.  Fontainha, que se dispunha a dar aulas onde quer que o convidassem, desde que não tivesse de ir de avião, foi várias vezes do Rio de Janeiro a Sant’Ana do Livramento, no extremo sul, de trem, sempre vestindo impecáveis ternos de linho branco! Um personagem fantástico.

Em Viena, estudei com o famoso Bruno Seidlhofer, que se negava a falar qualquer outra língua além do seu alemão bastante dialetal porque, segundo ele, os alunos de diferentes nacionalidades, aprendiam mais depressa o alemão do que a tocar piano. Exigentíssimo quanto à pontualidade nas aulas e ao domínio técnico, só depois ensinava tudo sobre fraseado, cantábile, sonoridades, timbres, em suma: o verdadeiro estilo de cada compositor e de cada partitura.

Anos mais tarde, tive outro professor que nada ficava a dever aos anteriores, nem mesmo ao grande Seidlhofer. Falo do brasileiro Homero de Magalhães, pianista e músico de primeira grandeza, que para nosso pesar gravou pouco, mas cujo CD das Cirandas de Villa-Lobos dificilmente poderá algum dia ser igualado. Sua respeitável cultura dava o colorido exato às interpretações de Bach e de Beethoven, de Ravel, de Debussy…  E o brilho da perfeita brasileirice da sua execução do nosso Ernesto Nazareth merece que o escutemos ao menos neste exemplo do choro Odeon:

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One comment

  1. Simplesmente deliciosa esta interpretação de Odeon (Ernesto Nazareth)

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